Esse artigo é uma reflexão incidental sobre o artigo de minha amiga Paula Moiana da Costa, professora de biomedicina da Unipar, publicado em seu Blog (em parceria com Caio Mariani) Minestrone a Bolognesa. O artigo está em duas partes e chama-se Facas Cegas de Um Só Gume (clique para lê-los: As Idéias, parte 1 e Os Fatos, parte 2). Parcialidades E desde sempre parece ter sido assim. Esse ideal de um olhar neutro do ser humano para a natureza com o intuito que ela própria se revele em seus segredos mais recônditos, não passa disso: um ideal. Um ideal talvez lockiano configurado por seu conceito de Tábula Rasa. Tanto culturalmente quanto por nossa própria condição de seres-no-mundo, da carnalidade pontyana, todo o nosso olhar parece já se encontrar pré-configurado para ver determinadas coisas, mesmo que uma infinidade de outras estejam ali, bailando à nossa frente, se exibindo e querendo nos seduzir para serem notadas. (Vide nota 1) Parece então que somos determinados a sermos parciais. Todo olhar voltado a algo pode se arvorar a ser neutro e imparcial, mas a explicação do que se viu, a construção de nexos daquilo que se precipitou aos nossos olhos, sempre terá como pano de fundo as crenças e a contextualização histórica do dono do olhar. Seria esse nosso determinismo? Se for, ele é muito mais poderoso que um decantado determinismo biológico que os defensores do "Nurture" acusam as ciências biológicas. Talvez seja possível ir mais além. O nosso olhar é, antes de mais nada biológico. Já possui suas próprias limitações no espectro que consegue captar a luz. Enquanto ferramenta de uma vontade, de um ato volitivo, ele já nos determina a ver somente aquilo que ele é capaz fisicamente. O ato de olhar, porém, ele não é apenas determinado pela fisiologia de nosso órgão, mas é condicionado por nosso psiquismo totalmente imerso num mundo que se dialetiza com a realidade percebida o tempo todo, determinado por nossas raízes históricas e sociais. Até a própria realidade que o olhar dialoga está impregnada de nossa contextualização. É de uma inocência ímpar acreditar que nossa maior determinação seja biológica. Se boa parte de nosso comportamento emerge pela confluência de fatores que nos trouxeram evolutivamente até aqui, não há dúvida que grande parte dele e que abarca quase nossa totalidade, é determinado por nossa cultura e contextualização histórica. Mesmo assim parece ser o gênero humano pródigo em romper seus próprios determinismos, sejam eles biológicos ou culturais. Conseguir ir além nos possibilita até subverter o que naturalmente tendemos a pensar, isto é; que sofremos uma determinação biológica mas a rompemos na construção de nossa cultura. Parece-me muitas vezes ser exatamente o oposto: a natureza nos dotou da capacidade de rompermos qualquer determinismo, ao passo que culturalmente nos prendemos em idealismos que nos determina a sermos e pensarmos de uma determinada maneira, inclusive nos achando no direito de vigiar e punir o outro se por acaso não assumir nossa maneira de ser. E esse determinismo se impregna até no fazer ciência. Olhares Possíveis Se as dúvidas de Darwin começaram no questionamento da teleologia e principalmente no questionamento do fixismo, elas trazem por consequência a ausência de um finalismo determinístico numa Dança Cósmica do constante devir como fundo, ou nas palavras de Julian Marias: como “mobilidade constitutiva”. Darwin, sem noção de genética alguma, sem nem sequer ter lido os trabalhos de Mendel existentes antes de sua teoria, por pura observação naturalista captou todas essas possibilidades num exercício raro de indeterminação possível ao olhar humano. É difícil de imaginar que o próprio olhar naturalista de Darwin quisesse ver o que ele viu para construir os nexos que construiu como se houvesse já no olhar uma estrutura teorética de pano de fundo. Embora difícil, é algo que precisará sempre ficar em aberto. Mas temos que levar em conta que, segundo seus diários, embora já procurasse por algo, suas idéias tendiam a uma teleologia necessária que mais tarde ele foi obrigado a abandonar a favor daquilo que observou (ou do que viu como oportunidade de interpretar). De qualquer forma, na construção de nexos daquilo que viu, Darwin propôs um mecanismo que traduzia também todo um contexto histórico que vivia. A efervescência da era industrial, o questionamento do fixismo por uma ideologia liberal burguesa e protestante, que questionava um poder central e privilégios natos, pode ser vista como pano de fundo à parte dos nexos que Darwin construiu. Há de se separar a forma de olharmos a obra máxima de Charles Darwin. Uma é considerarmos apenas sua proposição conclusiva. Outra é acompanharmos e construirmos nossos próprios nexos a partir das longas descrições que ele faz daquilo que viu, tateando todas as possibilidades antes de concluir. Essa é a maior riqueza que ele nos lega, pois realmente dá a impressão de que ele chegou bem perto da imparcialidade ao descrever o que viu antes de construir a conclusão que tirou. A própria conclusão e formulação teórica permite vários olhares sobre ela: tanto contextualizados na episteme da sua época, como fruto de uma força de vontade em busca da imparcialidade. Essa postura de Darwin, num primeiro momento apenas descritiva, nos possibilita olhares plurais e variados numa natureza que não precisa de um olhar próprio sobre si e se abre aos curiosos da maneira que eles querem vê-la dentro de seus próprios contextos. Um desses olhares vai em sentido oposto daqueles que querem ver um determinismo necessário tanto na natureza biológica quanto na nossa cultura. De que forma se configura nosso comportamento? É determinado pela cultura ou por nossa estrutura genética? Determinismo x Indeterminismo É curioso como nos perguntamos o que nos determina. Essa pergunta já direciona nosso olhar para encontrar “o” determinante. Não passa por nossa cabeça “determinada” que talvez possamos ser indeterminados, mas que assumimos determinações por algum motivo ou mecanismo que ainda não entendemos. Um dos caminhos contrários à boa Filosofia parece-me ser justamente formular a pergunta de forma equivocada. Seria esse o caso? Evocando ainda as evidências darwinianas e nosso velho e obscuro Heráclito, essa confluência contingencial de fatores que trabalham dialeticamente numa teia cuja síntese é um equilíbrio situacional, desemboca em estados que não nos dá garantia alguma que não irá mudar ao longo do tempo. Portanto, concordando com a Paula, determinar como natural o direito que emerge de nossos instintos é falacioso. Nossos instintos mudam de geração em geração, e hoje entendemos que a estrutura genética tem flexibilidade na maneira de se expressar diante de situações específicas. Temos então, pelo menos, cinco lados nessa “moeda pentagramática”: Como então nos acharmos determinados por algo? Como não vermos desde dentro de nós o clamor irresistível da mobilidade constitutiva que nos faz todos, individualmente e enquanto espécies, inacabados, em construção, fluídicos frente às possibilidades estéticas que a confluência de todas as cores, gostos, sons, texturas que nos fazem irresistivelmente querer e sermos obrigados a experimentar? Parece-me que somos sim determinados. Determinados por tudo isso a sermos indeterminados. O que nos determina então é outra coisa: A Cegueira de Gume Afiado. A Cegueira de Gume Afiado Por que então, sabendo-nos indeterminados precisamos da tutela de algo parmenedianamente fixo, imutável e seguro para pautarmos nossa vida? José Saramago pareceu-me ter sido muito feliz nas reflexões que fez em seu Ensaio Sobre a Cegueira. Algumas reflexões suscitam-se irresistivelmente em nossas mentes ao ler o livro e assistir o filme brilhantemente dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles. Alguns pontos podem ser destacados para minha argumentação. A cegueira pode vir pelo excesso de luz. A metáfora parece-nos “clara”. A idéia de que a racionalidade, a razão, posta desde o Iluminismo nos daria a resposta pra tudo, nos trouxe uma cegueira imensa que desemboca na contemporaneidade. Assim como no filme; cegos, desorientados por tanta luz que nos tira a visão, caímos fácil na barbárie, na destemperança, na falta de rumos e sentidos. É preciso descer ao mais básico do gênero humano, ao mais primitivo, para nos vermos crus e começarmos a nos reconstruir como sociedade. Isto é, precisamos nos “incondicionarmos”, nos “indeterminarmos”. Não, talvez, para saber quem somos, mas talvez para nos reconstruirmos naquilo que queremos ser, dialeticamente construídos entre o desejável e o possível. O esclarecimento parece nunca ser completo, pois nosso olhar precisa da sombra pra dar contraste ao que vê. Esse é nosso determinismo biológico que nos dá a limitação daquilo que podemos alcançar. No entanto, discordando e concordando com Kant, a base do esclarecimento possível só pode ser pautada pelo exercício irrestrito da liberdade e da autonomia. A luz excessiva, aquela que direciona nosso olhar a uma única direção (a razão ou a religião), nos rouba a espontaneidade de nos vermos indeterminados, livres, criativos e possíveis. Da mesma forma as trevas, a sombra excessiva do controle que oprime e desinforma nos coloca sob a responsabilidade da tutela alheia e instrumento de domínio de interesses que em geral passam à largo de nossas necessidades (talvez por isso insisto em filosofar na penumbra rs). A cegueira, em ambos os lados, tem gumes afiados que cortam a carne das gentes sem que percebamos. Só nos damos conta quando, esvaídos em sangue, nosso corpo queda à mercê dos opressores. É a liberdade e a autonomia em dialogarmos na coletividade que nos garante o exercício da própria mobilidade constitutiva da natureza. A cegueira da fixidez, seja ela pela pretensão de um esclarecimento total positivista e iluminista (excesso de pretensa luz racional), seja ela pelo tradicionalismo religioso (excesso de pretensa luz espiritual), nos faz conviver com paradoxos que facilitam que nos submetamos à tutela de terceiros frente ao nosso destino. A cegueira que nos irresponsabiliza pelo nosso próprio destino nos deixa nas mãos dos poucos “iluminados”. É tão cega ou mais perniciosa que a cegueira da razão, a cegueira do dogma que querendo que a natureza seja ouvida (como suposta tradução da vontade divina), é contra a morte provocada artificialmente (o aborto), mas a favor da vida mantida artificialmente (a eutanásia). Seria ela contra, portanto, à possibilidade da eternidade dada pela ciência? Os critérios são contraditórios, típico de olhares que não assumem que não podem enxergar tudo. Essa mesma tradição fixa os papéis sociais humanos com base numa suposta criação finalística e determinada, denunciado pela Teoria de Gênero feminista que tem seus primórdios nas reflexões de Simone de Beauvoir: "Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino." - Simone de Beauvoir em O Segundo Sexo de 1.949. Embora possamos dizer que o homem se "tornou" o que bem quisesse e submeteu e oprimiu todos os gêneros e inclusive grande parte de si mesmo, determinando tudo como deveria ser de acordo com suas intenções particulares, culpar um gênero inteiro como se houvesse existido ações coordenadas e intencionais de quem usurpou poder e bens para defender seus próprios interesses parece ser exagero. Podemos até dizer que, fosse mulher, jamais fariam isso. Mas dizer isso é determinar uma essência no homem da mesma forma como ele determinou a das mulheres para melhor submetê-las a cumprir suas determinações. A cegueira tem gume afiado. Ela nos tira as possibilidades de sermos mais e buscarmos ser diferentes. Nos cativa e nos embota no fixismo que interessa a poucos. Nem a ciência nem a tradição tem as respostas. As respostas somos nós que damos, podendo estar permeados pelo conforto que a religião que não domina e oprime pode dar, e pelas descobertas científicas que podem nos fazer enxergar mais longe. A interpretação do que a ciência nos lega é histórica, contextual e móvel, quando experimentado o doce sabor da liberdade e da autonomia. Natural e Cultural Para finalizar fico com a frase da Paula: “Ambos (naturalistas e culturalistas) não percebem que ao modificar o meio, modifica-se a expressão da característica, de modo que ela sempre resulta do meio, mesmo que seja inata.” Paula Moiana da Costa. Parece-me encerrar nessa frase os 5 pontos que saliento na “moeda pentagramática” que a vida negocia com o universo. A questão parece-me ser epistemológica. Ela nos dá a base do próprio movimento da vida e da possibilidade do conhecimento desse movimento. A pretensão de uma posição absoluta e de um olhar privilegiado para se emitir juízos sobre as coisas se constitui no maior exercício de cegueira que o ser humano pode se impor. É natural que mudemos constantemente. É cultural e histórico queremos deixar de enxergar essa mudança e fixarmos as bases de qualquer entendimento possível das coisas. Culturalistas e Naturalistas são históricos, logo são tão cegos como todos nós. Agradeço à Paula pela inspiração, mas já refletia sobre isso, em outros âmbitos desde Novmebro de 2007: Naturalidade e Meio: http://miranda-filosofia.blogspot.com/2007/11/reflexes-i-entre-naturalidade-e-o-meio.html Nota (1) Em meu entendimento, cada ciência, na construção de seu método científico, tem como meta principal a tentativa sistemática de neutralizar intencionalidades que interfiram na aferição de resultados. Mas o método não garante a direção em que o olhar do pesquisador estará voltado na construção dos nexos que darão corpo teórico explicativo ao fenômeno observado. Um dos balizadores é o resultado, mas ele pode dar suporte às mais inverossímeis teorizações, que serão descartadas somente quando nossa capacidade de observação aumenta. Outro balizador que controla o primeiro, é a aderência a um corpo teórico já consolidado e robusto. Isso significa que uma teoria que não tem respaldo em outra já consolidada, dando continuidade a ela, tende a ser desacreditada com mais facilidade que outra, que chega aos mesmos resultados, mas é aderente a um corpo teórico já consolidado. Tudo isso, de certa forma, dá coerência mas engessa a ciência, e o avanço parece ser muito mais lento do que poderia. Isso daria até um outro artigo.
Não tem como não concordarmos com a tese que enxerga a ciência procurando a melhor descrição possível da realidade tanto quanto for alcançável a capacidade humana de observação. Porém é difícil hoje, na contemporaneidade, ainda mais com o aprofundamento dos estudos epistemológicos feministas e na concomitância das considerações filosóficas de Habermas, Kuhn, Derrida, Bachelard e outros, não considerarmos que essa "melhor descrição possível" traz em seu bojo certa determinação interna de cada pesquisador; ditada por seus próprios contextos culturais e históricos e confirmados e reproduzidos por toda a comunidade científica.
Meu olhar particular, que não se arvora a ser imparcial nem neutro, parece trazer Heráclito no cerne das questões trazidas pela Teoria da Evolução de Darwin. Parece-me que a natureza nos dotou de uma capacidade infinita e indomável de nos indeterminarmos. A realidade como eterno devir, parece refazer-se a cada segundo em suas potencialidades. Aliás, parece justamente romper com a idéia aristotélica de potência e ato, e se circunscrever no terreno das possibilidades contingenciais. Contingencialmente, nossos genes parecem refazer-se em suas potencialidades e se expressar (se atualizar) de acordo com as possibilidades abertas pelo ambiente que interage. Essas noções depreendidas da própria leitura da obra de Darwin parece derrubar com a idéia de que o evolucionismo traz em seu bojo o determinismo. Nem ele, nem a própria natureza, cuja decodificação ainda não temos nada superior à Teoria da Evolução.
Essa frase de Simone sintetiza, por pura intuição filosófica, o que seria mais tarde a coluna basilar da teoria feminista. Além disso, ela parece se encaixar muito bem como todos os gêneros recebem suas determinações e condicionamentos para serem exatamente o que esperam deles, com base naquilo que pretendem (os que detém o poder) atingir como ideal de cidadão a ser controlado e vigiado aos termos de Foucault.
Apenas três axiomas para obter a teoria quântica?
17 horas atrás





4 comentários:
Miranda,
como sempre, "matou a cobra e mostrou o pau". hehe
Mas eu questiono esse indeterminismo. Sim, percebo que as variáveis que nos afetam são múltiplas e fluidas, e talvez por estas características nos remetam á sensação de liberdade.
Quando falamos de expressão gênica, creio que estamos em perfeito acordo. Os genes limitam as possibilidades, mas não nos levam inexoravelmente a um determinado sentido. Dependem do meio.
Só que o meio, apesar de parecer, não é aleatório. Eu tenho algumas restrições à idéia probabilística do Universo. As coisas ocorrem por acaso, é claro, mas no sentido de que não há uma finalidade para elas ocorrerem. Mas as variáveis ocorrem em decorrência de outras variáveis. As probabilidades só são probabilidades porque não conhecemos todas as variáveis envolvidas.
A partir do momento em que não podemos ser outros, e que o meio que atuará sobre nós é sempre consequência de uma cascata de variáveis interrelacionadas, estamos presos às contingências. Temos um genótipo amplo, mas limitado. Um meio multifatorial, mas restrito e preso á causa/consequência. Não consigo ver essa "mobilidade constitutiva" a que vc se refere. A própria consciência não é capaz de se desligar de sí mesma para nos livrar do determinismo acarretado por tudo o que nos cerca.
Eu creio que naturalistas e culturalistas são excessivamente parciais. Mas percebo o mundo determinístico ao extremo, só que com fatores mais complexos do que os habitualmente utilizados nas argumentações a favor de um ou outro.
Talvez seja a cegueira da fixidez. rsrs
abraços!
Ohh querida Paula, eu que agradeço a inspiração sempre suscitada cada vez que leio seus pensamentos, seja para concordar com eles ou trazer contrapontos para que pensemos juntos.
Determinismo e LiberdadeSua colocação nesse comentário me fez pensar. Será que eu quis dizer "liberdade" quando falei em indeterminismo? Postular como petição de princípio, como fez a Escola de Frankfurt, a liberdade como valor fundamental para o esclarecimento, embora faça sentido e confirme a lucidez de Kant, é de alguma forma também determinar como o indeterminismo deva se comportar.
Em um momento de meu texto eu falo: "precisamos nos 'incondicionarmos', nos 'indeterminarmos'. Não, talvez, para saber quem somos, mas talvez para nos reconstruirmos naquilo que queremos ser, dialeticamente construídos entre o desejável e o possível."
A dialética entre o desejável e o possível exclui a determinação da liberdade como petição de princípio, embora seja um valor extremamente desejável. Sendo desejável, parece haver um deve em procurar alcançá-lo, mas devemos saber que sua vivência se firma no terreno do possível. Muitas vezes, talvez na maioria delas, sabemos nós que é impossível.
Mas a liberdade, como valor desejável a ser buscado, parece reunir as condições de possibilidade da vivência dessa indeterminação. Podemos até dizer que individualmente não tivemos muito a ver com a liberdade até então. Mas coletivamente, o gênero humano a exerceu determinando o mundo e as pessoas a se comportarem como ele quis. Os que detêm o poder, seja ele usurpado ou não, exerce a liberdade total de influenciar as contingências de acordo com seus desejos. Eles exerceram uma quase irrestrita liberdade para impor o fixismo ao mundo, como forma de moldá-lo ao que desejam. Logo, liberdade existe, embora pareça estar nas mãos erradas RS Mas não há dúvida que a liberdade também é condicionada. Em suma, concordo com você.
Acaso, Aleatoriedade e MeioUm ponto que parece não ter ficado claro também, diz respeito a aleatoriedade. Parece-me que você entendeu que eu tenha dito que o meio se configura de maneira aleatória. Talvez, na verdade, você tenha intencionado pontuar que nossos conceitos de aleatoriedade sejam diferentes. Vamos ver se entendi RS...
Primeiro você define acaso no sentido de que não haja uma finalidade para a sua ocorrência. Parece-me que a decorrência desse raciocínio implica então que tudo tenha uma causa necessária, mesmo que sem propósito. Propósito implica intenção. Mas acaso significa “sem causa” e não sem propósito. A questão do propósito se circunscreve no conceito de aleatoriedade.
Bem, eu separo conceitualmente acaso e aleatoriedade. Ambos, porém, parecem-me, assim como a Darwin, meras confissões de ignorância. É pura negatividade e não positividade. Isto é, acaso tem a ver com causa, aleatoriedade tem a ver com padrão e propósito; finalismo. A ignorância do conhecimento de uma causa ou de um padrão recebe os nomes de acaso e aleatoriedade respectivamente. Essas palavras não possuem positividade na medida em que preconizam a ausência de algo. E uma ausência ou uma inexistência não é possível ser provada ou mesmo afirmada. Ela é probabilística. E nesse sentido parece que você concorda que, a probabilidade só é probabilidade por que não temos o controle de todas as variáveis.
Assim como algo ao acaso pode ter um padrão de comportamento detectável, algo aleatório pode ter uma causa observável. Algo ao acaso pode ter um finalismo sem propósito ou desígnio, isto é, possamos inferir seu resultado mesmo desconhecendo a causa. No entanto em algo aleatório não é possível prever o resultado, embora possamos ter idéia do que o cause.
Posto essas diferenciações, falar em determinismo implica definir se estamos falando de aleatoriedade ou de acausalidade. O meio é aleatório. Sabemos as causas que o faz mudar, mas não conseguimos prever o resultado, pois sua causa é uma confluência contingencial de vários fatores interligados e inter-relacioados, co-dependentes e co-interferentes em efeito cascata (efeito borboleta) que é imprevisível, embora em certa medida possamos tentar prever probabilisticamente. A previsão climática parece ilustrar bem isso.
É essa a mobilidade constitutiva de que falo. Ela é aleatória; obedece, como você disse, a relação causa-efeito, mas não tem um sentido determinístico justamente por que não temos como conhecer todas as variáveis que a compõe, e mesmo que soubéssemos cada interação delas nos daria um resultado possível diferente. Não tem uma essência fixa. Sua essência é a mobilidade e as proporções aleatórias entre as variáveis que a compõe.
As contingências indicam um caminho apenas possível, mas não determinado. Ao nos saber fazendo parte dela, podemos decidir interferir. Eis a liberdade possível. Essa interferência, porém, está limitada à própria influência que exerce sobre o que somos, logo é apenas uma ruptura radical que nos parece inverossímil, mas a possibilidade de mudança existe.
Por fim você diz: “A própria consciência não é capaz de se desligar de sí mesma para nos livrar do determinismo acarretado por tudo o que nos cerca.” – Mas acontece que nossa consciência faz parte desse “tudo que nos cerca” e constitui ele. Logo tudo que nos cerca também sofre influência da consciência. A Vontade parece ser o elemento de ligação entre o que deve ser e o que pode ser, mesmo que parte dela seja constituída pelas contingências. Só para lembrar, Nietzsche também via dessa forma e postulou a Arte Dionisíaca como a única forma de sairmos do que ele chamou de Eterno Retorno, isto é, a Roda de Sansara, o determinismo.
Sobre Direto Natural e sua faláciaEu tendo a aceitar o direito natural. O problema é que determinamos a natureza a ser do jeito que legitime o direito que queremos ter e exercer. A falácia não está, necessariamente, no raciocínio hiperbólico que degrede da ação da natureza para a ação na sociedade. Está em idealizarmos e determinarmos a naturalidade com um olhar viciado e intencional que legitime o que queremos viver na sociedade. Isso implantou o terror do domínio, exploração e opressão do homem pelo próprio homem. Tudo isso por um olhar hierarquizador, ordenador, iluminista, positivista e tendencioso pousado sobre as coisas.
O problema é legitimizarmos o direito natural através de uma concepção equivocada da natureza que nos daria a matéria prima de nossas ações. Se ela tem essa mobilidade constitutiva, as coisas que depreendemos também tem. A legitimação falaciosa está em considerarmos a natureza de forma teleológica, nos fazendo “obrigados” a eleger autoridades cuja interpretação dessa teleologia prevalecesse sobre as demais e nos pautarmos por ela enquanto coletividade. É, a meu ver, onde reside todos os problemas. Eu ainda tentarei desenvolver algo mais robusto sobre isso.
Portanto, o princípio que estabelece o direito natural não me parece falacioso. Sua aplicação a partir dos pressupostos históricos utilizados constitui sua verdadeira falácia.
Amiga querida, obrigado demais por seus comentários...
aff nao consegui pular linha dos subtítulos... desculpe rsrs
O que dizer depois dos artigo da Paula e do Miranda? Ou ainda,
o que dizer depois da resposta da Paula e da replica do Miranda rsss
Vou tentar ser concisa e nao chover no molhado…
“Um intelecto que, em dado momento, conhecesse todas as forças que dirigem a natureza e todas as posições de todos os itens dos quais a natureza é composta, se este intelecto também fosse vasto o suficiente para analisar essas informações, compreenderia numa única fórmula os movimentos dos maiores corpos do universo e os do menor átomo; para tal intelecto nada seria incerto e o futuro, assim como o passado, seria presente perante seus olhos”...
O demonio de Laplace ecoa o determinismo positivista e mecanico de sua epoca. Na ciencia moderna o uso da metafora do mundo sendo como uma “maquina” foi proposta por Descartes pra compreender o funcionamento dos organismos, e depois foi se generalizando cada vez mais, atè se tornar um modo de interpretar todo o universo,
o risco, como ja foi alertado, seria nao pensar no mundo como se fosse uma maquina,
mas, ja ser convinto, realmente, de que ele seja mesmo uma maquina.Mesmo que o demonio de Laplace venha sendo exorcizado nestes ultimos tempos pela ciencia,a possibilidade de tudo ser redutivel e unidirecional ainda è bastante cultivada.
Toda ciencia tem um embasamento social, e todo cientista, na maioria das vezes, elenca as certezas dominates,
mesmo quando almeja a objetividade e a imparcialidade. Mesmo Darwin que se manteve fiel aos registros de suas observaçoes,
nas ultimas linhas, ja na conclusao, se deixou levar um poquinho pelo espirito vitoriano rss
Seja como for, a teoria da evoluçao, por ele proposta não é uma teoria mecanicista de determinismo ambiental. E penso que tenha muito pouco do determinismo e do finalismo progressista como muitos continuam a sustentar.
A nossa historia tem muito caos, sao tantas diferenças minimas e incomensuraveis que levam a resultados divergentes.
O peso da contingencia e do acaso - nao no senso matematico, que todos os eventos possuem a mesma probabilidade de ocorrencia – sao bem mais determinantes do que as leis da natureza. E parece claro que so ha sentido em falar na relaçao entre ambiente e organismos vivos como sendo uma interaçao dinamica entre os dois, como o pentagrama proposto pelo Miranda
O Homo sapiens nao aparece na Terra porque a Teoria da Evoluçao assim preve, mas por uma serie de eventos unicos e encadeados. E do Homo sapiens atè hoje, o Homo informaticus rss,
apesar de continuarmos evoluindo biologicamente,
a evoluçao cultural teve, e tem, uma influencia extraordinariamente maior. Tudo o que conseguimos é um resultado da evolução cultural. A evoluçao cultural progrediu segundo taxas que os processos darwinianos nem sequer se aproxima. O que aprendemos numa geração transmitimos diretamente pelo ensino, pela escrita, pelos sinais, por todos os meios possiveis.
A hereditariedade dos carateres culturais adquiridos, segundo Gould, tem um carater mais lamarckiano, pois é rápida e acumulativa, e explicaria a “diferença profunda entre o nosso modo de mudança passado, puramente biológico, e a aceleração enlouquecedora com que corremos em direção a algo novo e libertador - ou em direcção ao abismo.”
Ja com o Ensaio Sobre a Cegueira, penso tambem que tenha uma certa proposta da indeterminaçao ontologica, que dizem, ser uma das caracteristicas do
“pòs modernismo” . Saramago nos propoe uma alternativa ao mundo atual e ordinario. Sabemos que è um mundo moderno, mas nao sabemos aonde, nem quando com certeza a historia acontece. Seria a cegueira uma analogia ao nosso desnorteamento pòs moderno?
Bom, por enquanto era isto,
sobre a Simone De Beauvoir,
a vejo sempre como uma das primeiras a superar,e a sugerir que superassemos, todos os mitos culturais, sociais, historicos e atè cientificos,
a recusar qualquer especie de pre destinaçao ou determinismo. E para uma sociedade machista e conservadora que era sociedade francesa naquela epoca, o seu livro,
O Segundo Sexo, caiu como uma bomba. Ela propunha uma outra otica, explicava e desvendava tabus e sentimentos que atè entao eram inconfessaveis.
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