Toco, não contra minha vontade, em um assunto polêmico, porém necessário. Antes da defesa de qualquer bandeira não há como analisar um fato e posicionar-se dentro de uma perspectiva sem que as cartas estejam na mesa. Até porque mesmo que já tenhamos como pano de fundo uma perspectiva, é preciso analisar os fatos para que o posicionamento seja coerente e justificado dentro do mínimo de bom senso que se espera. Até porque os fatos nunca são eles próprios de forma pura e simples. Há sempre coisas em jogo além dos fatos quando se olham os fatos.
A questão central é que para quem preserva um firme propósito diante da verdade, se os fatos sugerirem ou demonstrarem que nossa perspectiva esteja equivocada, começamos a perceber uma desconstrução natural de nossas crenças e assistimos um reposicionamento progressivo na amplitude de nosso olhar sobre o mundo. Os fatos nunca estão isolados. Sempre existe um contexto que os encaixa em um sentido maior que sustenta uma certa simbólica. O reposicionamento, porém, não acontece sem dor e para quem busca a verdade é preciso estar preparado para a dor e o desconforto. Na multiplicidade de opiniões em um esforço sincero de imparcialidade é que as coisas se ajeitam, tomam forma e constituem a realidade que nos circunda, tanto sensivelmente quanto simbolicamente; não sem antes assumirmos o quanto trágico isso pode ser e nos posicionarmos favoravelmente para reconstruções profundas.
Isso é o que difere, talvez, as buscas religiosas das buscas filosófico-científicas. Quem busca a verdade pela religião se acomete de uma Vontade de Verdade que não raro o cega diante de qualquer coisa que, supostamente, contradiga a interpretação canônica daquilo que crê. A busca da verdade religiosa é uma busca, primordialmente, de conforto psicológico e nisso não podemos negar que a religião é profícua, útil e (a despeito das más línguas) até necessária. Embora haja no bojo da atividade científica e filosófica uma disposição “natural” ao conforto (pois são feitas por homens e suas complexas psiques), não é possível dizer que essa busca seja a primordial. Por esse motivo é que elas se constituem um plano de saber diferenciado e não raro promotoras de angústias e sofrimento para aqueles que precisam desconstruir suas crenças e verdades prontas para se abrirem às evidências.
A questão criacionista é uma questão delicada. Envolve muito mais do que crer ou não crer, nem tampouco invade a questão da validade ou não em se ter crenças. A questão é sobre a validade de se solicitar um estatuto a algo sem que esse algo cumpra aquilo que lhe classificaria dentro do estatuto que ele pleiteia. Ou seja, o criacionismo (e sua vertente menos religiosa o DI – Design Inteligente) solicita o estatuto científico sem querer ou se preocupar em cumprir os requisitos que os incluiriam como ciências. Como encarar isso? Como os próprios crentes poderiam encarar isso? Eis a questão.
Quem é do meio científico, seja estudante ou cientista atuante (sendo crente ou não) sabe o que o estatuto científico e a comunidade científica prescrevem para que uma atividade ou um corpo de pensamentos possam ser considerados como tal; dessa forma candidatar-se a ter esforços e financiamentos direcionados às pesquisas que corroborem seus postulados. Quem não é, ou não aceita, pois se “encastela” em verdades prontas a serem apenas confirmadas, simplesmente tenta desestabilizar esse estatuto com vistas a embrenhar-se em suas rachaduras (naturais, inclusive) para validar algo sem classificação fora de sua esfera: crenças.





