Filosofando na Penumbra

A intenção desse Blog é servir como parteiro de idéias, um berçário cognitivo de conceitos e investigações das coisas que nos cercam. Na medida do possível, a partir da repercussão do que é dito, será a base de trabalhos mais profundos em nível acadêmico. Espero contar com a ajuda dos amigos no burilar desse vasto parto contínuo...

Para postar algum comentário sobre os artigos, é necessário que você desabilite seu bloqueador de pop-up para o domínio do Blogger. A janela de comentário abrirá em pop-up. Seu comentário é muito importante, ajude-me. Obrigado...


domingo, 12 de abril de 2009

Teoria, Evolução, Fato e Cientificidade - Questões Epistemológicas – Parte II

Hierarquização de Teorias

Como podemos dizer que uma Teoria Científica, como modelo de explicação de um fenômeno observável, é melhor ou nos confere um conhecimento superior a qualquer outra explicação teórica que possamos dar? Não temos uma régua absoluta que nos diga isso a priori.

Balizar a ciência como última palavra nas explicações que dá pra o mundo é querer que ela nos balize em toda nossa totalidade e na própria totalidade da realidade. Mas como querer isso se, conhecendo um pouquinho de ciências, sabemos que ela não pode sair do que pode ser observável se o fim dela, em nosso sistema político-econômico é a produção de tecnologia?

Ou abrimos mão desse finalismo da ciência dado pelo sistema a qual fazemos parte, ou encontramos outras epistemologias que respondam aos outros âmbitos de nossas vidas. Não me parece coerente tentar balizar a totalidade de minha existência a partir de conhecimentos que se reduzem a recortes modelares da realidade, abarcando apenas os aspectos que podem ser observados, controlados e reproduzidos. Nem tudo em nós pode ser observado, controlado e reproduzido, logo, nem todo conhecimento que podemos ter de nós mesmos pode ser reduzido ao conhecimento científico.

Claro é que se a totalidade da realidade pudesse ser reduzida a esses critérios, tudo estaria resolvido. Mas na impossibilidade da ciência abarcar essa totalidade, nos resta a percorrer terrenos não seguros balizados por outros critérios. Isso não significa ir contra a ciência, mas sim ir totalmente a favor daquilo que ela se presta a nos dar. Para o que foge de seu âmbito temos outros campos epistemológicos dos quais podemos nos servir.

Mais uma vez citando Gould, ele fala isso em seu livro Pilares do Tempo, quando introduz a palavra magistério em seu conceito de MNI (Magistérios Não Interferentes). Vale a pena lê-lo, até porque não é penoso, o que daria também outro artigo para falarmos sobre esse assunto. O fato é que a ciência é tanto mais digna quanto mais assume na figura de seus cientistas esclarecidos, que não tem todas as respostas e possivelmente não as terá. No entanto isso não interfere na pertinência e segurança do conhecimento que postula a partir do método que criou para cumprir suas intenções.

Se eu quero um propósito para viver, um sentido para a minha existência ou mesmo solucionar meus problemas sentimentais, preciso entender que a epistemologia científica trabalha com recortes modulares da realidade observável e não se presta a me fornecer isso, quanto mais talvez alguma tecnologia como ferramenta para que eu possa buscar através de outros magistérios.

É óbvio que aqui falo sobre as chamadas ciências naturais, mas mesmo nas humanas o aspecto modular descritivo não nos fornecerá o sentido que cada um de nós, como construtores de sentidos que nos valham para a vida, temos a responsabilidade e autonomia de construir.

Parece-me que o problema fundamental em torno dessa discussão é a tutela que o senso-comum precisa ou foi convencido que precisa para balizar sua forma de ser. Não queremos fragmentar nossa busca em caminhos distintos que nos dê uma resposta razoável naquilo que podemos construir de nexos por nós mesmos. Queremos coisas prontas, magistérios absolutos que nos dêem todas as respostas. Por isso temos de um lado positivistas absolutizando a ciência como resposta última de todos os problemas humanos e de outro as numerosas crendices que assolapam o bom senso para dizer, numa pretensão megalomaníaca, que o que ela diz é a verdade absoluta. Em suma, um exercício incoerente de interferências entre magistérios distintos.

Por termos sido convencidos que somos fragmentados e dicotômicos, nos recusamos a buscar nossas respostas em lugares distintos; queremos um kit epistemológico completo para nos suprir a fragmentação que a civilização nos faz sentir desde dentro de nosso ser.

Por fim, não me parece coerente estabelecer hierarquização entre explicações do mundo, desde que não haja interferência nos magistérios a que se prestam os diferentes ramos epistêmicos em que possamos nos basear para compor os nexos que tornam nossa vida suportável. Não abriremos mão do mais avançado antibiótico feito com base na amplamente corroborada Seleção Natural de Darwin, assim como não precisamos abrir mão do conforto psicológico ao ouvir palavras afáveis e que nos faz sentido de um clérigo qualquer.

Falemos então da Teoria Científica, cuja validade e prevalência entre as outras, que fique claro, se circunscreve naquilo a que ela se presta, sem invadir magistérios epistemológicos dos quais estariam fora de seu âmbito.


O que é Teoria Científica?

Pudemos, juntos, construir um certo entendimento do que significa Teoria em sua acepção real, original e como ela foi usada para designar uma Teoria Científica. Construímos também um entendimento do que viria a ser um fato. Agora precisamos responder o que diferencia uma Teoria, nesse sentido grego que agora entendemos, de uma Teoria Científica.

Em ciência não basta apenas teorizar, mesmo no sentido grego do termo. Em ciências é preciso não só descrever, interpretar e explicar um fato, mas torná-lo, em seus princípios, “apreendido”; de forma a poder prever a partir dele outros fatos e/ou reproduzi-lo e controlá-lo. Vale lembrar que tudo isso é feito dentro de um recorte epistemológico que se vale da pedra basilar chamada "observação", mesmo que esse termo possa nos dar margem para duvidar daquilo que podemos ver.

Não importa que não vemos tudo, em ciência vale o que pode ser visto. E quando se diz “ser visto”, muitas vezes não se vê o agente da ação e apenas seu efeito no espaço-tempo. A teoria científica entra para conjecturar como é esse agente a partir dos efeitos fenomênicos que podem ser detectados. Se essa conjectura prediz comportamentos que a observação do fenômeno reproduz, então é uma Teoria válida, e científica, corroborada.

A ciência pura constrói teorizações que podem prever fenômenos a partir de outros fenômenos, isto é, fatos de outros fatos a partir da explicação teórica de um fato. Exemplo é a física teórica. Por outro lado, a ciência aplicada constrói teorizações que podem prever fenômenos através da apreensão e controle do fato, manipulando-o e construindo a partir desse controle aplicações práticas, como por exemplo; a tecnologia e a produção de bens e serviços.

Logo, para uma Teoria ser científica, ela precisa fazer predições que possam ser verificadas e submetidas a testes empíricos que corroboram sua veracidade e acuracidade. A forma de tornar uma Teoria em científica é a aplicação do método científico, que a testa empiricamente naquilo que ela diz, tornando-a válida. Isso não significa que a torna eterna ou imutável (isso seria transformá-la numa doutrina), mas sim a estabelece como a melhor explicação de um fato até que surja outra. Uma Teoria Científica então é uma Verdade Provisória.

Teoria Científica é o ápice da prática científica e não tem nada acima dela hierarquicamente em termos de ciências. E isso não invalida de forma alguma qualquer outro tipo de conhecimento construído em outros campos epistemológicos. Mas não existe, em ciências, um conhecimento que seja mais alto do que uma Teoria.

É impossível falar em Teoria Científica no século XX sem falar de Sir Karl Popper. A demarcação popperiana do que seria um conhecimento científico não exclui a metafísica, por exemplo, como conhecimento legítimo, mas não a coloca na demarcação de cientificidade se submetida à lógica do critério de falseabilidade. Isso não significa que não seja conhecimento teorizarmos sobre alma ou mundo além túmulo para explicarmos algumas coisas que vemos e percebemos, mas jamais será um conhecimento científico enquanto não predizer fenômenos que possam ser falseados, isto é, contraditos pela observação. Se a predição não puder ser colocada à prova para que algo observável a corrobore, não possui cientificidade, mas não deixa de ser um conhecimento de um magistério distinto do científico.

Todas as críticas que recaem sobre a ciência, suas bases epistemológicas e seus critérios de verdade enquanto explicação do mundo, de Carnap a Kuhn, Lakatos, Derrida, Bachelard, Habermas, Feyerabend, servem apenas para apurá-la em sua prática. No entanto, em meu entender, o núcleo popperiano que requer corroboração naquilo que se fala (não importa como e de onde se falou), será por muito tempo paradigmático no fazer científico.

Com Popper, as teorias científicas deixaram de ter um status de verdade absoluta ou definitiva e passaram a ser verdades provisórias, determinadas pela capacidade preditiva daquilo que poderia ser observado. A questão da cumulatividade do conhecimento e das limitações dos modelos epistemológicos em que se baseiam, podem se constituir em dificuldades para novas abordagens que explicariam melhor a realidade, mas a questão aqui é que, independente do corpo teorético-base de um conhecimento, havendo rupturas ou não para outros campos, o novo campo deverá ser corroborado por fatos observáveis. Logo, Kuhn e Lakatos não anulam Popper; o complementam de maneira brilhante para quem se coloca acima de partidarismos reducionistas.

Posto todas essas considerações introdutórias, podemos então falar sobre a Evolução como Fato e Teoria Científica.


Teoria da Evolução e o Fato Evolução

Desde antes da formulação da Teoria da Evolução de Darwin, a evolução era tida como um fato. Isto é, os seres vivos mudam ao longo do tempo e isso é observável. Várias teorias tentaram explicar e interpretar esse fato e elas foram se sucedendo conforme sua capacidade de explicação não dava conta de explicar um olhar mais abrangente do fenômeno evolução.

Conforme a ciência e o método científico vão avançando, assim como as técnicas e instrumentos que podem corroborar as predições de uma teoria, elas vão caindo conforme não conseguimos as corroborações naquilo que elas predizem. Isto é, vão sendo falseadas. Cada teoria ao ser lançada é testada exaustivamente por todo cientista e por toda a comunidade científica, até que, corroborado de fato as coisas que ela prediz, ela seja considerada válida. Isso pode durar anos até, e ao longo desse tempo, mesmo se tornando robusta, fatos concretos que a contradiz podem derrubá-la.

Portanto, ao se ampliar nossa capacidade de observação e de testes, se as implicações do que ela diz não abarcar o novo escopo de realidade aberto, ela cai em desuso ou recebe complementações e novas interpretações, podendo ser substituída por outra que explique melhor o fenômeno e seja corroborada pelo método científico.

Assim se sucedeu com as teorias evolucionistas de Lamarck, Spencer e outros. Cada uma delas, em algum momento, deixou de explicar algum aspecto da realidade que fazia parte de seu escopo epistemológico. No entanto a Evolução nunca deixou de ser fato. Ela sempre foi um dado do mundo corroborado pelo fato dos seres mudarem ao longo do tempo.

Nesse contexto é que Darwin, como naturalista, após ter lido a Teoria das Populações de Malthus e mesmo sem ter lido os experimentos de Mendell com as ervilhas, começou a contrastar esses conhecimentos com sua observação da natureza, e após sua viagem a bordo do Beagle, começou a construir um entendimento, uma explicação, uma descrição do mecanismo em que se dá a evolução como fato.

Há lacunas? É bem possível que haja. Nenhuma teoria pode ser considerada completa. E não porque se for completa ela vira fato (já falamos que não existe relação hierárquica entre fato e teoria), mas sim porque a realidade é multifacetada e a própria existência é um conceito histórico e tudo o que fazemos é relativo a esse conceito. Mas ao longo de 150 anos desde sua reformulação, com corroborações constantes e complementos que ampliaram sua abrangência, ela se consolidou como a explicação mais completa que temos em mãos.

Se ela parte de pressupostos ou de uma visão de mundo que muita gente não concorda, ela não deixa de ser válida naquilo que ela se propõe, apenas deixa de ter a abrangência possível na cabeça dessas pessoas. Mas enquanto científica, ela goza de toda credibilidade que se espera da ciência.

Darwin nunca negou Deus. Alias, era teólogo formado em Cambridge e se não tivesse tido a guinada que teve em sua carreira, muito provavelmente ele teria se tornado um pastor ou presbítero (sacerdote), que era o desejo de sua esposa extremamente religiosa. Mas segundo seus diários, sempre o incomodou o dogma que dizia que os seres vivos tinham sido criados separadamente. E talvez esse fundo religioso tenha sido o mote de sua pesquisa que culminou em sua brilhante teoria.

Darwin explica o fato evolução através do mecanismo (teórico – estrutura de idéias explicativas) da Seleção Natural e do postulado de que existam mudanças constantes nos seres vivos de uma geração a outra. A Seleção Natural seria responsável pelo caráter cumulativo das mudanças na medida em que conferissem vantagens e possibilidade reprodutiva aos indivíduos que as tivesse. Tanto o mecanismo como o postulado estão amplamente corroborados e tem aplicação prática nas mais diversas áreas biológicas e médicas.

A conseqüência lógica de sua Teoria, isto é, o que ela prediz implicitamente, é que descendemos de um único organismo vivo e que toda a diversidade se deu no fenômeno chamado ESPECIAÇÃO; que em resumo é a mudança filogenética de um Ser em outro Ser que pudesse ser classificado em espécies diferentes. Lembrando que a classificação dos seres vivos em espécies é um critério histórico e não absoluto, e foi contestado por Darwin em sua obra máxima.

Logo, a Mudança "aleatória" filogenética, a Seleção Natural e a passagem de uma espécie a outra teriam que ser corroboradas por fatos e testes observáveis para que essa Teoria enquanto explicação do fato Evolução pudesse ser considerada científica. O avanço da pesquisa genética e o mapeamento do genoma, e testes reproduzindo com sucesso o mecanismo de Seleção Natural corroboraram em larga escala com esses postulados e suas conseqüências lógicas e hoje ela é Científica e comprovada.

É interessante notar que até mesmo as controvérsias das últimas descobertas científicas que colocam o gene de forma ativa sendo influenciado pelo ambiente, encontram guarida no livro de Darwin. Mais notável ainda é saber que à época em que escreveu ele nem fazia idéia do que seria a ciência que mais corroboraria com o que ele disse a partir de uma minúcia ímpar de sua diligente capcidade de observação a bordo do Beagle.

Por isso o criacionismo não é ciência, nem o DI pode ser considerado enquanto tal, por mais que esperneie os teístas e outros crédulos que querem que o mundo se encaixe em suas crenças. Eles podem ter uma teoria, mas não é cientifica. Enquanto eles se negarem a submeter ou proporcionar meios de testar e corroborar o que as idéias deles predizem, elas ficarão na instância teorética de outro magistério; da religião, do misticismo, seja lá o que for, menos do científico.

Por isso não tem o menor sentido tentarem empurrar o ensino do criacionismo nas escolas fora do escopo do ensino religioso, pois não é ciência e enquanto não cumprir o método científico nunca será. O método científico, por mais imperfeições que tenha, por mais reducionista que seja no que ele permite entendermos da realidade e por mais enrijecimento que promova nas diversas abordagens possíveis que um fato pode ter, é ele que garante, por exemplo, que eu suba num avião sem precisar contar com os poderes místicos de levitação do piloto.

Apesar de ameaças infundadas de processos em virtude do trabalho em apontar problemas de verissimilhança na argumentação da maioria dos que questionam Darwin, a luta pelo esclarecimento precisa continuar, sabendo que ele é dialético e não absoluto, e que nesse meio tempo podemos sim mudar nossas idéias.


Dica de leitura

Post de Osame Kinouchi no Blog SEMCIÊNCIA: Alguns pensamentos soltos sobre Ciência e Pseudociência.


Vale muito a pena ler...


Obras de Referência para esse artigo

DARWIN, Charles. A Origem das Espécies por Meio da Seleção Natural. Tradução: André Campos Mesquita. Vol. I. São Paulo, SP: Editora Escala.

GOBRY, Ivan. Vocabulário Grego da Filosofia. Tradução: Ivone C. BENEDETTI. São Paulo, SP: WMF Martins Fontes, 2007.

GOULD, Stephen Jay. “Evolution as Fact and Theory.” Stephen Jay Gould Archive. Maio de 1981. http://www.stephenjaygould.org/library/gould_fact-and-theory.html.
—. Os Pilares do Tempo: ciência e religião na plenitude da vida. Tradução: F. Rangel. Rio de Janeiro, RJ: Rocco, 2002.


KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Edição: Coleção os Pensadores. Tradução: Valério Rohden. São Paulo, SP: Nova Cultural, 1996.

KUHN, Thomas S. A Estrutura das Revoluções Científicas. Tradução: Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira. São Paulo, SP: Perspectiva, 2007.

LALANDE, André. Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia. 3ª Edição. Tradução: Fátima Sá COrreia. São Paulo, SP: Martins Fontes, 1999.

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. Tradução: Carlos Alberto Ribeiro de Souza. São Paulo, SP: Martins Fontes, 2006.

POPPER, Karl R. A Lógica da Pesquisa Científica. Tradução: Leonidas Hegenberg e Octanny Silveira da Mota. São Paulo, SP: Cultrix, 2006.

QUAMMEN, David. As Dúvidas do Sr Darwin: o retrato do criador da teria da evolução. Tradução: Ivo Korytowsky. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2007.

5 comentários:

Luciana Nunes disse...

Gostei muito!
Passarei a acompanhar seu blog!!!

Gilberto Miranda Jr. disse...

Esse comentário vindo de uma futura bióloga me honra muito. Obrigado Luciana. Uma linda Páscoa a você.

Osame Kinouchi disse...

Gilberto, sinceramente nao tenho certeza sobre a afirmativa de que o fim da ciencia é a producao de tecnologia. Pegue a totalidade de artigos cientificos e verifique quantos foram importantes para o surgimento de uma patente. É uma fracao insignificante!

Será que meu paper sobre evolucao cultural da culinaria vai virar tecnologia? Até meus papers sobre redes neurais (perceptron) nao viraram tecnologia!

Me parece que o mundo dos tecnologos e engenheiros é outro! Tecnologia, no nosso sistema, envolve conhecimento privado (patentes) enquanto que ciencia é conhecimento publico. Sao antagonicos neste aspecto!

Eu acho que a interface C&T tem sido sobrevalorizada tanto pelos cientistas (que querem justificar a ciencia por sua "importancia" para a tecnologia) quanto pelos anticientistas (que querem ataca-la pelo mesmo motivo, pois é facil detetar efeitos colaterais ruins da Tecnologia, mas é mais dificil no caso da Ciencia...

E se tudo isso, o tal imbricamento entre C&T, for um grande mito criado no seculo XX? Tantos interesses envolvidos para que o mite seja verdadeiro, dos cientistas americanos à Escola de Frankfurt... Mas será que examinaram isso estatisticamente? Quantos papers de cosmologia, paleontologia ou mesmo física estatistica viraram tecnologia?

Osame Kinouchi disse...

Gilberto, nao te parece que o movimento Nova Era tipo Quem Somos Nós viola o NOMa de Gould? (Non-Overlapping Magisteries)

Gilberto Miranda Jr. disse...

Prezado Osame, em primeiro lugar quero agradecer por você ter comentado aqui nesse espaço que traz esboços e tateamentos múltilplos em busca de uma compreensão maior do que nos cerca. Em segundo lugar, reforço de que justamente por isso, não há como eximir-me de erros ou precipitações em certas colocações feitas e por isso mesmo os comentários e feedbacks de quem lê é de suma importância para o burilar em busca de uma maior precisão, assim como na ampliação constante do que podemos entender dessa realidade multifacetada e perspectiva em que vivemos.

Lendo seu comentário e relendo o que escrevi, penso de fato que não fui feliz usando o termo tecnologia como fim da ciência. Inclusive percebo que a acepção usual do termo não passa o que pensei no momento que escrevi. Seu alerta me fez refletir. Esse termo vem sofrendo uma conotação usual que escapa à forma como eu utilizei. O rigor em qualquer pensamento filosófico começa com o uso adequado das palavras para exprimir a idéia, e confesso que poderia ter sido mais atento a isso.

Uso o termo tecnologia no sentido da palavra Tékhne grega, que se refere à aplicação prática de um conhecimento geral a casos singulares. O conhecimento teórico da natureza (seus princípios) daria o domínio de uma técnica para se aplicar esse conhecimento a casos específicos. O fim da ciência não seria outro que não esse, a meu ver. Mas entendo que na forma que eu coloco, usando tecnologia (até por falta de uma palavra adequada, embora pudesse ter usado simplesmente Técnica), dá margem para sua indagação. Mas entenda, por favor, que mesmo usando tecnologia, podemos entender esse termo como uma gama de técnicas, artes e ofícios (ou seja, saberes práticos) cujas bases sejam científicas, ou teóricas.

Gostaria de pontuar que a colocação do fim da ciência como produção de tecnologia ou Tékhne (aplicação prática de um saber teórico), se circunscreve no pano de fundo ideológico político-econômico do qual nos inserimos. A Ciência, em si mesma, a meu ver, tem o mesmo caráter da Filosofia (até como filha desta), ou seja, a constituição de um saber teórico geral; com a diferença de ter seu rigor na necessária corroboração empírica daquilo que fala. A ciência é eminentemente teórica, mas seu fim, circunscrito historicamente no ocidente, é a técnica. Isto é, a aplicação desse saber geral, teórico, a uma prática particular.

Lembro, por exemplo, de ter lido como o nosso primeiro filósofo-cientista criou a Geometria. Tales de Mileto viajava pelo Egito e tomou conhecimento de como os egípcios faziam para demarcar as terras às margens do Nilo. O saber das grandes civilizações do passado era um saber prático, burilado por tentativa e erro e estabelecido pelos resultados obtidos.

Os gregos vieram, através de Tales, inaugurar o saber teórico, lançando um olhar teorético à natureza, isto é, procurando o saber não através do labor que leva à excelência, mas na abstração de princípios gerais que garantam a excelência em sua aplicação. A aplicação desse saber teórico é a técnica.

É aí que se separa Ciência de Filosofia. A Filosofia (inclusive etimologicamente como Amor ao Saber) tem seu fim nela mesma: o conhecimento. A Ciência, e aqui se justifica seu caráter eminentemente empírico, tem seu fim na aplicação particular do saber geral que estabelece e justifica, isto é, na técnica ou tecnologia.

Tales abstraiu os princípios que depreendeu daquele saber prático e criou a Geometria, possibilitando um saber geral que poderia ser aplicado a outros campos particulares. Para os Egípcios, aquele saber só servia para a demarcação de terras, evitando assim as brigas dos agricultores a cada cheia do Nilo. Era necessário e específico. Depois de Tales abstrair os princípios daquela prática, possibilitou sua aplicação a outras práticas, através da técnica oriunda daquele conhecimento teórico.

Vamos analisar seus “pappers”, por exemplo. Por que eles são considerados científicos? Você acha que se seu “papper” não tivesse potencial para aprimorar a técnica envolvida na produção culinária, ele seria considerado científico? Eu tenho sérias dúvidas se seria. Gostaria muito de saber sua opinião sendo do meio?

Eu, enquanto postulante a filósofo, num futuro próximo, produzirei “pappers” analisando filosoficamente algum aspecto da realidade. Penso que ele será considerado científico na medida em que trouxer um conhecimento que se circunscreva em alguma aplicação prática possível e/ou potencial. Senão será um texto literário, artístico, estético, ou mera viagem na batatinha RS. Não consigo conceber uma demarcação que considere algo científico sem seu necessário potencial desdobramento técnico, prático; sua aplicação.

Mesmo que eu falar de literatura ou esoterismo, ainda sim poderá ser considerado científico se algum aspecto trouxer a possibilidade de ampliação do conhecimento envolvido no fazer literatura ou antropologia. Enquanto texto literário ou esotérico, não será científico.

Penso que nossa “divergência” trazida por seu comentário, está numa questão de acepção usual da palavra. Penso que você foi muito feliz em localizar no século XX o tal de imbricamento entre C&T com conotação pejorativa e até diretamente negativa. Mas esse imbricamento, impregnado pela crítica da Escola de Frankfurt, reduziu o que se entendia por tecnologia a uma gama de técnicas racionais com fim à manutenção do sistema político-econômico vigente, de forma aética e desumana. Tecnologia, portanto, transforma naquilo que artificializa o homem e o coloca escravo da mercadoria, alienado, fora de si mesmo. Essa acepção não muda em si o fim da Ciência, mas coloca a ciência como vilã na medida em que vincula a tecnologia a um sistema conotado como degradante da condição humana.

Eu posso até criticar o capitalismo nos mesmos moldes da Escola de Frankfurt, mas não culpo a tecnologia pelos supostos malefícios dele. Se for o caso, é ele o culpado pelos malefícios que a tecnologia causou ou pode causar. Um exemplo que justifica o medo desse imbricamento entre C&T é a Teoria da Relatividade, que é um conhecimento teórico e geral que possibilitou a técnica da fissão nuclear, resultando na aplicação prática da bomba atômica. De quem é a culpa? Da ciência? Da tecnologia? Do homem.

Portanto, a meu ver, o imbricamento existe sim e numa condição suficiente e necessária. Seus desdobramentos éticos, no entanto, não dizem respeito nem à Ciência nem à Tecnologia. A crítica da Escola de Frankfurt é clara no sentido de que o problema não é a técnica ou a tecnologia, mas sim do seu uso. As decisões éticas e políticas do uso da ciência para a produção de tecnologias com potencial de degradação humana são questionadas veementemente e devem ser por todos que defendem a liberdade como petição de princípio do esclarecimento, conforme nos fala Adorno e Horkheimer.

Ainda para encerrar, caro amigo, você vincula o imbricamento entre C&T indagando quantos “pappers” científicos teriam virado tecnologia. Esse critério, a meu ver, não traria um vínculo suficiente e necessário entre C&T, pois o imbricamento está circunscrito no potencial tecnológico do “papper” e não em sua efetiva tecnologização (desculpe o neologismo Rs)

Para terminar, em seu segundo comentário você me pergunta se os movimentos de Nova Era não violariam os Magistérios Não Interferentes de Gould. Penso que sim, assim como a Doutrina Espírita, Movimento Gnóstico e até a PNL (Programação Neuro-Lingüística) do Lair Ribeiro. Assim como um punhado de livros de auto-ajuda, inclusive feitos por cientistas, que preconizam o “pensamento positivo” circunscrito em algum fundamento metafísico, e misturando com neurociências. Arrisco dizer que até muita literatura baseada nas reflexões de Edgar Morin e Fritjo Capra, embora filósofo e físico respectivamente, fazem isso sem nem mesmo perceber.

Encerro essa longa e enfadonha resposta com muita gratidão por seu comentário, Osame. Gosto muito de seu blog e de seus pensamentos e espero que tenhamos outras oportunidades de trocar idéias, pois me honraria muito.

Grande abraço

Postar um comentário

Aqui você terá o direito de opinar, comentar, fazer uma crítida, dar uma sugestão ou escrever o que você quiser, desde que mantenha um nível de civilidade e não ofenda ao autor ou a outro comentarista. os coemntários serão respondidos aqui mesmo... Obrigado pela visita...