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sábado, 9 de janeiro de 2010

Do Dever em Não Devir

DAutor_alicevalentealves_luzenten55 Existem coisas que, mesmo para um cético como eu, parecem ter sido obra de alguma deusa muito esperta. Falo da deusa Moîra, o Destino. Ter conhecido, mesmo que virtualmente, a artista plástica e poeta (e por que não Filósofa) Alice Valente Alves, seus trabalhos e suas idéias, foi para mim um grande momento no ano de 2009. Por acaso nos adicionamos pelo Facebook a partir de comunidades comuns e pudemos trocar breves idéias. A partir delas pude conhecer melhor seu trabalho. A admiração e a urgência de lê-la se fez presente desde aí.

Não estou aqui para divulgar nada, claro, mesmo que seja importante e necessário que um trabalho desse porte e alcance seja divulgado às expensas. Portanto indico, para que conheçam, os Blogs e Sites dessa artista e filósofa portuguesa antes de escrever algumas linhas sobre um texto seu que impressionou-me muito.

Site de Alice Valente – onde contém sua biografia e uma cronologia de seus trabalhos, textos e participação no cenário artístico e cultural português.

Blog de Alice Valente - ALI_SE – onde ela publica textos e parte de seu trabalho como fotógrafa e artista, além de poemas.

Seu trabalho sobre a relação do corpo com a existência é fantástico e gostaria de fazer algumas considerações sobre um texto específico dela que pode ser lido na íntegra em seu site.

Esse texto da Alice é uma Comunicação proferida em 2007 na 11ª Mesa-Redonda da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, cujo tema na ocasião era Crenças, Religiões e Poderes: dos Indivíduos às Sociabilidades.

O estilo do texto, em português de Portugal (que adoro ler e nos dá uma dimensão totalmente diferente de nossa língua – uma dimensão clara e original da língua que pensamos, sem qualquer justificativa, ser só nossa aqui no Brasil) é de uma precisão e beleza recompensadora, traduzindo de forma brilhante muito dos pensamentos e idéias que venho desenvolvendo em meus estudos. Por isso o interesse, por isso preciso comentar, ampliar, apropriar-me despudoradamente desses dizeres fantásticos.

É claro e notório, ao menos para quem acompanha esse Blog, que minha linha de pensamento e minhas concepções filosóficas tem muito a ver com o que ela diz e pensa. A necessidade de romper dualismos (ou de transforma-los de dicotômicos em dialéticos), o interesse estético da construção de possibilidades e a imanência na alteridade como construção possível do Logos são elementos presentes em meu pensar e expressão e no pensar e expressão de Alice. Esse texto é apenas mais um dos casos. Falemos dele com mais vagar…

 

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sábado, 2 de janeiro de 2010

O Bambu da Ticiane

caminho-bambu-getty Não gosto muito, principalmente por e-mail, de mensagens natalinas ou de ano novo. Acho, na verdade, uma coisa meio hipócrita, enviada a montes de gente, sem um direcionamento pessoal. Por vezes as mensagens são pura pieguice. Nunca me manifestei contra, ainda mais publicamente, afinal não é bom ferir suscetibilidades, principalmente de amigos. Só as “correntes” que, quando recebo, protesto mesmo.

O caso do Bambu da Ticiane é diferente. É diferente pelo próprio teor da mensagem (ela precisa ser coletiva mesmo) e também pelo simples fato de às 23:01 h exatamente, eu ter recebido um torpedo dela em meu celular dando feliz 2010. E como foi bom, como foi especial. Talvez ela nem saiba o quanto me fez bem ser lembrado (com tantas coisas que ela deveria estar fazendo na hora, pelo menos 3 cidades distantes de mim) e pego o celular para me desejar um bom ano. Infelizmente não pude responder (vergonha, estava sem crédito rs).

Hoje, em meu e-mail recebi uma mensagem da Tici. Chamava-se O Bambu Chinês. Constava eu como destinatário com vários outros amigos queridos que compartilharam conosco anos de estudo em filosofia e uma amizade inquebrantável além de nossas formações. O e-mail dela, mesmo coletivo, foi só reforço do carinho especial que ela demonstrou na noite anterior, ajudado, claro, pela reflexão interessante que ela suscitou nesse cansado filósofo de 2009, mas esse pretenso renovado filósofo de 2010. O texto é esse:

HORTO-CAMPOS_002-784488Depois de plantada a semente deste incrível arbusto, não se vê  nada por aproximadamente 5 anos, exceto um lento desabrochar de um diminuto broto a partir do bulbo.

Durante 5 anos, todo o crescimento é subterrâneo, invisível a olho nu, mas uma maciça e fibrosa estrutura de raiz que se estende vertical e horizontalmente pela terra está sendo construída. Então, no final do 5º ano, o bambu chinês cresce até atingir a altura de 25 metros.

O bambu chinês nos ensina que não devemos facilmente desistir de nossos projetos e de nossos sonhos. Em nosso trabalho especialmente, que é um projeto fabuloso que envolve mudanças de comportamento, de pensamento, de cultura e de sensibilização, devemos sempre lembrar do bambu chinês para não desistirmos facilmente diante das dificuldades que surgirão.”

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segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Filósofos são Girassóis

Homem e Mundo estão imbricados naquilo que Merleau-Ponty chamou de Carnalidade. Mas essa carnalidade é também ambígua entre um corpo atual e um corpo habitual. Merleau-Ponty nos diz em Fenomenologia da Percepção:

O corpo é o veículo do ser no mundo, e ter um corpo é, para um ser vivo, juntar-se a um meio definido, confundir-se com certos projetos e empenhar-se continuamente neles.” (MERLEAU-PONTY, 2006, p. 122)

A face genealógica desse imbricamento está na forma como os valores são instituídos. Num primeiro momento pela questão da necessidade e, num segundo momento, na construção de possibilidades da expansão de potência. Portanto, a busca pontyana pela Ontologia do Ser Bruto coincide com a origem da emergência dos valores para aquém da cultura; formadores da cultura.

fruto_do_mundo Fruto do Mundo… Eis o que somos. Porém, a volta às coisas mesmas, como nos solicitava Husserl, requer um olhar além desse olhar imbricado. Requer que mostremos a cara, nos tornemos Girassóis. Olhar para nossa própria genealogia requer reconfigurar o mundo nesse novo olhar.

Esse ultrapassamento, talvez transcendência do homem rem relação a si mesmo, de seu aspecto irredutível (o corpo), é a pulsão de expansão que se faz diametralmente oposta à conservação, mera sobrevivência, mera reprodução.

E como olhar, tal como Girassol, acima e além desse imbricamento? Não pode ser desprezando-o, não pode ser criando dualidades, não pode ser, enfim, de cima de montanhas (e lembranças) que não dizem nada. Esse olhar é Vitalista….

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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O Olhar em Merleau-Ponty

livro-visiveleinvisivel(...) o próprio olhar é incorporação do vidente no visível, busca dele  próprio, que lá ESTÁ, no visível – é que o visível do mundo não é invólucro do QUALE, mas aquilo que está entre os QUALE, tecido conjuntivo de horizontes exteriores e interiores – é como carne oferecida à carne que o visível possui a “adseidade” (aséité), e que é meu.” (MERLEAU-PONTY 2007, Nota de rodapé da página 128.)

Eu fiquei muito impressionado com esse trecho do livro que estou lendo (O Visível e o Invisível de Merleau-Ponty): a carnalidade ou a própria carne como “adseidade”. Para quem não sabe sobre esse termo, atribuído a uma das características de Deus, define a propriedade do existente por si e para si. Não significa causa de si mesmo, mas antes, incausado e suportado na própria existência de si.

Imaginar ou conceber que entre nós e o mundo, entre o mundo e nós, e entre nós mesmos, exista essa “adseidade” (própria de nossa carnalidade) é de uma espantosa ousadia explicativa; faz-nos quedarmos diante de tantas lacunas até então nem resvaladas por tantas teorias e concepções filosóficas que a história e a tradição nos legaram.

flight É preciso que entendamos o que Merleau-Ponty entende por Carne em sua Filosofia. Carne, para Merleau-Ponty não é matéria, nem espírito, nem substância. É Elemento. Carne, nesse sentido pontyano se equivale à arché pré-socrática; aquele elemento primordial qualitativo pelo qual as coisas se originam e se constituem.

No mesmo caminho em que, por exemplo, Tales aludiu esse elemento primordial a partir da Água, Anaximandro aludiu ao Apeíron (como movimento de pares de opostos), Anaxímenes ao Ar e assim por diante, para Merleau-Ponty a Physis (que constitui o Visível e o Invisível), tem como seu elemento primordial a Carne como tecido constitutivo de tudo que há enquanto mundo: espiritualmente e materialmente.

Vale citar Moutinho para entendermos melhor essa questão:

Ter um corpo é ter uma ciência implícita, sedimentada, do mundo em geral, e de que uma coisa é apenas "uma das concreções possíveis". Essa montagem universal não se confunde com um conjunto de condições de possibilidade, à maneira kantiana, pela simples razão de que aqui "o mundo tem sua unidade sem que o espírito tenha chegado a ligar suas facetas entre si e integrá-las na concepção de um geometral" (MOUTINHO, 2004)

A tradição homérica e hesiódica em contraposição a uma nova tendência delineada no sec.. VI e V a.C. (a partir da popularização do Orfismo e do Pitagorismo), mudaram a forma de ver o mundo, a realidade e o homem: de um sentido horizontal e contingente para um sentido vertical e teleológico[i].

A busca e a concepção de que exista um elemento constitutivo único na Physis pelo qual as coisas se dão em co-participação ou co-pertencimento, é o desdobramento lógico de um mundo que é Caos e se faz Cosmos a partir da ação do Espírito Humano; pela ideação de um Sujeito vidente e visível, expectador e ator.

Physis é Matéria e Espírito. Eles são sua condição de possibilidade e imbricamento na constituição da realidade que é tanto Sentido (Forma ou Idéia), quanto Matéria (realidade física). Por isso Tales nos diz que as coisas estão cheias de deuses; é pura vida e sentido dado pelo espírito humano em sua mundianidade, em sua existência.

Desde os órficos e Pitágoras, a cosmologia grega inicia a tendência a uma inversão (havendo especulação de que a influência oriental é marcante nisso) para uma Unidade que se degeneraria na multiplicidade. Essa inversão é incompatível a uma indiferenciação que se distingue a partir do pino, conforme a tradição micência nos lega.

Muito mais do que uma guinada ética e antropológica na Filosofia (como nos diz a historiografia oficial), a guinada sob influência do orfismo foi cosmológica e cumpre interesses específicos, defenestrando da posteridade tudo o que se oporia à hierarquização, ao centro de comando e à categorização do mundo segundo esses objetivos ulteriores tomados como pressupostos da própria existência.

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sábado, 2 de maio de 2009

Existência na Fenomenologia

Para a fenomenologia a existência é faticidade. Aquilo que se vê, sensível, interagente entre os de mesma categoria, existentes. No entanto, melhor seria separar essa faticidade considerada pela fenomenologia da faticidade considerada pelo existencialismo.

A fenomenologia, assim como o próprio existencialismo, assemelha-se mais a uma abordagem, a um método para um pensar filosófico do que um corpo de princípios conceituais unificados que se possa denominar uma “Filosofia”.

Portanto, dentre os que adotam o método fenomenológico para lançar um olhar sobre a existência, muitos deles escolheram questões teoréticas que ora privilegia a existência em si mesma, ora privilegia o existente e como ele olha para a existência.

husserl_edmund Edmund Husserl (1859-1938), considerado pai da fenomenologia, foi o primeiro a tentar organizar o método fenomenológico, adotando uma teorética diferente dos existencialistas, embora tenha influenciado a todos eles e tenha sido pioneiro e inspirador das idéias de Heidegger (1889-1976), Sartre (1905-1980) e Merleau-Ponty (1908-1961) entre outros. Husserl estava interessado no sentido subjetivo da existência, colocando a própria existência, segundo suas palavras, em “parênteses”. A faticidade existencial que preocupava Husserl era a que dava sentido à existência das coisas e determinava as coisas naquilo que elas são enquanto existentes. Dessa forma procurava a essência, o sentido que configurava a existência, aquilo que era determinante de sua figuração sensível. A existência dos fatos, em si mesma, deveria ser colocada em parênteses para que fosse entendida através dos sentidos que a colocava em evidência.

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segunda-feira, 9 de junho de 2008

Reflexões Metafísicas I

Quando se diz que a Metafísica é a ciência do Ente enquanto Ente, ou do Ser enquanto Ser, este “enquanto” que formata a idéia exprime o ponto de vista do qual se considera o Ente, o Ser, formalmente. Nesse aspecto, a Metafísica estuda e entende o Ser na medida em que ele é tomado em si mesmo, independente de como ele se manifesta em sua diferença, variedade, diversidade, ou em qualquer categoria determinada e particular em que ele possa ser tomado e identificado. Existencialmente, poderíamos dizer que a metafísica preocupa-se com a essência e não com o acidente que pode nos mostrar um Ser numa variedade que o vele, o esconda atrás de aparências.

Até aqui, tudo bem. No entanto, ela se configura aos olhos incautos como “viajante” na medida em que parte de pressupostos indemonstráveis, e assuma uma dualidade natural transcendente que coloca o Ser de algo fora do escopo de sua expressividade existencial. Como nós, humanos, temporais e finitos em nossa existência corporal, podemos inferir, assumindo apenas uma tradição introjetada culturalmente, que, além de nós, exista de forma necessária e suficiente uma essência anímica apartada e dialeticamente expressa em nós enquanto seres-no-mundo?

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terça-feira, 13 de novembro de 2007

O Sacrifício

esfoco-e-sacrificio Sacrifício vem etimologicamente de sacro-ofício. Isto é, uma atividade importante, sagrada, que deve ser venerada. Talvez por isso seja tão difícil o exercício da filosofia. É um sacrifício, onde imolamos nosso próprio ser no altar da sabedoria.

Fugir das verdades prontas para construir sua própria linha de pensamento, é um sacro-ofício. Contrapor-se ao senso comum mesmo que seja para depois confirma-lo com propriedade, requer sacrifícios extenuantes. E tudo isso para ser incompreendido, ser chamado de prepotente, soberbo, vaidoso... Diria mártir...

E aqueles, sacrificados numa propaganda enganosa, que levando ao extremo a máxima socrática decretaram a impossibilidade de alcançar a verdade absoluta, foram imolados pelo dogmatismo. Sacrificados e martirizados para renasceram na boca da modernidade, na genialidade louca de Nietzsche, no existencialismo de Sartre, na fenomenologia de Husserl. Enquanto que os sábios, que tudo sabiam, vomitavam sua sapiência nos corredores eclesiásticos, imolando outros mártires...

O sacro-ofício da dúvida sistemática desafia os saberes instituídos como verdade. Denunciam a lógica perversa do mercado, do autoritarismo, do anarquismo irresponsável, do nihilismo pós-moderno e da ganância humana. E isso requer um sacro-ofício. Uma atividade sistemática de reconstrução de valores, um revolver de conceitos, tudo fluídico, em eterno movimento dialético, uma eterna dança de Shiva.

Os pilares do universo estão postos à prova. Libertaram no sacrifício o universo como medida do homem, e imolaram-se para embrenharem-se nesse mesmo universo, conhecendo-o desde dentro. Eis o ofício mais nobre de um ser sagrado.

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