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domingo, 14 de novembro de 2010

A Morte de Deus, o Deus que Dança e o Devir…

"É verdade: amamos a vida não porque estejamos habituados à vida, mas ao amor. Há sempre o seu quê de loucura no amor; mas também há sempre o seu quê de razão na loucura.

E eu, que estou bem com a vida, creio que para saber de felicidade não há como as borboletas e as bolhas de sabão, e o que se lhes assemelhe entre os homens. Ver revolutear essas almas aladas e loucas, encantadoras e buliçosas, é o que arranca a Zaratustra lágrimas e canções.

Eu só poderia crer num Deus que soubesse dançar.”

(NIETZSCHE, Friedrich W. Assim Falou Zaratustra. Os Discursos de Zaratustra. Ler e Escrever. p. 36. Tradução José Mendes de Souza. Fonte Digital eBooksBrasil.com)

arvore E eu também. Penso que só um Deus que soubesse dançar não estaria morto como anuncia o louco na Gaia Ciência de Nietzsche. Por conceber um Deus fixo, imutável, carrancudo, ideal, ou melhor, por sermos tão soberbos em determinar como Deus deva ser, é que o tornamos tudo aquilo que precisamos que Ele seja para compensar nosso complexo de inferioridade.

Depositamos tudo o que não conseguimos ser em Deus; resignados, na esperança de que, pelo menos, sejamos amparados por Ele na reunião de tudo o que tomamos como perfeito. Mas perfeição, para nós, é ter o controle de tudo, ter tudo sob nosso domínio, sermos capazes de prever os menores acontecimentos e driblarmos todas as dificuldades. Ora, se não conseguimos, se algo assim está totalmente fora do alcance visível de nossa vida, precisamos eleger um Ser que tenha esse domínio total e que possa nos proteger em nossa pequenez. Se a partir de Sócrates esse “Ser” poderia ser atingido pela razão, na Idade Média foi substituído pela idéia do Deus judaico-cristão, e na modernidade pela ciência e pelo pleno domínio racional da natureza pretendido pelos iluministas e positivistas.

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sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Choque Cultural? – Devir e Dever no BBB

falsidade3 Mesmo não acompanhando com assiduidade o BBB, esse tipo de programa sempre me atraiu por um aspecto antropológico. A idéia, que no início suscitava a observação do comportamento humano em uma situação de exposição, contaminou-se com uma representação forçada dos participantes em cada edição. Apesar desse aspecto negativo o programa resiste. Resiste muito pelo apelo ao que há de voyeur no ser humano e pela catarse que é expurgar seus próprios problemas e viver a fantasia alheia, na vida do “outro”; como um folhetim que promete a realidade. Tudo farsa, mas uma farsa que é igual a própria realidade que vivemos. Afinal, a realidade pode muito bem ser uma grande farsa bem contata com anuência coletiva. Se fosse, jamais perceberíamos, pois como farsa, ela estaria calcada justamente naquilo que não teríamos dúvida de sua concretude.

Há de se pensar até se a representação do que tomamos como concreto não se constitui em farsa também, mas isso é outra história. Farsa ou não, a vida e a verdade são constituídas pelos choques de cada singularidade existente, o que demonstra que não há um Télos, ou um Dever em ser assim ou assado; mesmo quando duas pessoas se encontram ou quando duas culturas se encontram. Embora haja convenções que “encurtam” o caminho da aproximação, essas convenções jamais podem se tornar metafísicas. Elas precisam ser reafirmadas ou reformuladas na própria singularidade do encontro: é na singularidade dos encontros que se alimenta o Grande Discurso, o Logos, nossa maneira de ser, nossa cultura. Ou seja, nos fazemos no Devir e não possuímos qualquer dever em sermos como as convenções nos mandam.

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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Paulicéia da Cefaléia: parabéns São Paulo 456 anos

Jockey Club de São Paulo A cidade de São Paulo chega ao seu 456º aniversário em estado de alerta pelas chuvas. O levantamento até ontem, dia 24/01/2010, dava conta de pelo menos 60 mortes desde o dia 1º de Dezembro. Junto a isso shows espalhados pela cidade faz a média por parte do governo da 4ª maior cidade do planeta.

São Paulo vive um cenário que deveria suscitar imensas discussões das pessoas engajadas na melhoria urbana, na discussão dos problemas nas megalópoles e tantos outros trabalhos visando prever e minimizar os efeitos do crescimento dessa cidade que responde por 33% do que é produzido em todo país. Porém vive no ostracismo de sua grandeza como se, comparado ao resto do Brasil, não tivesse o que reclamar. Tem sim, e muito!!!

Por outro lado, o mito do Sul Maravilha ainda persiste, fazendo com que cheguem os “ainda” desvalidos de todo canto para tentarem a sorte, como se São Paulo ainda precisasse ser construída por mão-de-obra semi-escrava para depois relega-la aos cinturões periféricos que lhe dão a fama de violenta a se organizarem em poderes paralelos que aterrorizam tantos os paulistanos quanto os migrantes e imigrantes que fazem dessa terra uma polinésia tupiniquim.

Mario de Andrade por Di Cavalcanti São Paulo já foi palco de revoluções, movimentos culturais importantes, que trouxeram os paulistanos e a cidade sempre em uma posição de vanguarda, apesar dos protestos dos “descolados” que se constituíam, por anuência e interesse do Estado, “os progressistas”. Assistimos aqui o nascedouro de movimentos que contaminaram o Brasil e o mundo, mesmo que esses movimentos não fossem protagonizados por seus “nativos”. Aliás, terra de Oswald, Mario e Rita Lee; terreno propício ao Tropicalismo Antropofágico e à Afrociberdélia do Mangue Beat, São Paulo importa, mastiga e cospe ao mundo tudo que lhe chega; abrigando, acolhendo, mas também fazendo sofrer, querendo luta e superação… São Paulo é antropofágico. Ele come seus inimigos e se torna mais forte. Quando é comido, irrompe das entranhas e surge mais forte. São Paulo é o único lugar do país em que podemos dizer: “é de todos nós”.

Do sotaque “italianado” ao arrastado caipira, já não sabemos mais como paulistano fala: ele fala a linguagem do mundo; terra de mil povos.

 

Uma Poesia a partir de SP

Em meados de 98/99 fiz uma poesia que expressava, ao menos na época, minha impressão da minha cidade. É curioso, e isso não é privilégio de paulistano, que somente nós, nativos, podemos falar mal e criticar nossa cidade. Viramos um “bicho” quando alguém de outro lugar vem falar da cidade, por mais pertinente que sejam as observações. Mas nós podemos, pois sabemos no fundo que nossa crítica não é excludente; é uma crítica que abriga um profundo desejo de melhora. São Paulo é grande demais, megalópole de um pais de terceiro mundo, não tem como não abrigar diversos problemas. Mesmo assim é o lugar da diversidade, do multiculturalismo, da transdisciplinariedade.

Abaixo segue a poesia… Pus em áudio também, com a música “Sampa” do Caetano Veloso ao fundo interpretada por Raphael Rabello ao violão e Paulo Moura no clarinete (instrumento que toco, inclusive) – espero que gostem e comentem…

 

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domingo, 24 de janeiro de 2010

Fazendo ECO aqui…

Umberto Eco - Copyright 2010 by R. D. Flavin Acabei de ler um excerto de um texto de Umberto Eco postado no blog de Alice Valente, chamado Os Poetas e a Interrogação do SER em ECO, do livro Kant e o Ornitorrinco (Edições DIFEL 1999). Eco é um autor raro. Em geral, entre os incautos, ele não é chamado de “Filósofo”, o que faz com que ele se sinta (e nos faça sentir) ser autorizado para criticar a Filosofia naquilo que ela se enclausura no pensamento da tradição; felizmente liberta pela contemporaneidade. Ele é um “ensaísta”, digamos assim. Um escritor. Um artista das palavras e que tanto pode construir tramas (como O Nome da Rosa), como dedicar-se à reflexão sem os rigores de uma filosofia menor, caduca, fechada em seus limites e pretensamente abarcante da totalidade do real. Eco faz eco (desculpem o trocadilho) “ensaiando”; ou seja, fazendo obras abertas, tentativas, aproximações… Algum outro incauto pode ver nisso um sinônimo de “imprecisão”, mas não lhe faltam rigor, método e profundidade.

No trecho destacado por Alice suscita-me um questionamento. Não aprecio a crítica que parte de um conceito já pronto, a não ser que seja para questiona-lo e reformula-lo sob uma perspectiva que o atrele ao perceptível. Quando Eco fala do SER ele fala do SER parmenediano, um SER análogo ao OVO Primordial dos Órficos e ao Número de Pitágoras, e que foi responsável por toda filosofia platônica e pela cultura ocidental ao sincretizarem-se com o judaísmo-cristão. Até hoje há controvérsias em relação às raízes orientais da filosofia, mas não é possível negar que, ao menos em uma vertente da Filosofia, há clara comunhão cosmovisionária com a mítica oriental. Não nego, no entanto, que mesmo havendo essa raiz comum, os gregos, assim como salienta Nietzsche, não tiveram uma cultura autóctone:
“(…) eles sorveram toda a cultura viva de outros povos e, se foram tão longe, é precisamente porque sabiam retomar a lança onde um outro povo a abandonou, para arremessa-la mais longe” (NIETZSCHE, Filosofia Trágica na Época dos Gregos, §1, p. 263)1
Um Universo que transcende a partir de uma Unidade2 constitutiva que se degenera na diversidade é uma concepção recorrente oriental (e mundial) que foi apropriada e racionalizada pelo pensamento filosófico de linha órfica-pitagórica-platônica. Esse SER esférico, imóvel e compacto cumpre as exigências de uma coletividade que precisa postular uma realidade fundamental que explique as ambigüidades experimentadas no cotidiano e direcione, com um Télos, as ações e objetivos coletivos. Esse Universo cria um Dever que direciona as ações para resolve-lo naquilo que é e que não pode deixar de SER.

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sábado, 23 de janeiro de 2010

O Necessário e o Supérfluo

Caneca USB Sonhos de consumo, vontades, desejos… Aparentemente coisas que não nos darão nada além do que satisfação momentânea, mas que se tornam importantes, desejosas, queridas e, pasmem, necessárias até. Dois exemplos estão aqui: uma Caneca USB e um Óculos com Head Fone Bluetooth. Que delícia…. rs… E como são necessários. mesmo que eu nem soubesse que eram necessários antes de vê-los e saber de suas existências. Isso não é estranho? De onde vem essa necessidade? Como ela nasce, se é que nasce? Ou é pré-existente, nos contaminando e fazendo com que queiramos e necessitemos de algo que nem sequer tínhamos consciência de sua existência?

Óculos Bluetooth A falta que esses produtos preenchem em mim já existia ou ela se constituiu a partir do benefício que minha percepção atribui, circunstancialmente, a eles? E esse suposto benefício em que consiste? Seria o caso de classificarmos quais benefícios são necessários e quais são supérfluos? Não estaria na carência de liberdade, percebida em nossa própria condição existencial, o arcabouço genético1 das necessidades do sujeito?

Desenvolvamos melhor isso. Em uma conversa com minha amiga Paula no Orkut, discutíamos os cárceres do sujeito e a liberdade em Sartre. Na ocasião escrevi a ela:

“Desde a invenção do EU, do EGO, do Si Mesmo, [ou da auto-consciência emergindo como condição humana] o homem projeta de si (do Sujeito que quer) um Eu que se relaciona com o mundo. Tanto Sartre como Lacan consideram esse EU (EGO) uma ficção2 que reproduz, via má-fé, os papéis que dão manutenção a essas “prisões” determinísticas de forma ideológica. É a primeira alienação humana. O Sujeito é encarcerado nesse EGO que medeia a relação de nossa condição com a circunstância. Porém essa mediação histórica é condicionada a ser sempre a favor da circunstância e o homem ainda não se viu livre dos valores que o obrigam a determinar-se nela. “

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segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Filósofos são Girassóis

Homem e Mundo estão imbricados naquilo que Merleau-Ponty chamou de Carnalidade. Mas essa carnalidade é também ambígua entre um corpo atual e um corpo habitual. Merleau-Ponty nos diz em Fenomenologia da Percepção:

O corpo é o veículo do ser no mundo, e ter um corpo é, para um ser vivo, juntar-se a um meio definido, confundir-se com certos projetos e empenhar-se continuamente neles.” (MERLEAU-PONTY, 2006, p. 122)

A face genealógica desse imbricamento está na forma como os valores são instituídos. Num primeiro momento pela questão da necessidade e, num segundo momento, na construção de possibilidades da expansão de potência. Portanto, a busca pontyana pela Ontologia do Ser Bruto coincide com a origem da emergência dos valores para aquém da cultura; formadores da cultura.

fruto_do_mundo Fruto do Mundo… Eis o que somos. Porém, a volta às coisas mesmas, como nos solicitava Husserl, requer um olhar além desse olhar imbricado. Requer que mostremos a cara, nos tornemos Girassóis. Olhar para nossa própria genealogia requer reconfigurar o mundo nesse novo olhar.

Esse ultrapassamento, talvez transcendência do homem rem relação a si mesmo, de seu aspecto irredutível (o corpo), é a pulsão de expansão que se faz diametralmente oposta à conservação, mera sobrevivência, mera reprodução.

E como olhar, tal como Girassol, acima e além desse imbricamento? Não pode ser desprezando-o, não pode ser criando dualidades, não pode ser, enfim, de cima de montanhas (e lembranças) que não dizem nada. Esse olhar é Vitalista….

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terça-feira, 7 de abril de 2009

Diálogo Filosófico


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terça-feira, 31 de março de 2009

Histórias antes de dormir....

Hoje eu resolvi não contar uma história ao meu filho. Ele estava esperando, querendo ouvir a fantasia fruto de alguém, tal qual Homero, que lhe desse parâmetros e direcionamentos de caráter; simples noção enquadrada na civilidade para que ele possa ser humano contextualizado.

O fundo real histórico que Homero imprimia em suas narrativas tão bem delineadas e dentro de cada um dos gregos que o lia ou ouvia, apenas servia como base sólida para o verdadeiro sentido do mito: a instrução, a modelagem de caráter, o ensinamento e o exemplo a ser considerado para serem, os gregos todos, parte de um mesmo grupo, na mesma identidade. O mito nos comunga, é preciso conta-lo e revive-lo.

Mas hoje não. Hoje é o último dia de março e prenuncia o mês em que Saturno estará mais perto da Terra. O ano de 2009 é o ano internacional da astronomia e o mês de abril se inicia como o mês mais promissor à observação do céu. Portanto minha história para ele foi outra.
 
Contei que antes dele nascer eu havia comprado uma luneta semi-profissional; aquelas com tripé e tudo mais. E que assim que eu reaprendesse a usa-la, nós iríamos ver as estrelas e o céu bem de pertinho, sem precisar estar lá.

Ele me disse:
- Nós vamos ver de pertinho, papai? Mas eu não consigo ir até a estrela, eu não alcanço.
E eu disse:
- Sim, nem você nem o papai. Nosso corpo não consegue. Mas a luneta pode levar nossa visão até lá.
E ele:
- Só a luneta? Eu queria ir todo.
Nossa, ele tem 3 anos, e eu disse:
- Só podemos ir inteiros quando imaginamos ou com uma nave espacial.

Curioso foi notar que ele tinha referências sobre naves espaciais. Os desenhos pululam o dia todo com naves, viagens interplanetárias. Isso ele já conhecia, não despertou curiosidade. Mas ele me perguntou sobre essa tal de imaginação. Dei-me conta que estava criando um ser totalmente racional e concreto, que tinha consciência dada pela experiência e pelos “nãos” que recebia de todos, e consciência, sobretudo, do quanto era limitado fisicamente e estava encerrado em algo do qual não podia sair.

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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Ode a Liberdade

O que é possível esperar senão o infinito das possibilidades?
A cada amanhecer a condição de se esvaziar em novas esperanças?
Que essa consciência plástica que renega nossas determinações
Possa nos fazer totalmente possíveis em nosso próprio inacabamento

Que a incompletude seja nossa essência
Que o amor seja nossa forma de reconstrução constante

Sejamos plenos em nosso inacabamento...
Livres, mas fiéis ao corpo que traduz nossa história

Somos mito, somos religião, somos arte, somos filosofia
Somos uma carnalidade em dialética com o mundo
Somos um mundo em dialética com todas as carnalidades.

Somos livres...



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domingo, 2 de novembro de 2008

Wish You Were Here

Pink Floyd

Wish You Were Here (Roger Waters e David Gilmour)


So, so you think you can tell
Heaven from Hell,
Blue skies from pain.
Can you tell a green field
From a cold steel rail?
A smile from a veil?
Do you think you can tell?

And did they get you to trade
Your heroes for ghosts?
Hot ashes for trees?
Hot air for a cool breeze?
Cold comfort for change?
And did you exchange
A walk on part in the war
For a lead role in a cage?

How I wish, how I wish you were here.
We're just two lost souls
Swimming in a fish bowl,
Year after year,
Running over the same old ground.
What have we found?
The same old fears.
Wish you were here.

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segunda-feira, 14 de julho de 2008

Fome (Conto)

- Aqueles olhos-labareda a fitar-me, incandescidos e sem estirpe... Observa, arranca...! e desvio-me ao som dos cascos, em galope-sangue a pisar-me o estômago, urrando a sina de estar aqui, vida derramada... Isso apenas; derretida, escorrida, espraiando-se na luz difusa do meu candeeiro-peito... Sorvo as últimas gotas de lu-ci-dez quando a luz-se-fez, quando os cascos de Lú-ci-fer vociferava impropérios aos meus intestinos, enquanto o fogo de Prometeu lambia os gozos; gotículas de felicidade humana pontuadas em Zaratustra... Sou o Demiurgo... Morro em mim... A vida sugada pelos inexoráveis ditames da Vontade; saga sanguessuga dissimulada em existência. E os porquês se perdem, e os pulmões se inflam, e o escroto murcha...

Acordara naquela manhã com uma fome fora do normal. Devoraria tudo, sem medo, sem mágoa, como um Arjuna Tupiniquim. "Just do It"; pululava em sua mente inoculada de merchandising. Tateando a penumbra do quarto fechado, fome crescendo, ondas o invadia em freqüência modulada, batidas High-Tec na antixenofobia antropofágica da sua alma... alimentava-se...

Via-se na rua, andando, pessoas passando, pensando passado, refeitas, lutando. E a cada passo, sabia-se mais sábio na sucessividade do tempo. E no paço, sabia-se sadio, na coexistência dos espaços, alimentando-se na urbanidade hostil da selva concreta, cinza. Crescia junto aos cumes pontiagudos dos edifícios, aos que não se viam, em mundos paralelos, ficcionados em Buracos Negros, friccionados na pornocibernética do contato à distância.

- Os tecnocratas não sentem, cheiram, degustam, tocam, vêem... Quero morrer no campo, longe de tudo, deixar-me aos devoradores microscópicos a liberdade do meu pensamento pagão, entre planícies de mandrágoras... Em que acreditar ? As coisas me parecem meias verdades, dissimuladas em córtex, poesia, Darwins e mecânica quântica... É vã a busca por alimento numa terra sem identidade, amoral; faminta por saber-se algo.... que não sente...

No paço municipal, via-se mudo, olhando os transeuntes em cut-ups, past-ups, clips, idiossincráticos, como Requiém de Mozart ou Voodo Chile de Hendrix, polifônico, formigando as mãos, salivando os olhos em direção às pessoas mudas, curtas, sincronizadamente em passos largos ao paço público, lúdico.

Vozes, fome, olhos-labareda entreabertos no esôfago, fome... Via-se no centro de tudo, olhando para cima, ao cume dos prédios, girando eletrosfericamente na calçada de fótons, órbitas, geodésicas e nebulosas, faminto e só... Macunaíma esférico, desvairadamente Sampa de todos nós...

- Eu posso contemplar... Posso no paço, contemplar meus passos tímidos, ousados e trêmulos. Mas devoro ! Só assim sou... Mordendo, arrancando pedaços suculentos em postas de sangue fresco, chupando os ossos, mordendo a pélvis, arrancando sussurros destemidos da fome minha, só minha... Cortando transversalmente Oswald, Picasso, e Dali... Que vida dadaísta... Busca do belo ? O belo é bom ? O bom é belo ? O que é belo e o que é bom ? A arte é gruta, vagina, úmida e incandescida, é re-volta à Terra, útero e mãe, clitóris-púbis... Curvas do quadril-cintura... Colo... Arte-ovário, pênis-poeta ! "Lingam-Yoni".

Gilberto M. Jr. - 14/11/1998

 

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Fujamos (Poesia)

Penumbra na boca
Saliva nos olhos...
E a cada "não", revolvemos a terra
Em busca da utopia perdida !

Somos infinitesimalmente
Menores que nós mesmos
E soberbos...
Com sangue nas ventas
E tempestades no peito.


Fujamos,
Perdidos na lama agridoce dos pulmões
Revoltos na catarse do inconcebível
Repletos de luzes néon, heliocêntricas...
Regidos pelos incandescidos plexos
Passionalmente insanos...

Gilberto Miranda Júnior - 22/09/98

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terça-feira, 10 de junho de 2008

Quisera Eu... (Poesia)

Quisera eu ser comedido, circunspecto e prudente,
Deixar de ter toda essa vida transbordando aos borbotões de cada poro de meu corpo

Quisera eu fosse possível controlar essa ânsia
De estar-no-mundo em plena carne viva, constantemente

Quisera eu, às vezes, deixar de ser eu... nos outros... em mim....

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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Filosofia Palatável

boca1 Há algum tempo atrás escrevi um poema (quando participava da Companhia Literária Mote Perpétuo em 99 – com meus amigos diletos Alaércio, César e Cláudio), que falava justamente sobre o poder da língua, da boca. Parece-me hoje que valha a reprodução. A questão da linguagem e do que representa esse poder de nomear, designar e nos comunicarmos é há tempos discutido filosoficamente e merece um destaque a partir dos últimos acontecimento.

A Boca

A boca escreve das coisas
Só o que as coisas têm de inefáveis,
A boca come, ingere, mastiga...
Ela mente, xinga, ri e trai...
A boca regurgita, aspira ao pulmão
Coisas que nos mantém vivos.

A boca desenha a vida em nossas almas,
A boca abocanha, escancarada,
A vida brotando nela, engole
A mixórdia do mundo kaos...
A boca é caos com K, Grecolatinamente boca,
Cantada, decantada, encantada
Boca sem dente, luva desbocada,
Amada boca, de palato e saliva
De solitude e palavras,
De sotaque e Somálias
Famintas e certeiras...

Boca que procura bico,
Tórax; da cópia, coronária,
Canária, canto úmido das bocas sedentas...
Sandálias, da boca pescadora, do peixe
Que morre pela boca, mas não escreve
Que mata, mordendo o manto da morte

Boca morta, entreaberta
Em arcadas jogadas, exumadas,
Ex humanos de bocas caladas,
Na calada dos guetos, boca do lixo...
Boca amada, vermelha insaciável,
Sugando a vida espremida,
Canalizada na uretra da boca,

Boca, boca...

Sem ânimo, anima almejada
Boca, cloaca, retal...
Boca invertida, molhada, vagina,
Devoradora boca de loba, malvada –
Malversada, maledicente, melodiosa...

Boca delgada, carnuda,
Desnuda, imunda, pura
Boca santa, boca mantra
Em sons e dons de cura, crua

A boca desdenha, compra e vende
A boca desvela, nivela, revela
As palavras arcaicas, imemoriais
Boca, boca, boca, Haikai...

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quinta-feira, 22 de novembro de 2007

A Arte Viva do Bonsai

Ao pensar em Bonsai logo vem a mente aquelas árvores em miniatura japonesas. Não está errado pensar assim, até porque o conhecemos pelos japoneses que migraram para o Brasil, abrilhantando nossa Terra com trabalho e uma tradição que enriqueceu muito nossa cultura. No entanto, o Bonsai é uma arte milenar chinesa e vem das palavras pun-sai. A exportação da técnica para o Japão aconteceu há cerca de 500 anos.

Pun-Sai significa literalmente "Árvore no Vaso", no entanto não é qualquer árvore em vaso que pode ser chamada de Bonsai. É necessário alguns requisitos para ostentar esse status.

O primeiro requisito é a harmonia entre o recipiente e a planta. É essa harmonia que constitui o que o Bonsai é : uma réplica artística de uma árvore natural em miniatura. Podem ser trepadeiras, arbustos ou uma árvore mesmo e o recipiente pode ser um vaso (que deve ser escolhido cuidadosamente - dizem que a escolha do vaso adequado já se constitui uma arte em si) ou até mesmo uma rocha.

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Iniciando o meu Bonsai

the-best-bonsai-caring-ways Bem, eu estou iniciando-me nessa arte milenar e gostaria de falar um pouco sobre ela. Aos poucos vou postando meus trabalhos aqui no Blog e procurarei incentivar os leitores a tentar. Ao meu ver, não há nada mais filosófico que a dedicação a uma vida e o contato com a natureza.

Eu mesmo resisti muito antes de decidir e precisei ver o quanto um stress pode ser prejudicial para que eu realmente decidisse começar. Alias essa é uma história interessante, que não sei se um dia contarei nesse BLOG, pois não é um espaço, à princípio, para meus assuntos pessoais, mas posso dizer que a possibilidade da morte nos faz pensar em novas formas de se viver a vida. E uma dessas formas, para mim, foi a descoberta do que o Bonsai e a jardinagem em geral, poderiam proporcionar a alguém ansioso, hiperativo e muito agitado com eu (risos)...

Uma das coisas que ficou claro em mim, depois do nascimento de meu filho, foi a necessidade de mudar meu estilo de vida, trabalhar menos, dedicar-me mais à família e tentar realizar meus sonhos, como forma de dar-lhe um exemplo vivo de como nunca é tarde para se aprender a viver. Eu quero muito conviver com ele, trocar, interagir. E isso não se faz com palavras, faz com exemplos, com atividades em conjunto. Valores e princípios passam-se com exemplos, já dizem os psicólogos. E lá fui eu juntar o útil ao agradável, procurar minha paz, um lado mais Zen, meu equilíbrio, gerenciar minha ansiedade, e por outro lado, uma integração salutar e gratificante com meu filho, o serzinho que revolucionou minha vida...

Fui no Empório Verde, conversei longamente com o Sérgio (o proprietário) e comprei uma muda com todos os apetrechos necessários para começar a cuidar de meu Bonsai. Veja que momento único, eu e o Netinho plantando a muda...

Ao longo do tempo eu vou postando aqui a evolução disso... Espero que consiga fazer dar certo... A idéia é plantar e cuidar dele na terra (esse é o quintal no funda da minha casa) e começar a fazer as primeiras podas, dando formas a ele (que já estará em minha cabeça). Depois transferi-lo para um vaso onde poderá ser cuidado por outras pessoas ou até ser dado de presente. Imagine que legal dar um presente para uma pessoa de algo que você fez, cuidou, transformou, dedicou tempo, carinho, atenção ? Você doa um pouco de você junto. Muito filosófico isso.

O fato é que esse momento será mágico para mim e para meu filho. Conversando sobre a vida, filosofando, ou mesmo compartilhando um silêncio cúmplice no "cuidar" de nossa plantinha, simbolizaremos nela muitas coisas, como amizade, respeito, amor, afeto, ligação. Assim espero.

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