Filosofando na Penumbra

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terça-feira, 5 de maio de 2009

Ciência & Tecnologia – Imbricamentos e Relações

Em que sentido se circunscreve a idéia de que a ciência é o conhecimento capaz de produzir tecnologia?

Resolvi publicar em artigo ao invés de responder ao comentário do Osame no artigo O Saber Científico e a Gripe Suína porque além dele ter ficado longo, penso que traz reflexões que podem ser compartilhadas além do acaso dos leitores que se interessam em ler comentários. Muitas vezes os comentários são até melhores que os próprios artigos e essa discussão em que estamos parece-me ter esse aspecto.

mainpage-pic_green Penso que nossa divergência está em algo muito mais amplo do que havia me atentado no início. Eu não vejo diferença, no entanto, no que chamamos exatamente de Técnica ou Tecnologia. Mesmo na definição da Wikipédia em inglês abre-se um campo vasto para se entender o que vem a ser Tecnologia, mas como eu havia dito em minha resposta eu a entendo de uma forma bem específica que nada mais é do que um conjunto de Técnicas, que por sua vez se circunscreve em um fazer especializado, seja com base teórica ou não.

Técnica é você ter e exercer o domínio, controle e manipulação de um aspecto material da realidade. Tecnologia é o domínio com sentido de uma técnica ou de uma série de técnicas. Não importa para a idéia que quero passar se o “logia” como sufixo também traga o conceito de estudo sobre técnicas. Tecnologia como conjunto de técnicas ou como estudo de técnicas ou ainda como o conhecimento de causa de um conjunto de técnicas, não muda, substancialmente, a idéia de que a ciência só é ciência na ocidentalidade se trouxer nela o potencial tecnológico como desdobramento de sua própria existência.

A tecnologia, ou a técnica em si, porém, não dependem necessariamente da ciência. E isso me parece tirar o caráter tautológico da questão. O que precisamos ver é em que medida a Ciência dependeria da técnica para ser considerada como tal.

Identifico dois pontos de divergências entre meu pensamento e de Osame:

Um ponto diz respeito às motivações da ciência, que para mim soa como uma busca metafísica do fundamento da atividade científica. Não penso que o fundamento de algo deva ser buscado numa instância metafísica cuja essência anteceda sua existência e o que a caracteriza fenomenicamente.

Determinar o que se vê pelo que se conceitua previamente, parece-me ser anticientífico. Eu não busco esse caminho nem tampouco insinuo que o Osame esteja fazendo isso. Mas os conceitos que venho trazendo parecem-me dizer respeito a uma abstração de como a ciência se apresenta a nós fenomenologicamente e não como ela é vista por quem a faz ou como ela poderia ou deveria ser.

Outro ponto diz respeito ao Osame vincular o que trago a um necessário desdobramento tecnológico factual do conhecimento científico, excluindo a cientificidade daquilo que não produziu tecnologia factualmente. Eu não vinculo a cientificidade de um conhecimento a uma necessária produção tecnológica, mas sim ao potencial tecnológico do conhecimento. É essa a motivação científica, e antes de motivação, é a que torna ciências na ocidentalidade.

Vou então, antes de argumentar a favor do que penso, responder a pergunta inicial desse artigo: em que sentido se circunscreve a idéia de que a ciência é o conhecimento capaz de produzir tecnologia? Resposta: no próprio método científico.

Pensemos juntos.

Se uma teoria só pode ser considerada científica se for possível depreender dela predições de eventos que podem ser corroborados por fatos, inferimos que todo conhecimento científico teórico se circunscreve no desenvolvimento de uma técnica que possibilite ter e exercer o domínio, controle e manipulação de um aspecto da realidade. Não existe possibilidade desse domínio, controle e manipulação sem o desenvolvimento de uma técnica que os possibilite. A Teoria não dá a técnica, mas ela a exige para que se comprove sua validade.

A técnica pode ser até vista como um subproduto da ciência, pode até ser vista como um fim marginal, mas sem a produção técnica, sem um saber prático específico que valide a universalidade da teoria, não se tem ciências. Se Técnica, como eu disse, é ter e exercer o domínio, controle e manipulação de um aspecto material da realidade, e se a ciência não se valida sem isso, a Técnica é fim da ciência, portanto a define.

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O conjunto dessas técnicas compõe uma tecnologia a ser direcionada por quem a usa, mesmo que não seja, necessariamente, os únicos que deveriam usar. É aí que entram as decisões políticas, ideológicas e de interesses econômicos.

Se não fizesse parte da ciência, por definição, a necessidade do domínio, controle e manipulação de um aspecto da realidade, não haveria como consequência dela, necessariamente, a tecnologia. Mas se faz parte, o imbricamento é total, e no conceito de ciências não se pode excluir seu desdobramento potencial técnico.

O que se faz depois com essa técnica dependerá das estruturas sócio-políticas-econômicas que destinam esse conhecimento científico. No capitalismo se faz produtos, mercadorias, se alimenta o mercado na sede incessante de lucros das empresas e na produção ideológica de uma vontade crescente de se consumir por parte das pessoas. Faz-se armas de destruição massiva e remédios poderosíssimos que nos transformam em celeiros de proliferação de supervírus e superbactérias. Mas isso não é culpa nem da ciência, nem da tecnologia que ela possibilita em seu imbricamento existencial.

 

Alerta Importante, porém….

Mas aqui cabe um alerta importantíssimo  na presente abordagem e que escrevendo com muita sinceridade ao Osame, me sinto obrigado a fazer.

Criticamos ambos, penso eu, um sistema que “rouba” da ciência e do conhecimento científico as descobertas que poderiam ser usadas para algo mais útil (ou meramente para sabermos mais do que nos cerca) e a usa como instrumento de opressão e domínio num sistema preocupado apenas com o lucro.

Podemos ver a Tecnologia por dois prismas nesse aspecto:

1. Como mera somatória de técnicas oriundas da necessidade de domínio, controle e manipulação da realidade que toda ciência faz e tem como fim;

2. Como um conjunto de técnicas agrupadas sob um significado dado a posteriori e à revelia do conhecimento científico para cumprir um propósito e uma finalidade alheia à comunidade e à atividade científica, bem como alheia até às suas técnicas fins.

Mas nisso tudo, até onde vai a responsabilidade da ciência? Até onde esse elemento que “rouba” o conhecimento científico para fins particulares está na estrutura a priori da atividade científica?

Tecnologia0 Não é só ao definirmos Tecnologia meramente como conjunto de Técnicas, sem nada a mais que a caracterize além disso, que meu argumento se torna verossímil. Isso significa que nem ciência, nem técnica e nem tecnologia são responsáveis pela destinação duvidosa que o sistema e certos setores da sociedade dá ao conhecimento científico. Não em si mesmos, mas existe uma responsabilidade.

O propósito do conhecimento científico é um conhecimento seguro, e seu critério de segurança é sua capacidade de domínio, controle e manipulação daquilo que conhece, portanto (mais uma vez) seu fim é a técnica. Ao agruparmos um conjunto de técnicas que gere outros conhecimentos científicos e sirvam como base para uma ampliação do conhecimento, teremos uma Tecnologia retroalimentando a própria ciência. Teremos a Tecnologia como fim da ciência e seu subproduto sendo usado por um sistema que usa sua essência com propósitos específicos.

Mas levando em conta o item 2 e colocarmos na definição de Tecnologia, além do mero conjunto de Técnicas, um significado, isto é, um conjunto de Técnicas agrupadas sob um propósito e finalidade específica, então sim poderemos separa-la do conhecimento científico. Mas de que adiantaria isso?

Se, à revelia da técnica como forma de domínio de um conhecimento teórico, agruparmos uma série de técnicas dando um sentido e propósito a elas, desenvolvemos uma Tecnologia sem vínculo com a estrutura apriorística da ciência. Penso que seja essa tecnologia que Osame se refira.

Isso é muito importante salientar, pois esse sentido, propósito e finalidade é algo colocado a posteriori do processo científico e da aplicação do método, bem como no desenvolvimento da técnica que valida o domínio que a Teoria Científica procura proporcionar.

Penso estar com isso estendendo meu entendimento ao que o Osame tenta me trazer em seus comentários. No entanto tem um outro problema ainda. Do que adiantaria tudo isso, esse malabarismo conceitual, se mesmo que não colocássemos a Tecnologia como fim da ciência (admitindo a definição 2), é o sistema que vai usar a tecnologia como bem quer que financia a própria ciência, seja diretamente ou por traz dos governos que promovem o incentivo à pesquisa?

Claro, isso não está no cerne da questão que estamos discutindo, mas se traz à baila automaticamente. Imaginemos que, por acaso, pudéssemos retirar completamente o interesse econômico por traz de toda pesquisa científica. Seja qual for o fim da ciência e o que a define, é dificílimo imaginar que aceitemos que o que define um conhecimento científico não seja a capacidade potencial desse conhecimento produzir saberes práticos e técnicos, suprindo nossas necessidades como seres humanos.

No final do artigo anterior que causou o comentário de Osame, saliento a importância da comunidade científica ficar atenta ao mau uso de suas descobertas e aos riscos que ele acarreta, servindo como porta-voz da necessidade de uma postura ética de um sistema preocupado somente consigo mesmo.

Com um medo cínico de me tornar muito longo, vou tentar justificar esse pensamento.

 

Castores, Tautologias e Definições

castor Osame pergunta-me se tenho a opinião de que a história da tecnologia começa no capitalismo e diz que, para ele, começa com os castores. O raciocínio por traz está no pensamento de que eu teria dito que a tecnologia é fruto exclusivo da ciência, o que traria o caráter tautológico da definição de ciência como conhecimento capaz de produzir tecnologia.

Penso que nesse entendimento houve um equívoco. No artigo em que escrevo sobre o Saber Científico e a Gripe Suína, eu não questiono enquanto técnica a decisão judaica em não comer porco. Só não a coloco como científica por que ela não se refere a um saber universal, abstrato e teorético que possibilite sua aplicação técnica em outros campos particulares.

O que é preciso ficar claro que eu não defendo que é a Tecnologia é definida pela ciência, mas que a ciência é definida pela tecnologia que potencialmente produz. É diferente e não é tautológico.

Assim como os castores, grande parte do saber humano e que até hoje nos maravilha, foi construído com técnicas e tecnologias totalmente desvinculadas de um saber científico. Mas isso não exclui o fato de que a ciência, desde que nasceu, circunscreve-se conceitualmente em sua capacidade de produzir tecnologia.

Definir, como etimologicamente o termo nos diz, é dar um fim a algo, demarca-lo, limita-lo. Conceituar é diferente de definir, embora no Houaiss traga dentro da acepção de “Conceito” a idéia de “Definição”. Conceituar é entender o mais profundamente possível alguma coisa em sua manifestação e conseguir detectar nessa coisa aquilo que a melhor caracteriza; o seu significado. Conceituando, a meu ver, é que se define.

Eu trago, portanto, dois conceitos envolvendo o que entendo por ciência. O primeiro conceito diferencia o que seria técnica e o que seria ciência, dizendo que técnica é um saber específico, particular, prático e ciência é um saber pretensamente universal, abstrato, teórico. Técnica ou Tecnologia (como conjunto de técnicas inter-relacionadas ou não, constituindo um único fazer ou não) podem vir delas mesmas e de suas práticas ou virem cientificamente de uma abstração que universaliza um conhecimento ou um conjunto deles.

No outro conceito, vinculo a validade do saber científico ao desenvolvimento de um fazer prático que o valide, dando corroboração à teoria pelos desdobramentos empíricos daquilo que prediz; dominando, controlando, reproduzindo e manipulando aquele aspecto da realidade que foi explicado. E justamente por se validar dessa forma, tem como seu fim a produção da Técnica e/ou da Tecnologia.

Mas sabemos que só a partir de Bacon e já com o capitalismo comercial em voga e o industrial já em vias de dar sua cara na história é que podemos falar dessa necessidade de comprovação empírica e do nascimento da técnica como fim da ciência. Antes, a ciência especulativa era empírica somente na formulação de suas leis, mas não necessariamente na validação delas. Não se fazia o caminho de volta. Então, como era a ciência antes? Será que ela, antes disso, antes do capitalismo propriamente dito, possuía também esse imbricamento com a tecnologia?

 

Um Pouco de História e Contextualização

A Técnica, ou a Tecnologia enquanto conjunto de técnicas, pode ser adquirida (como excelência em um fazer) apenas através da prática da tentativa e erro. Por isso fiz a conjectura do costume dos judeus em relação à carne de porco. Assim como os saberes arquitetônicos do Egito e outras civilizações que atingiram sua excelência sem um saber teórico que as fundamentassem, existe uma gama de saberes que prescindem da ciência para se estabelecer. E os castores sabem disso, pois sua excelência é um longo processo de tentativa e erro cuja validação se circunscreve na continuidade de sua existência.

A Suméria revolucionou a engenharia da época desenvolvendo um campo de saber específico na construção de represas, diques e canais que maravilha o mundo até hoje, mas que não era um saber teórico, e sim eminentemente prático e adquirido pela sintonia fina de tantas tentativas e erros. A necessidade move as descobertas e a técnica. Até aqui eu penso que estamos de acordo sem muitas divergências. Nada disso ainda é ciência, mas expressa a técnica e a tecnologia.

tales-de-mileto A ciência nasce na Jônia no século VI a.C. E ela marca seu nascimento por um modo novo de se pensar e não por uma motivação nova para se pensar diferente. As motivações humanas não parecem ter se modificado ao longo do tempo. Sempre estivemos em voltas de resolver nosso problema de existência. Sempre buscamos resolver os problemas práticos relacionados com a perenidade de nosso existir e de nossas idéias. Ou estamos preocupados com nossa existência ou com a perenidade de nossos conceitos, significados e sentidos. Toda busca humana parece se dar na direção da preservação de nossa vida e dos significados que atribuímos a ela.

Imaginar que haja algo que valha por si só como parte integrante da natureza humana, parece-me ser assumir um modelo metafísico essencialista do universo e querer olhar a história a partir dele. Não há mal em si em ver dessa forma, porém carecemos de justificativas que nos façam assumir isso além de uma mera preferência pessoal.

Tentando contextualizar o nascimento da ciência no sec....VI a.C. para buscar o que motivou um novo tipo de pensar sobre a realidade, nos deparamos muito mais com a questão pragmática do fazer ciência do que com uma corroboração possível de um fim nela mesma ao molde aristotélico. O pensamento abstrato, porém não formal, já existia em todas as civilizações, mas a confluência de fatores de fundo eminentemente práticos e ligados à questões de sobrevivência, desembocaram na necessidade de se buscar um saber abstrato que pairasse acima dos costumes de cada sociedade.

A Grécia vivia um período de efervescência econômica e comercial, dominando boa parte da península e precisando expandir seus negócios. Cada nação que espremia a Grécia (que era formada por cidades-estado independentes politicamente) tinha uma cultura diferenciada, seus próprios costumes e seus campos de saberes atribuídos aos poderes divinos dos deuses que os protegiam. Na Grécia não era diferente, e a tradição impedia boa parte do crescimento econômico devido as divergências cosmovisionárias entre eles e seus vizinhos. Guerras eram freqüentes e isso não poderia continuar.

Menos do que por qualquer coisa do que por necessidade, a meu ver, era necessário que se encontrasse pontos de convergência cosmovisionários, abstratos, em que se pudessem pautar as relações entre as diversas nações ali presentes. Sem isso o comércio era impossível, a expansão era impossível, a vazão do excesso populacional e o acúmulo de riqueza eram impossíveis.

A Grécia se torna privilegiada nesse aspecto, segundo os historiadores, por alguns motivos básicos:

1. A capacidade discursiva e lógica de uma escrita herdada dos fenícios, mas que ao se incorporar as vogais deu amplitude comunicativa sem precedentes;

2. O uso corrente por uma princípio absolutamente abstrato de um indexador que colocava os valores das mercadorias numa mesma base de troca: a moeda. Esse é um símbolo da capacidade abstracional grega, cuja primeira moeda cunhada com esse fim nasce na Lídia (cidade-estado grega) no sec.... VI.a.C.;

3. A existência de uma classe de cidadãos que se abstém do trabalho e se dedica a uma atitude contemplativa e reflexiva perante a natureza e a realidade;

4. A experiência, desde o sec....VII dos jogos Pan-Helênicos congregando e promovendo a paz entre nações de unidades políticas independentes, além do sincretismo religioso promovido pelo politeísmo.

5. Laicização crescente das instituições políticas gregas e a separação entre religião e estado.

arte-na-grecioa-antiga Notamos com isso que a capacidade abstracional já existente, a experiência da multiculturalidade religiosa, aliada a uma habilidade de descrição mais precisa de suas idéias e o ócio, perfazem as condições de possibilidade do nascimento da ciência e da filosofia.

A Jônia era a porta de entrada e saída da Grécia continental. Mileto vivia, à época de Tales, seu apogeu. Os pré-socráticos foram os primeiros a tentar abstrair da diversidade os princípios naturais que regiam o universo, pairando acima daquele monte de deuses e buscando de forma universal aquilo que seria comum a todos.

A ciência é subproduto disso. Ela já nasce como forma de um pensar politicamente engajada na necessidade de constituir saberes que fundamentam um aspecto utilitário. Toda especulação filosófico-científica feita pelos pré-socráticos nasce sob o pano de fundo pragmático da necessidade de expansão comercial grega e suas relações com outras nações. Podemos até arriscar em dizer que a ciência jônica nasce sob os auspícios da busca de uma tecnologia para um fazer diplomático, na busca de uma técnica ou uma excelência que daria aos gregos condições de expandir e dominar as nações além de suas fronteiras sem a necessidade de guerras, embora estivessem também dispostos a luta-las.

Essa visão contrasta em muito com o que nos foi passado nos cursos oficiais que coloca o nascimento da Filosofia como um “milagre” grego emergente de uma natureza humana cujo amor ao saber é espontâneo e constituinte. Essa construção visionária, inclusive, também se encontra encerrada no arcabouço ideológico necessário para que assumamos essa postura idealista. Antes de Aristóteles, Platão já nos via com um impulso de buscar o BEM através da razão.

É aqui então que entra todo o humanismo renascentista, o iluminismo kantiano e por fim a Escola de Frankfurt a fazer uma crítica marxista dos postulados que coloca a ciência desinteressada e neutra. Ela pode ser, mas o homem e as estruturas que a controla não são.

Fazemos confusão, até pela história recente que isso representa (estando intimamente ligada à contemporaneidade). com o grito de liberdade iluminista contra a medievalidade que encarcerava as mentes numa concepção de mundo autoritária e obscura. Esse grito de liberdade pode ter até tirado a subordinação da razão das estruturas metafísicas escolásticas, mas não a tornou independente do utilitarismo. Pensar num fazer científico sem seu desdobramento técnico (mesmo que potencial), tira dele a necessidade do rigor metodológico que é a pedra de torque de toda ciência.

Concluindo

Nem o imbricamento entre Ciência e Tecnologia, nem o Imbricamento entre Tecnologia e Capitalismo trazem necessariamente um imbricamento direto entre Ciência e Capitalismo. A questão é que, querendo ou não, o Capitalismo apropriou-se de toda atividade e motivações humanas, mesmo que particularmente muito de nós não concordem ou resistam de alguma forma.

A questão da Tecnologia ser fim e definir um conhecimento científico, não coloca a Ciência como necessariamente ferramenta capitalista em sua natureza. Parece-me que é esse o alerta que Osame faz ao pensamento que venho trazendo. Alerta acatado, penso que não fiz essa ligação. No entanto é impossível deixar de admitir que a natureza do fazer ciência cai como uma luva a um sistema que precisa do domínio, controle e poder manipulativo da natureza para chegar aos seus propósitos.

DSC03702 Os pontos que o Osame salienta distanciando a Ciência do Capitalismo são, a meu ver, pontos legítimos, mas que não anulam a idéia de que o conhecimento científico, por sua própria natureza, traz como fim o desenvolvimento de técnicas que controla e proporciona o domínio da natureza da forma que mais desejam os famintos donos das indústrias. É inegável o avanço científico causado pelas revoluções industriais ávidas pelas novas técnicas de domínio e controle da natureza fornecidas pelas mais variadas pesquisas científicas.

O que precisa ficar claro é que a tecnologia sendo fim da ciência, não significa que a exploração capitalista também o seja, nem tampouco que seja fim da própria tecnologia.

Osame diz que vê a ciência muito mais próxima da filosofia do que julga nossa vã filosofia rs. E eu concordo com ele. O imbricamento que vejo entre Ciência e Tecnologia não exclui de maneira alguma o aspecto filosófico servindo como base ao pensar científico.

Mesmo o pesquisador de posse de boa parte dos meios de produção do conhecimento científico e que não tenha financiamento capitalista, disponibilizando o que descobre ao mundo da forma mais altruísta e humanitária possível, terá como produto final de sua pesquisa uma técnica e uma tecnologia cujas consequências ele não terá controle algum.

Nesse ponto, concordo com o Osame que a questão ética premente esteja relacionada com o uso da tecnologia gerada a partir daí e não necessariamente da ciência produzida. Mas enquanto houver a tutela do capital no uso e fruto da tecnologia gerada pela ciência, corremos o risco de estarmos virando um repositório e criadouro artificial de superbactérias e supervírus.

A Teoria de Darwin proporcionou desdobramentos técnicos sem precedentes no combate biológico de pragas, mas seu uso irresponsável e uma desenfreada ambição, fazem com que a técnica que comprovou a validade da teoria, seja usada contra nós mesmos, mascarada de benefícios que o sistema finge nos proporcionar. Culpa de Darwin? Culpa da Tecnologia que comprova a validade de sua teoria? Claro que não…

Ninguém precisou patentear a descoberta de Darwin para fazer mal uso dela, e nem ele foi financiado por qualquer indústria, mas a técnica oriunda da própria validação de sua teoria está na iminência de nos matar a todos se não tomarmos cuidado.

É da ciência a geração da tecnologia. Mas é do homem, a decisão ética de usar responsavelmente essa tecnologia. Penso também que é daqueles que mais promovem nosso progresso e futuro a voz mais ativa na sociedade para tentar nos alertar contra o mau uso daquilo que eles nos proporcionam: OS CIENTISTAS.

8 comentários:

Osame Kinouchi disse...

Gilberto,

Não consigo escrever com a sua elegancia. Aqui vai alguns pensamentos soltos.

Eu conheço razoavelmente bem a literatura da Escola de Frankfurt, Marcuse, Roszack, Contracultura e o nosso Rubem Alves. Assim, me dá a impressão que você quer conservar o seguinte ponto que é fulcral para essas abordagens, um ponto que justamente é problemático:

"O propósito do conhecimento científico é um conhecimento seguro, e seu critério de segurança é sua capacidade de domínio, controle e manipulação daquilo que conhece, portanto (mais uma vez) seu fim é a técnica."

Primeiro, eu nunca vejo você usar a palavra "entendimento" nas suas definições de ciência, mas apenas as palavras que possuem certo tom pejorativo "domínio, controle, manipulacao etc" visando a técnica.

Primeiro, entre as ciencias eu arrolo as ciencias formais (matemática e lógica). De toda a produção nessa área, as aplicações práticas ou técnicas (que envolvem dominio ou manipulação) são 0,01% se tanto da literatura. Você realmente acredita que a conjectura de Poincaré ou o Teorema de Fermat serve para alguma coisa?
Mesmo que a área de Matemática Aplicada pareça grande, comparada com a produção em Matemática Pura, a matemática aplicada é minúscula e sua importancia teórica desprezível.

Mesmo nas ciencias naturais, 99,9% das pesquisas não visam nem dão lugar a aplicações ou controle ou domínio sobre o que quer quer seja. Nem mesmo potencial. A maior parte daquilo que chamamos de "motivação prática" nas pesquisas é simplesmente um conjunto de mentiras que os cientistas escrevem nos projetos para orgãos de fomento e para jornais, tentando justificar o financiamento da sociedade (tipo nanotecnologia ou computação quantica). Mas se a sociedade os financiasse sem pedir resultados práticos, os cientistas fariam as mesmissimas pesquisas, na verdade até mais satisfeitos.

Se você tenta fazer uma definição de ciencia, como você fez, ela precisa ser ampla o suficiente para abarcar pelo menos o que aparece na revista Nature, e eliminar o que não aparece.

Eu não consigo entender como cosmologia, paleontologia, arqueologia, astrofísica, geofísica, grande parte da biologia (a biotecnologia envolve uma fração desprezível do conhecimento biológico),
teorias de grande unificação (tipo supercordas), e a maior parte da física teórica se encaixam nisso.

Eu já trabalhei com modelos criticalidade auto-organizada em terremotos. O objetivo não era prever ou evitar terremotos, mas justamente "entender" porque isso é impossível.
O mesmo pode se dizer de grande parte da Teoria de sistemas caóticos.

Na verdade, uma das grandes áreas de pesquisa atualmente em metacomputação, metamatemática etc é justamente estudar e entender os limites do controle, da previsão e da manipulação em sistemas complexos (que correspondem a 99,9999% dos sistemas naturais).

Trabalho hoje com simulações computacionais de dendritos de células mitrais (bulbo olfatório).
OK, talvez daqui a 300 anos a industria de perfumes faça algum uso de minha pesquisa (eu duvido muito). Mas o meu objetivo (e de meus colegas) é "entender" porque os neurônios possuem dendritos capazes de transmitir pulsos eletricos, e para que serve isso. OK, minhas teorias só serão validadas se eu puder "manipular" os dendritos, fazendo experimentos. Mas o objetivo final não é "dominar ou manipular os dendritos", os experimentos são o meio para se validar, não o fim.

Veja um caso concreto, em uma área bem aplicada, a Química: cientistas estao estudando como ocorre exatamente uma reação química, por exemplo, 2H_2 + 0_2 = 2 H_20 (hidrogênio + oxigenio produz agua). Não se conhece como essa reação ocorre, toda a dinamica fina envolvida na escala de picosegundos, e talvez o cientista até tentasse usar mecanica quantica para descrever o processo (algo que na verdade não é possivel hoje). É um trabalho hercúleo de pesquisa, tanto experimental como teórico, vale um premio Nobel.

Mas esse entendimento, que é o objetivo da ciencia, não mudaria um epsilon na tecnologia quimica. Todo mundo sabe como fazer essa reação, e as outras reações quimicas tambem.

Bom, e acho que sua definição de ciencia acaba deixando de lado boa parte das ciencias humanas também, não é mesmo?

Acho que o conceito de ciencia que voce está tentando definir é muito pobre (ciencia do século XIX ou primeira metade do século XX?). E inclui o que não deveria ser incluido: a magia também tem como objetivo o dominio, a manipulação e o controle de eventos no mundo. E a diferença não é que ela não seja eficaz (a magia é eficaz entre os seres humanos, via sugestão), mas sim que seu "entendimento" de como o mundo funciona é diferente do da ciencia.


Finalmente três sugestões a serem perseguidas:
1. A ciencia jonica (ou pelo menos a fisica matematica) se inicia com Pitágoras, que absorveu conhecimentos vindos da India e recebeu influencias budistas. E o Pitagorismo é uma filosofia religiosa, não um esquema de domínio da natureza via tecnologia.
2. Ciencia é uma atividade cultural, faz parte da cultura, assim como as artes. Pensar o contrário é um preconceito.
3. A relação entre ciencia e capitalismo é a mesma que entre artes e capitalismo. 99% dos artistas está a serviço do capitalismo (como artistas para o mercado de artes visuais, musicos e cineastas para a industria cultural, designers, arquitetos, decoradores etc). Mas dado esse imbricamento concluir que a relação se dá porque existe algo intrinseco às artes que leva ou apoia o capitalismo seria algo bastante esquisito.

A música é muito importante para a moral das tropas dos exercitos, desde as marchas até os shows de artistas para as tropas. Não acho que isso revele algo sobre a natureza da música...

Acho que esse comentário ficou muito longo. O ponto fulcral é esse: segundo a sua definição, a cosmologia é uma ciencia? Detectar planetas extrasolares é uma atividade científica? Detetar o bóson de Higgs (que explicaria a origem da massa, sem que isso mudasse um epsilon em qualquer tecnologia ou engenharia) é ciencia?

Proponho esse exercício: verificar em uma edição da revista Nature a porcentagem de artigos que potencialmente poderiam aumentar nosso poder de controle, manipulação ou domínio da natureza. Eu chuto 50%. E como ficam os outros 50%?

Osame Kinouchi disse...

Sobre técnica ou tecnologia entre animais = comportamento não instintivo e transmissivel por aprendizagem.

http://scienceblogs.com.br/rnam/2009/05/os_passaros_mais_espertos_do_m.php

Osame Kinouchi disse...

Acho que o meu comentário deveria ter citado sua frase, que acho que é o ponto principal e problemático:

"a ciência só é ciência na ocidentalidade se trouxer nela o potencial tecnológico como desdobramento de sua própria existência."

18 years of science with the Hubble Space Telescope

Julianne J. Dalcanton1,2

After several decades of planning, the Hubble Space Telescope (HST) was launched in 1990 as the first of NASA's Great Observatories. After a rocky start arising from an error in the fabrication of its main mirror, it went on to change forever many fields of astronomy, and to capture the public's imagination with its images. An ongoing programme of servicing missions has kept the telescope on the cutting edge of astronomical research. Here I review the advances made possible by the HST over the past 18 years.

Eu não consigo ver como pesquisas sobre supernovas e energia escura ou teoria de formação galáctica se encaixam na sua definição de ciência. E o caso do Hubble é emblemático: é a tecnologia que permite o avanço na Astronomia, e não o inverso.

Gilberto Miranda Jr. disse...

Estimado Osame,

Quero mais uma vez agradecer imensamente você ter se dedicado a responder e comentar meu artigo e, embora o que você coloca sempre suscite muitas reflexões de minha parte, dessa vez tentarei ser mais sucinto e respondê-lo aqui mesmo.


Acepções Pejorativas

Concordo com você que exista uma acepção pejorativa numa suposta ênfase dada aos termos "domínio, controle, manipulação etc.", mas essa acepção pejorativa é dada por uma corrente de pensamento que, definitivamente, eu não comungo nem faço parte. Essa corrente, inclusive, usa as críticas da escola de Frankfurt de uma forma específica que eu não entende que ela tenha usado.

No entanto, gostaria de entender melhor por que, necessariamente, esses termos trariam conotação pejorativa à ciência? Como seria possível entender algo de forma segura sem que exerçamos um domínio sobre ele, o controlemos e o manipulemos conforme o que intencionamos? Trocar esses termos eufemisticamente por “entendimento” tiraria o possível aspecto pejorativo, mas obscurecia o que de fato precisa acontecer para que esse mesmo entendimento se concretize.

Eu tenho consciência, porém, que os nexos que estamos ora construindo, ora desconstruindo trazem relações perigosas entre capitalismo, ganância, ciência, tecnologia, exploração humana e etc. É bem possível que termos próximos entre esses conceitos todos, possam causar um nexo deturpado e agradeço pelo seu alerta. Só espero que, sabendo que não os uso dessa forma meu texto possa ser lido sem essa conotação.

Eu fiz toda uma linha de raciocínio que levaria à técnica como fim da ciência, mas o destaque dado aos termos de forma isolada pode realmente dar conotações não desejadas. A questão me parece simples: se existe um critério de busca de precisão no conhecimento científico, se esse critério está calcado na capacidade de validação empírica desse conhecimento, ele só pode ser validado mediante o controle, domínio e manipulação daquilo que é predito. Não existiria entendimento sem isso.

Outro ponto importante é sobre a idéia de que a ciência visa a técnica. A ciência não visa a técnica, ela visa se certificar que explica de maneira segura seu objeto de estudo. A técnica é a forma dela se certificar, fazendo parte de seu método. Não é intenção de a Ciência produzir técnica, mas a Técnica é seu fim.

Uma analogia talvez minimize o suposto tom pejorativo na forma como defino a validação científica. Podemos dizer que um artista vise uma obra específica? Até podemos, mas parece-me que acima de tudo ele vise dar vazão a uma necessidade de comunicação interior que cause um impacto estético. Para fazer isso é necessária uma obra. A obra é o fim, mas não é ela em si que ele visa. E a obra é o resultado da técnica que domina, manipula e controla os meios pelos quais ele atinge o que ele visa. Não vejo tom pejorativo nesse aspecto. Não veria porque quando se trata de ciências precisaria haver.


Produção Técnica ou Técnicas de Produção?

Em seu comentário você recorre a outro aspecto do saber científico que também foi mencionado em seus comentários anteriores e eu não dei a devida atenção. Você fala de conhecimentos considerados científicos que não produzem necessariamente técnica ou que não tenham a técnica como fim. Você citou anteriormente o mapeamento de galáxias e nesse comentário você cita a matemática pura e a lógica.

Será que a existência desses conhecimentos invalida meu argumento? Será que a universalização do conceito que trago se contradiz nessas supostas exceções? Será que nenhum desses conhecimentos tem como fim, mesmo que não vise exatamente isso, a produção de uma técnica?

Separemos meios e fins. Mapear galáxias pode ser referir a um impulso natural humano de conhecer o universo. Claro que pode. Mas sem o mapeamento como construir explicações modelares que se demonstrem verdadeiras ao se permitir predizer eventos que podem ser corroborados empiricamente?

O mapeamento de galáxias então é um meio, uma ferramenta, uma técnica em si mesmo, para a construção de um conhecimento científico mais amplo e seguro.

O mapeamento das galáxias sendo também uma técnica (inclusive é uma tecnologia que requer várias técnicas combinadas) tem como pano de fundo um saber teórico preditivo cuja prática o valida. Não consigo ver onde ele se exclui da definição que estou tentando burilar.

Se essa tecnologia envolvida no mapeamento das galáxias nunca for adaptada ou usada para algum fim de mercado, bélico, político, não irá mudar o fato de que todo conhecimento científico tem como fim a técnica. O mapeamento já é uma técnica fim de um conhecimento científico e que, por sua vez, possibilita a construção de outros conhecimentos que gerarão outras técnicas.

No caso da matemática e da lógica não discordo de você em considerá-las ciências. São ciências enquanto voltadas a si mesmas e técnicas eficientes quando usadas como meio nas outras ciências. A matemática tem como fim a tecnologia necessária para uma descrição racional mais precisa do universo. Ela possibilita um conjunto de técnicas a serem usadas por outras ciências, mas consegue essa tecnologia enquanto ciência de si mesma, por se caracterizar pela autovalidação.

Há quem diga que a matemática é a mãe de todas as ciências. É a ciência mais abstrata, a mais básica, cujos princípios advêm de si própria, mas pode balizar os princípios das demais. É a única ciência que se autofundamenta e não precisa, para isso, gerar uma técnica extrínseca a si mesma. Mas não deixa de gerar técnica, sendo o resultado de si mesma uma gama de técnicas a serem usadas pelas outras ciências. Ela se valida na aplicação da tecnologia que produz para a precisão das outras ciências.

Nesse aspecto ela não consegue ser vista fora do conceito de “um conhecimento seguro cujo fim é uma técnica que o confirme”. Não vejo como considerar a matemática como ciência se, a partir dela, não se produzir uma gama de saberes técnicos que atestem sua própria validade. Como, sem isso, ela poderia ser considerada ciência?

Nesse ponto posso notar o problema que trouxe no primeiro artigo em que você comentou, pois o conceito de tecnologia usual pode causar confusão para o que estamos tentando construir. Tecnologia como uma gama de saberes técnicos, “fazeres” constituídos em sentido, não precisa desembocar em celulares de última geração ou parafernália eletrônica, bens de consumo e etc. A matemática é pura construção técnica de fazeres que confirmam sua própria validade teorética e servem como meios para outras ciências. Talvez a matemática, mais do que qualquer outra ciência, caiba como uma luva para o que estou trazendo.

Que meio mais eficiente teríamos de validar um conhecimento científico que não fosse pelo domínio, controle e manipulação que ele proporciona quando prediz eventos através de modelos matemáticos que se autovalidam? O empírico fica quase dispensável com isso, não é? Mas não fica, pois é a possibilidade técnica que nos dá o desdobramento empírico da validade do conhecimento. E sem ele não tem como cogitarmos que seja um conhecimento seguro.

Conotar tecnologia somente como meio de se produzir bens de consumo para sanar a sede de lucros das empresas, é reduzir um conceito muito mais amplo e tirar da ciência aquilo que melhor a caracteriza como fenômeno histórico humano. É óbvio que conotando tecnologia dessa maneira a ciência se imbrica de forma comprometedora com o mercado e o capitalismo.

As técnicas que são fim da ciência, usadas como formas de validação do conhecimento científico, servem de aplicação ao desenvolvimento de outras tecnologias que podem se colocar a serviço do sistema. E isso é quase que automático, mesmo que não seja nem responsabilidade da ciência em si, nem das técnicas que ela gera como falseadoras de suas predições.

O que venho tentando dizer é que o uso e destinação dessa técnica intrínseca ao fazer ciência, fora do contexto onde ela é intrínseca, precisa sofrer uma avaliação ética e os cientistas mesmos, a meu ver, são peças chaves nisso.

Gilberto Miranda Jr. disse...

Termos Estranhos

Você diz: “Mesmo nas ciências naturais, 99,9% das pesquisas não visam nem dão lugar a aplicações ou controle ou domínio sobre o que quer seja. Nem mesmo potencial.”

E de que forma elas se validam e são consideradas científicas? Qual o critério usado para a vejamos trazendo algum entendimento sobre algo? Se elas são meramente descritivas, elas já se circunscrevem na própria técnica ou tecnologia que um saber teórico precisa para se validar. Nesse aspecto, a pesquisa já se circunscreve na técnica fim do conhecimento científico a que ela se reporta.

Deveríamos tentar definir uma pesquisa científica? Seria uma atividade que, partindo de problemas colocados frente a uma necessidade de interpretar a realidade, investiga essa realidade de forma a testar hipóteses de resolução desses problemas? Não estaria aí como fim (mas não propósito) uma técnica que valide a hipótese? A validação da hipótese não se encontra na capacidade preditiva de seus enunciados? E por fim, para se prever algo não é necessário dominá-lo, controlá-lo e ter o poder de manipulá-lo?

E como eu disse a ciência não visa a tecnologia, mas a tecnologia é seu fim, pois para ser ciência é preciso desenvolver uma aplicação que a valide como conhecimento.

Prezado Osame, parece-me que enquanto o seu entendimento do que é tecnologia se circunscrever no agrupamento de técnicas apropriadas pelo sistema capitalista para fazer frente aos seus objetivos econômicos, as palavras domínio, controle e manipulação sempre irão se referir ao que o sistema precisa fazer em seus próprios membros para existir. E isso, concordo com você, não tem a ver com o fazer científico, nem tampouco com a tecnologia que ele gera para validar nosso conhecimento e que, por conseqüência, cria nossa capacidade de interferência no mundo.

Conhecimento é poder. Conhecimento científico confere muito mais poder, pois seu próprio sistema de validação, isto é, o que o torna o que é, requer que adquiramos, via técnica, um poder efetivo e real sobre aquilo que conhecemos.

Você ainda diz: “A maior parte daquilo que chamamos de "motivação prática" nas pesquisas é simplesmente um conjunto de mentiras que os cientistas escrevem nos projetos para orgãos de fomento e para jornais, tentando justificar o financiamento da sociedade (tipo nanotecnologia ou computação quantica). Mas se a sociedade os financiasse sem pedir resultados práticos, os cientistas fariam as mesmissimas pesquisas, na verdade até mais satisfeitos.”

Não coloco em dúvida o que você disse. Mas ainda sim, cada uma dessas motivações trazem em seu bojo o aspecto técnico como forma de validar a precisão do conhecimento adquirido. Não houvesse essa outra exigência política de aplicabilidade, ainda sim a própria validação do conhecimento requer que o apliquemos de alguma forma. Isso faz parte do método científico, independente da motivação do cientista.

Como posso inferir que o homem busca o conhecimento por um amor ao saber, sem que haja em sua busca o objetivo de produzir um saber prático? Que dados temos nós, científicos, que possam corroborar com a idéia aristotélica que todo homem tende naturalmente ao saber, sem um fim, sem uma motivação além dessa, como um impulso incontrolável de saber sempre mais não importando a direção onde esse saber aponte?

Eu adoro me ver como filósofo e saber que o título que ostento significa “amigo do saber”. Incomoda-me imaginar que eu possa ser amigo de alguém só porque esse alguém me oferece alguma utilidade. Mas por outro lado, não consigo me ver amigo de alguém se esse alguém não me causar bem estar. O bem estar, seja lá por qual motivo eu o sinta, é minha moeda de troca, é o que designa o caráter utilitário daquilo que fundamenta minhas relações.

Mas essa analogia fica meio estranha quando comparamos “amigos” com “conhecimento”. Não há dúvida que conhecer causa-me bem estar. Mas não consigo imaginar as ciências que você mencionou; cosmologia, paleontologia, arqueologia, física-matemática, sendo feitas apenas por que os cientistas se sentem bem em fazê-las. Algo a mais que a satisfação pessoal em exercê-las eles buscam. A existência delas se pauta em mais do que a simples satisfação pessoal de quem se dedica a elas. Pode até haver uma confluência de interesses, um puxando a outro, mas que existe a iminência da potencialidade de um saber prático e técnico por traz, a busca do domínio e do controle daquilo que não se conhece para algum objetivo específico, parece-me claro. Nossas motivações têm um caráter pessoal e social imbricados em nossa manifestação existencial.


A Definição – meios, fins, finalidade, propósito.

Penso que delimitando o que chamo de Tecnologia e desconstruindo o entendimento restrito ao interesse econômico que você traz, acredito ter abarcado na definição que trago ao menos o que aparece na revista Nature, como você me solicita.

Mesmo que seu modelo de criticidade auto-organizada em terremotos ou grande parte da teoria de sistemas caóticos procurem apenas entender melhor a impossibilidade de previsão, há intrínseco a motivação de se prever tais eventos. Mesmo que digamos ainda que não haja essa motivação, qualquer entendimento melhor de como ocorre tais fenômenos só se mostrará efetivo por alguma produção de conhecimento técnico que valide esse entendimento. A motivação pode não ser a técnica, mas ela é o fim do processo. Pode não ser o propósito, mas está intrínseco ao processo o seu desdobramento técnico final.

Estudar e entender os limites do controle, da previsão e da manipulação em sistemas complexos, não é delimitar exatamente o que se pode controlar, prever e manipular? A intenção é prever, manipular e controlar com mais precisão ou apenas saber por saber os limites?

Ahhh foi legal você falar sobre sua pesquisa com os dentritos. Você coloca a validação como meio, e não como fim. Do que serve um conhecimento que não pode ser validado? Ele só é conhecimento se for válido, não é? Qual o fim de um conhecimento? A sua validade. O propósito é a validação por meio do controle, domínio e manipulação, que desemboca na técnica.

Penso que entendi mais um ponto de divergência entre nós. Quando eu falo sobre FIM você entende como motivação e propósito, isto é, objetivo em si mesmo. Se o termo FIM se referisse somente a isso, eu concordaria com você, Osame.

Assim como você eu não vejo como propósito da ciência a produção técnica. A ciência não se faz na intencionalidade objetiva de produção técnica de qualquer fazer particular com o intuito de controlar, manipular, dominar e prever. Mesmo sem esse propósito motivador, o FIM de toda construção do conhecimento científico é a técnica, pois é ela que valida o conhecimento e o caracteriza como tal.

Os termos FIM, FINAL, FINALISMO E FINALIDADE tornam certas expressões confusas. Nem sempre o fim de um processo se refere à sua finalidade. É o caso da ciência. Eu não estou questionando aqui a finalidade da ciência, sua intencionalidade, seus propósitos ou motivações (embora tudo isso seja possível fazer). O que estou fenomenologicamente indicando é a técnica como fim de um processo de construção de conhecimento científico. A finalidade e os propósitos do conhecimento são atingidos ao longo do processo, que se perfaz no final pela produção técnica.

Você está falando de propósito e eu estou falando de resíduo intrínseco final. Estamos, portanto, penso eu, num falso desacordo.

Gilberto Miranda Jr. disse...

Sobre casos específicos...

Você cita a pesquisa em que cientistas estudam para saber como ocorre exatamente uma reação química. Você infere que esse tipo de conhecimento não mudaria nada na tecnologia química, pois todos já saberiam como fazer essa reação, mas não conhecem a fundo como ela se dá nos meandros dos picosegundos.

Tales, quando abstraiu cientificamente a geometria a partir da prática de demarcação de terras às margens do Nilo, ou mesmo quando abstraiu cientificamente a astronomia a partir da prática de previsão astrológica dos babilônicos (chegando a prever um eclipse em 585 a.C.), não tinha como propósito (se é que podemos inferir seus propósitos) a produção de tecnologia a partir de seu conhecimento. Mas a tecnologia advinda dos conhecimentos que construiu foi o fim do processo que validou como científico aquilo que ele fez. Sem uma técnica que propiciasse aplicar aquele conhecimento abstrato a vários campos de saber, jamais poderíamos dizer que o que ele fez foi ciência. A técnica é o fim de todo conhecimento científico, mesmo que não seja o propósito e motivação que o impulsiona a existir e ser buscado.

Qual o fim, o objeto final dessas pesquisas sobre como ocorre exatamente uma reação química? O propósito é algo metafísico, insondável, mesmo que possamos inferi-lo e até igualá-lo ao fim que atinge, mas o fim está claro que seja uma melhor apropriação do fenômeno dando capacidade de controlá-lo, manipulá-lo, dominá-lo e predizê-lo.

Para entender e possivelmente aceitar o que estou trazendo, caro Osame, basta que você separe conceitualmente propósito, motivação e finalidade do FIM objetivo de um processo.

Você diz que minha definição deixa de lado boa parte das ciências humanas. E tem razão. As ciências baseadas no historicismo estão fora dessa definição, pois não são falseáveis. Uma teoria antropológica que pretende explicar a natureza de um fenômeno humano observável só pode passar de hipótese e ser considerada um conhecimento seguro, se a partir dela pudermos prever acontecimentos futuros que corroboram com o que ela explica. Sem isso é hipótese. Ou mesmo é mitologia, circunscrevendo-se em uma explicação que faz sentido, nos apazigua em nossas dúvidas, mas não se demonstra confiável por não poder ser falseada. Qualquer outra com poder descritivo, mas não preditivo, faria a mesma coisa.

É claro que em ciências assim, quanto mais se usa postulados de outras ciências que se demonstram corroboradas, mais credibilidade gozam. Mas param por aí enquanto não predizerem eventos observáveis que possam ser falseados.

Se esses conhecimentos historicistas puderem ser chamados de científicos sem que deles se possa gerar técnicas que os confirmem, então o que trago pode ser jogado pelo ralo, pois toda explicação se torna válida sem que precisemos confirmá-la ou falseá-la. Parece-me que a unificação dos conceitos científicos entre ciências humanas e naturais é algo a ser conquistado.

Você diz em seu comentário:

“Acho que o conceito de ciencia que voce está tentando definir é muito pobre (ciencia do século XIX ou primeira metade do século XX?). E inclui o que não deveria ser incluido: a magia também tem como objetivo o dominio, a manipulação e o controle de eventos no mundo. E a diferença não é que ela não seja eficaz (a magia é eficaz entre os seres humanos, via sugestão), mas sim que seu "entendimento" de como o mundo funciona é diferente do da ciencia.”

Essa frase indica justamente o falso desacordo em que nos metemos sem querer, caro Osame. Primeiro que não tenho a pretensão de fechar um conceito definitivo, até porque não me acho gabaritado para isso. Estou burilando pensamentos e sua paciência em comentar e dar usa opinião é de extrema valia para mim. Segundo que não penso que ele seja pobre, embora restrito a um horizonte fenomenológico da ciência. Também não sei se ele se circunscreve nesse período histórico a que se refere e se você pudesse me trazer referências disso eu agradeceria demais.

Quanto a inclusão da magia, aqui se revela nosso falso desacordo. Eu não demarco a ciência a partir de um propósito de domínio e controle, e mesmo que o fizesse isso não incluiria a magia, pois embora ela tenha esse propósito, não existe em seu processo a preocupação fim de validar o que pretende.

Colocar a tecnologia como fim da ciência não se circunscreve em determinar esse fim como propósito da ciência. Porém, independente do propósito, é esse fim que garante que a denominemos ciência, pois é sem ele que se poderia incluir a magia. Só a ciência pode produzir tecnologia, a magia não.


Sobre as sugestões a serem perseguidas...

Você diz:
1. A ciencia jonica (ou pelo menos a fisica matematica) se inicia com Pitágoras, que absorveu conhecimentos vindos da India e recebeu influencias budistas. E o Pitagorismo é uma filosofia religiosa, não um esquema de domínio da natureza via tecnologia.

Diz-se ciência jônica para o tipo de pensamento abstrato e racional que estabelece princípios que fundam a realidade. Ela não se circunscreve somente à matemática pitagórica. Antes, ou contemporâneo a Pitágoras, Tales já abstraía os princípios da geometria com suas viagens ao Egito e abstraía os princípios astronômicos com suas viagens à Babilônia.

Há muitas controvérsias históricas e arqueológicas sobre a influência oriental no pensamento grego. Que houve influência não há dúvida, mas que os gregos fundam uma nova forma de pensar sem preocupação com o desdobrar imediatamente prático do conhecimento, isso é fato. Antes deles ninguém procurou um elemento balizador universal que unificasse os vários saberes num único princípio.

Tudo começa com a preocupação de um princípio ligado à Physis, iniciado por Tales. Você cita Pitágoras, mas sua citação funciona como um tiro no próprio pé da ciência, pois todo o pano de fundo de seu saber foi religioso e místico, e sua ciência tinha essa dimensão prática. Sua validade era a aquisição de entendimento que propiciasse técnicas para uma ascensão espiritual, portanto não valia por si mesma. Toda ciência pitagórica, como nos diz Geovanni Reale “era cultivada como meio para alcançar um fim. E esse fim consistia na prática de um tipo de vida apto a purificar e a libertar a alma do corpo.” (História da Filosofia Vol.I, Paullus, p. 45).


2. Ciencia é uma atividade cultural, faz parte da cultura, assim como as artes. Pensar o contrário é um preconceito.

Concordo em gênero, número e grau, caro Osame. Pensar que ciência é algo metafísico que existe numa instância absoluta com seus próprios motivos e fins, e que se faz ciência apenas quando se participa dessa essência científica, também é um preconceito. O que tento trazer em tudo isso que escrevo é como a ciência se apresenta como fenômeno histórico e humano. Pensar que ela se desprende de sua contextualização histórica e de como ela se apresenta fenomenicamente, é atribuir uma essência a ela. Isto é, é sermos pitagóricos e platônicos.

3. A relação entre ciencia e capitalismo é a mesma que entre artes e capitalismo. 99% dos artistas está a serviço do capitalismo (como artistas para o mercado de artes visuais, musicos e cineastas para a industria cultural, designers, arquitetos, decoradores etc). Mas dado esse imbricamento concluir que a relação se dá porque existe algo intrinseco às artes que leva ou apoia o capitalismo seria algo bastante esquisito.

Mas onde, naquilo que escrevi, levaria a pensar que eu penso dessa forma? Em momento algum eu coloco a ciência existindo para apoiar o capitalismo. Demonstro apenas que o seu existir fenomenicamente tem como fim (resultado final), o que o capitalismo precisa para se auto-reproduzir, caindo como uma luva para suas intenções. Mesmo que não seja um desdobramento automático, como você mesmo demonstra em vários tipos de atividades científicas que menciona, seu processo é intrinsecamente comprometido com a geração de técnicas que a definem, tornando-a mercê do sistema em que está inserida.

Ora, e o que isso significa? Ao ler essas constatações você está trazendo significações que não foram ditas e nem decorrem necessariamente delas. A significação que eu trago no final de toda a minha argumentação, se funda na constatação de que estamos sendo vítimas de vacinas e enxaguatórios que, baseados num conhecimento científico legítimo, estão nos transformando em criadouros de super bactérias e super vírus, e que muito possivelmente a gripe suína esteja circunscrita nesse mesmo esquema.

Isso tudo não coloca a ciência nem os cientistas como vilões, embora pense que ninguém melhor que os cientistas para nos alertarem do que a indústria está fazendo com a tecnologia que a ciência gera.

Espanta-me pensar que o que você escreveu seja o que você pensou que eu estivesse dizendo. Quero crer que, a despeito de entender o que eu trago, você esteja pontuando alertas importantes que podem causar confusão.


Finalizando...

Puxa, deu 7 páginas do Word essa minha resposta RS... Desculpe... Mas ainda penso que estamos em falsos desacordos. Os argumentos que você usa para dizer que a ciência não se preocupa ou não se motiva com produção de tecnologia para ser usada pelo sistema, eu concordo totalmente. Só não concordo que eles refutem o que estou trazendo, pois o meu pensamento não é esse e nem vai nessa direção.

Dizer que a ciência tem como fim a técnica não significa que ela exista para a produção técnica ou para favorecer o sistema econômico em que está inserida. Significa apenas que faz parte da definição do conhecimento científico (se é que precisamos que ele se valide como seguro), o desdobramento técnico daquilo que prediz, tendo a técnica como seu fim. Um FIM que não poder ser traduzido como propósito ou motivação, mas que é resultado final do fazer ciência, querendo ou não.

Esse fim cai como uma luva aos objetivos do capitalismo, que é dominar, controlar e entender os aspectos da natureza para tirar o melhor proveito da mesma através do acúmulo de riquezas através do lucro.

Existe, portanto, um imbricamento entre ciência, tecnologia e capitalismo, mas esse imbricamento é fenomenológico e histórico, e não motivacional, por princípios ou proposital.

Percebe agora como nosso pensamento não está tão distante quanto pareceu? Consegui delimitar os falsos desacordos entre nossa maneira de pensar?

Abraços e mais uma vez obrigado...

Gilberto

Osame Kinouchi disse...

Oi Gilberto, sem tempo para uma resposta demorada, fica pra outro dia.

Tres pensamentos:

1. Talvez usar o termo ciencia, com c Maiusculo, seja generalizar demais. Acho que existem ciencias, ou até mesmo apenas cientistas...
Então, frases como "o proposito da ciencia, o fim da ciencia, etc" talvez pequem por sobregeneralização e essencialismo.
2. A Cosmologia, Paleontologia e Arqueologia são ciencias históricas. Não usam laboratórios, não manipulam, não controlam nem visam controlar nada (a não ser controlar seus dados, como voce sugeriu, o que me parece um pouco trivial... ou não?)
3. A Culinária se valida por seus produtos, e visa o controle e o domínio dos alimentos. Mas não é ciencia. O que a distingue da ciência?
4. Citando voce: Se uma teoria só pode ser considerada científica se for possível depreender dela predições de eventos que podem ser corroborados por fatos, inferimos que todo conhecimento científico teórico se circunscreve no desenvolvimento de uma técnica que possibilite ter e exercer o domínio, controle e manipulação de um aspecto da realidade. Não existe possibilidade desse domínio, controle e manipulação sem o desenvolvimento de uma técnica que os possibilite. A Teoria não dá a técnica, mas ela a exige para que se comprove sua validade.

O problema é o "Se uma teoria só pode ser considerada científica se for possível depreender dela predições de eventos que podem ser corroborados por fatos..." Isso é metodologia cientifica antiga, não é considerado mais válido hoje em dia. Dado que o postulado "se..." não é válido, o argumento fica invalido.

5. Ainda to achando que voce aceita muito rapidamente que os artistas fazem arte por idealismo (expressar suas emoções, etc). E que os cientistas não o fazem (a curiosidade intelectual é simplesmente uma extensão do instinto de exploração do ambiente, observavel em qualquer ratinho... não é nada sofisticado não). E o prazer cientifico da descoberta é identico ao prazer da pesquisa de qualquer intelectual academico e do artista. Como dizia Feynman:



"Physics is like sex. Sure, it may give some practical results, but that's not why we do it."
— Richard P. Feynman

Outras dele:

"Mathematics is a language plus reasoning; it is like a language plus logic. Mathematics is a tool for reasoning."
— Richard P. Feynman (The Character of Physical Law)

"Science is the belief in the ignorance of experts."
— Richard P. Feynman

"I believe that a scientist looking at nonscientific problems is just as dumb as the next guy."
— Richard P. Feynman

6. Meus amigos matemáticos puros achariam insultuoso voce declarar que a Matemática precisa ser validada por aplicações em outras ciencias. Os teoremas matematicos se validam pelo uso simplesmente das tecnicas dedutivas axiomas -> teoremas, não existe um referente externo. Ou você acha que a geometria não euclidiana só será validada se o espaço for realmente curvo? Os varios tipos de geometria euclidiana sao igualmente validos (e igualmente incompativeis pois seus axiomas diferem).

Osame Kinouchi disse...

Gilberto, talvez você aprecie o conto "Demiurgo" que coloquei aqui:

http://stoa.usp.br/osame/files/1625

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