Lembro aqui uma frase de meu amigo Anderson, com o qual tive a honra de estudar filosofia por dois anos memoráveis:
“Somos seres de interstícios, caminhando entre luzes e trevas…”
Na ocasião, extasiado pela profundidade do que ele disse, repliquei: “É aí que está a nossa dança, pois movimento constante; entre trevas e luzes, na penumbra, entre esclarecimento e cativeiro”.
Se sabemos que uma luz total nos faria cegos, é no contraste, no interstício de luz e sombra que reside a permissão de delinear coisas e identificá-las naquilo que elas nos afetam. Talvez seja exatamente o que nos resta: delinear coisas naquilo que essas coisas nos afetam. Essa metáfora entre visão, luz e sombras parece ter sentido em Kant quando ele estabelece a estrutura racional a priori em nós, a qual não nos daria uma visão da totalidade do Ser. É no Não-Ser que conseguimos intuir o Ser, e como diria Sartre, na transcendência do fenômeno que a consciência intui as aparições infinitas que esse Ser possa ter.
O problema de Kant parece ser a concepção que, mesmo estando presos a uma estrutura racional limitada, tenhamos a capacidade de explorá-la totalmente até seus limites, através do que ele chama de Razão Pura. Para ele é esse o sentido, é esse o esclarecimento possível. Caminhamos em direção a uma luz explorando via razão as potencialidades dela própria naquilo que nossa racionalidade permitiria.
Só deixei de concordar com Kant quando comecei a ler sobre Fenomenologia. Husserl nos fala de uma consciência engajada, voltada a algo; intencional. É essa intencionalidade que nunca fará com que cheguemos a um total esclarecimento, pois a estrutura a priori que nossa razão possui é ferramenta e não fim em si mesma. Ela é meio, não modo. Fosse fim, a razão comandaria nossa consciência até seus limites apriorísticos e Kant estaria certo. Mas uma consciência engajada e voltada a um objeto é que “usa” nossa razão dentro de suas limitações.
Uma nova filosofia, a filosofia do olhar, acontece quando se toma, historicamente, a inseparabilidade entre a Rex Extensa e a Res Cogitans, começando então um estudo de seu imbricamento no fenômeno humano. Em Vigiar e Punir Foucault nos diz que não é o corpo a prisão da alma. Se pudermos falar em prisões aqui, é justamente é a alma a prisão do corpo. 


