Filosofando na Penumbra

A intenção desse Blog é servir como parteiro de idéias, um berçário cognitivo de conceitos e investigações das coisas que nos cercam. Na medida do possível, a partir da repercussão do que é dito, será a base de trabalhos mais profundos em nível acadêmico. Espero contar com a ajuda dos amigos no burilar desse vasto parto contínuo...

Para postar algum comentário sobre os artigos, é necessário que você desabilite seu bloqueador de pop-up para o domínio do Blogger. A janela de comentário abrirá em pop-up. Seu comentário é muito importante, ajude-me. Obrigado...


segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Resgate da Razão Filosófica

ondas-quantica As coisas mudaram por certo. De um passado glorioso que logo se tornou sectário e tendencioso, a capacidade humana de pensar-se e pensar o mundo foi cada vez mais direcionada a uma única maneira de pensar. Mas a Filosofia sempre foi filha de seu tempo (conforme nos ensina Hegel), embora a sectarização tenha tentado de todas as formas eternizar formas de pensar que responderam demandas específicas de quem detinha o poder.

Quando a Filosofia perde seu contato com o real e tenta encaixar o real em esquemas globalizantes a partir de pressupostos ideológicos, ela perde seu vigor, sua liberdade e seu aspecto mais fundamental: a geração efetiva de conhecimento.

Nenhum sistema filosófico consegue ou conseguirá esgotar a riqueza e a complexidade do real. Nenhum conhecimento humano será capaz disso. Enquanto a ciência se fragmenta e se especializa na crescente consciência dessa impossibilidade, ao mesmo tempo em que perde seu contato com o humano, a Filosofia se “encastela” nos seus sistemas se colocando cada vez mais distante da realidade. O dilema está posto. O papel da ciência é claro. E o da Filosofia?

Em que direções podemos especular e dialogar com os possíveis rumos que a Filosofia pode tomar para reconectar-se com a realidade trazida fragmentada pela ciência? Ao mesmo tempo em que procura uma construção de sentido para os diversos campos do saber, penso que a Filosofia deva abrir mão de impor uma visão a-histórica, determinando a realidade a partir de pressupostos doutrinários. Isso seria possível?

Embora hoje já seja banal e terreno comum a idéia de que a ciência somente progride em suas fronteiras, ela própria, devido à sua especialização constante, impede-se de progredir e crescer devido à prisão oferecida por seus objetos de estudo. Caberia então, nesse cenário, não só à Filosofia enquanto saber, mas uma “atitude filosófica” dos cientistas, a dedicação à construção de sentidos nessas zonas fronteiriças, oferecendo à humanidade muito mais do que técnica, mas respostas à sua própria condição existencial.

Esse, talvez, seja o resgate, enfim, da Razão Filosófica. A Razão Filosófica no cenário contemporâneo estaria nas abordagens globais através do apelo a interação entre as disciplinas científicas, promovendo um “concerto” epistemológico que as desprendessem de seus próprios interesses e pudessem ser utilizadas em função de uma situação ou fenômeno em seus diversos matizes fatídicos.

Ou seja, ao invés das diversas disciplinas estudarem o ser humano sob seus pontos de vistas e objetos específicos, interagirem sob os auspícios da Razão Filosófica para entenderem melhor o ser humano como um todo, mesmo partindo de suas especificidades. Os cientistas já fazem isso de maneira incipiente (ou insipiente), utilizando dessa mesma Razão Filosófica. Mas e os Filósofos? Vão perder o bonde dessa demanda histórica encastelados em suas viagens metafísicas que partem de modelos alheios à realidade para explicar a realidade? Quanta ingenuidade. E a cada momento vemos a ridicularização da filosofia pelos irresponsáveis.

O discurso filosófico, historicamente, sempre foi chamado a tornar a realidade inteligível, mas não cabe mais fazer isso à moda antiga nos moldes do Filósofo-Rei de Platão. Hoje, essa inteligibilidade da realidade precisa ser construída levando-se em conta a percepção cada vez mais complexa, plural e fragmentada do real, e só será possível abrindo-se em diálogo entre os diversos agentes construtores do conhecimento e não mais tentando encaixar modelos prontos na realidade.

Antes do “deve ser”, é preciso entender “como é”, respeitando-se a visão plural que compõe o sentido do real. E como fazer isso? Vale, para refletirmos, uma leitura para reflexão:

Nos dias de hoje, o remanejamento da questão do sentido a leva [a Filosofia] a assumir uma nova função: a de superar o velho antagonismo com as ciências humanas e com elas restabelecer um diálogo aberto, profundo e fecundo numa perspectiva transdisciplinar de prática suscetível de importar e exportar de uma disciplina a outra ou de um contexto a outro noções, demarches e instrumentos instaurando certa transversalidade das disciplinas segundo um processo indo de um contexto a outro. Deve promover e incentivar, não só as metodologias interdisciplinares através da troca de conceitos, modelos e técnicas de análise, mas uma transdisciplinaridade visando a construir em comum objetos de pesquisa e os instrumentos de pensamento que eles exigem. As ciências humanas nasceram no prolongamento do projeto das Luzes e de uma fé nos progressos realizados pela Razão. Mas definiram seu empreendimento como uma crítica das ingenuidades inerentes à crença num possível domínio ou transparência da história humana por seus sujeitos. Seu papel histórico? Não só mostrar as diversas determinações pesando inconscientemente sobre o indivíduo e o social, mas objetivar as práticas sociais.

Esta perspectiva abre o caminho para que a filosofia passe a desempenhar um papel significativo na reglobalização dos saberes fragmentados, na medida em que permite a utilização de seus recursos para se construir uma representação mais totalizante e adequada de uma situação e que se torna mais receptiva às questões de ética, direito e política e às questões sociais postas pelas ciências humanas, instaurando um diálogo franco e fecundo entre os pesquisadores das diferentes disciplinas. Numerosos são os estudantes de filosofia que manifestam um desejo sincero de aprender psicologia, história, direito, estética, política, economia etc: não querem mais viver o sentimento angustiante de serem acusados de estar fora ou acima da realidade: navegando no céu das idéias.

(JUPIASSU, Hilton. O Sonho Transdisciplinar: e as razões da filosofia. Rio de Janeiro: Imago, 2006. ISBN 85-31-0995-1, p. 10)

i135323

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Quase Férias… Leituras e livros…

Poxa, falta pouco, e posso dizer que esse semestre foi puxado. Muitas decisões a serem tomadas, muitos rumos a serem definidos, pessoas importantes influenciando em meus pensamentos e, como sempre, uma correria atrás de recursos para fazer face às responsabilidades que acabamos assumindo na vida, na família e para nossos sonhos.

Mas quero tentar aproveitar meu tempo de férias. Quero ler muito, preparar artigos, publicar (em revistas indexadas) e também reformular meu Blog, mudar o lay-out, andar muito de moto e definir de vez meu trabalho de graduação para o ano que vem.

Essa semana tive um tarde livre e ao invés de postar aqui fui fazer algo que penso não decepcionar quem acompanha o Blog: levei meu filho, pela primeira vez, num sebo. É claro que ele queria ir ao shopping brincar na piscina de bolinha e comer no Mcdonalds rs… Mas quando chegou, adorou! E eu adorei que ele tenha adorado. Ficamos lendo revistas, olhando os livros, conversando sobre o que estávamos vendo. Puxa! Ele demonstrou curiosidades que nem sabia que ele tinha. Ele faz seu campo investigativo na circunstância em que vive, mapeando onde está e procurando os por quês da existência daquilo que o afeta. Em suma, parece já ter, incipiente, uma postura filosófica. Isso, claro, me deixa exultante.

Img1169 Impressiona-me também as associações que ele faz. Ao me perguntar a origem daqueles livros todos, respondi que as pessoas que tinham lido os livros que estavam ali, vendiam para o dono do local, que então revendia para outras pessoas que não tinham lido aqueles livros. Logo ele associou isso à quantidade de livros que tenho (adquiridos ao longo da minha vida, que não é curta rs). E isso me fez pensar na minha própria relação com os livros. Eu nunca vendi ou doei um livro. E por que? Minha relação com os livros é pessoal, não é impessoal. Cada livro que tenho parece fazer parte de mim e da minha história, mesmo que eu o renegue ou mesmo tenha me arrependido de ter lido; é parte de mim. Vende-los, doa-los ou (muitas vezes) até empresta-los soa-me como estar dispondo-me de mim mesmo e fragmentando ou destotalizando minha identidade. Que coisa mais tosca.

Img1171

Depois da conversa com ele, juro que tentei ver, em minha biblioteca, se eu poderia doar algum e dar a oportunidade para alguém lê-lo. Não consegui. Eu tentei, é sério. Talvez um dia eu monte uma biblioteca, já que emprestar até consigo, mas pareço uma sarna em cima dos amigos para que eles devolvam logo rs. Que coisa ! Mas valeu a experiência. Amei ver meu filho compartilhando comigo o ambiente que adoro e espero que ele também goste.

Logo eu volto, gente…

terça-feira, 5 de maio de 2009

Ciência & Tecnologia – Imbricamentos e Relações

Em que sentido se circunscreve a idéia de que a ciência é o conhecimento capaz de produzir tecnologia?

Resolvi publicar em artigo ao invés de responder ao comentário do Osame no artigo O Saber Científico e a Gripe Suína porque além dele ter ficado longo, penso que traz reflexões que podem ser compartilhadas além do acaso dos leitores que se interessam em ler comentários. Muitas vezes os comentários são até melhores que os próprios artigos e essa discussão em que estamos parece-me ter esse aspecto.

mainpage-pic_green Penso que nossa divergência está em algo muito mais amplo do que havia me atentado no início. Eu não vejo diferença, no entanto, no que chamamos exatamente de Técnica ou Tecnologia. Mesmo na definição da Wikipédia em inglês abre-se um campo vasto para se entender o que vem a ser Tecnologia, mas como eu havia dito em minha resposta eu a entendo de uma forma bem específica que nada mais é do que um conjunto de Técnicas, que por sua vez se circunscreve em um fazer especializado, seja com base teórica ou não.

Técnica é você ter e exercer o domínio, controle e manipulação de um aspecto material da realidade. Tecnologia é o domínio com sentido de uma técnica ou de uma série de técnicas. Não importa para a idéia que quero passar se o “logia” como sufixo também traga o conceito de estudo sobre técnicas. Tecnologia como conjunto de técnicas ou como estudo de técnicas ou ainda como o conhecimento de causa de um conjunto de técnicas, não muda, substancialmente, a idéia de que a ciência só é ciência na ocidentalidade se trouxer nela o potencial tecnológico como desdobramento de sua própria existência.

A tecnologia, ou a técnica em si, porém, não dependem necessariamente da ciência. E isso me parece tirar o caráter tautológico da questão. O que precisamos ver é em que medida a Ciência dependeria da técnica para ser considerada como tal.

Identifico dois pontos de divergências entre meu pensamento e de Osame:

Um ponto diz respeito às motivações da ciência, que para mim soa como uma busca metafísica do fundamento da atividade científica. Não penso que o fundamento de algo deva ser buscado numa instância metafísica cuja essência anteceda sua existência e o que a caracteriza fenomenicamente.

Determinar o que se vê pelo que se conceitua previamente, parece-me ser anticientífico. Eu não busco esse caminho nem tampouco insinuo que o Osame esteja fazendo isso. Mas os conceitos que venho trazendo parecem-me dizer respeito a uma abstração de como a ciência se apresenta a nós fenomenologicamente e não como ela é vista por quem a faz ou como ela poderia ou deveria ser.

Outro ponto diz respeito ao Osame vincular o que trago a um necessário desdobramento tecnológico factual do conhecimento científico, excluindo a cientificidade daquilo que não produziu tecnologia factualmente. Eu não vinculo a cientificidade de um conhecimento a uma necessária produção tecnológica, mas sim ao potencial tecnológico do conhecimento. É essa a motivação científica, e antes de motivação, é a que torna ciências na ocidentalidade.

Vou então, antes de argumentar a favor do que penso, responder a pergunta inicial desse artigo: em que sentido se circunscreve a idéia de que a ciência é o conhecimento capaz de produzir tecnologia? Resposta: no próprio método científico.

Pensemos juntos.

Se uma teoria só pode ser considerada científica se for possível depreender dela predições de eventos que podem ser corroborados por fatos, inferimos que todo conhecimento científico teórico se circunscreve no desenvolvimento de uma técnica que possibilite ter e exercer o domínio, controle e manipulação de um aspecto da realidade. Não existe possibilidade desse domínio, controle e manipulação sem o desenvolvimento de uma técnica que os possibilite. A Teoria não dá a técnica, mas ela a exige para que se comprove sua validade.

A técnica pode ser até vista como um subproduto da ciência, pode até ser vista como um fim marginal, mas sem a produção técnica, sem um saber prático específico que valide a universalidade da teoria, não se tem ciências. Se Técnica, como eu disse, é ter e exercer o domínio, controle e manipulação de um aspecto material da realidade, e se a ciência não se valida sem isso, a Técnica é fim da ciência, portanto a define.

image93a

O conjunto dessas técnicas compõe uma tecnologia a ser direcionada por quem a usa, mesmo que não seja, necessariamente, os únicos que deveriam usar. É aí que entram as decisões políticas, ideológicas e de interesses econômicos.

Se não fizesse parte da ciência, por definição, a necessidade do domínio, controle e manipulação de um aspecto da realidade, não haveria como consequência dela, necessariamente, a tecnologia. Mas se faz parte, o imbricamento é total, e no conceito de ciências não se pode excluir seu desdobramento potencial técnico.

O que se faz depois com essa técnica dependerá das estruturas sócio-políticas-econômicas que destinam esse conhecimento científico. No capitalismo se faz produtos, mercadorias, se alimenta o mercado na sede incessante de lucros das empresas e na produção ideológica de uma vontade crescente de se consumir por parte das pessoas. Faz-se armas de destruição massiva e remédios poderosíssimos que nos transformam em celeiros de proliferação de supervírus e superbactérias. Mas isso não é culpa nem da ciência, nem da tecnologia que ela possibilita em seu imbricamento existencial.

 

Alerta Importante, porém….

Mas aqui cabe um alerta importantíssimo  na presente abordagem e que escrevendo com muita sinceridade ao Osame, me sinto obrigado a fazer.

Criticamos ambos, penso eu, um sistema que “rouba” da ciência e do conhecimento científico as descobertas que poderiam ser usadas para algo mais útil (ou meramente para sabermos mais do que nos cerca) e a usa como instrumento de opressão e domínio num sistema preocupado apenas com o lucro.

Podemos ver a Tecnologia por dois prismas nesse aspecto:

1. Como mera somatória de técnicas oriundas da necessidade de domínio, controle e manipulação da realidade que toda ciência faz e tem como fim;

2. Como um conjunto de técnicas agrupadas sob um significado dado a posteriori e à revelia do conhecimento científico para cumprir um propósito e uma finalidade alheia à comunidade e à atividade científica, bem como alheia até às suas técnicas fins.

Mas nisso tudo, até onde vai a responsabilidade da ciência? Até onde esse elemento que “rouba” o conhecimento científico para fins particulares está na estrutura a priori da atividade científica?

Tecnologia0 Não é só ao definirmos Tecnologia meramente como conjunto de Técnicas, sem nada a mais que a caracterize além disso, que meu argumento se torna verossímil. Isso significa que nem ciência, nem técnica e nem tecnologia são responsáveis pela destinação duvidosa que o sistema e certos setores da sociedade dá ao conhecimento científico. Não em si mesmos, mas existe uma responsabilidade.

O propósito do conhecimento científico é um conhecimento seguro, e seu critério de segurança é sua capacidade de domínio, controle e manipulação daquilo que conhece, portanto (mais uma vez) seu fim é a técnica. Ao agruparmos um conjunto de técnicas que gere outros conhecimentos científicos e sirvam como base para uma ampliação do conhecimento, teremos uma Tecnologia retroalimentando a própria ciência. Teremos a Tecnologia como fim da ciência e seu subproduto sendo usado por um sistema que usa sua essência com propósitos específicos.

Mas levando em conta o item 2 e colocarmos na definição de Tecnologia, além do mero conjunto de Técnicas, um significado, isto é, um conjunto de Técnicas agrupadas sob um propósito e finalidade específica, então sim poderemos separa-la do conhecimento científico. Mas de que adiantaria isso?

Se, à revelia da técnica como forma de domínio de um conhecimento teórico, agruparmos uma série de técnicas dando um sentido e propósito a elas, desenvolvemos uma Tecnologia sem vínculo com a estrutura apriorística da ciência. Penso que seja essa tecnologia que Osame se refira.

Isso é muito importante salientar, pois esse sentido, propósito e finalidade é algo colocado a posteriori do processo científico e da aplicação do método, bem como no desenvolvimento da técnica que valida o domínio que a Teoria Científica procura proporcionar.

Penso estar com isso estendendo meu entendimento ao que o Osame tenta me trazer em seus comentários. No entanto tem um outro problema ainda. Do que adiantaria tudo isso, esse malabarismo conceitual, se mesmo que não colocássemos a Tecnologia como fim da ciência (admitindo a definição 2), é o sistema que vai usar a tecnologia como bem quer que financia a própria ciência, seja diretamente ou por traz dos governos que promovem o incentivo à pesquisa?

Claro, isso não está no cerne da questão que estamos discutindo, mas se traz à baila automaticamente. Imaginemos que, por acaso, pudéssemos retirar completamente o interesse econômico por traz de toda pesquisa científica. Seja qual for o fim da ciência e o que a define, é dificílimo imaginar que aceitemos que o que define um conhecimento científico não seja a capacidade potencial desse conhecimento produzir saberes práticos e técnicos, suprindo nossas necessidades como seres humanos.

No final do artigo anterior que causou o comentário de Osame, saliento a importância da comunidade científica ficar atenta ao mau uso de suas descobertas e aos riscos que ele acarreta, servindo como porta-voz da necessidade de uma postura ética de um sistema preocupado somente consigo mesmo.

Com um medo cínico de me tornar muito longo, vou tentar justificar esse pensamento.

 

Castores, Tautologias e Definições

castor Osame pergunta-me se tenho a opinião de que a história da tecnologia começa no capitalismo e diz que, para ele, começa com os castores. O raciocínio por traz está no pensamento de que eu teria dito que a tecnologia é fruto exclusivo da ciência, o que traria o caráter tautológico da definição de ciência como conhecimento capaz de produzir tecnologia.

Penso que nesse entendimento houve um equívoco. No artigo em que escrevo sobre o Saber Científico e a Gripe Suína, eu não questiono enquanto técnica a decisão judaica em não comer porco. Só não a coloco como científica por que ela não se refere a um saber universal, abstrato e teorético que possibilite sua aplicação técnica em outros campos particulares.

O que é preciso ficar claro que eu não defendo que é a Tecnologia é definida pela ciência, mas que a ciência é definida pela tecnologia que potencialmente produz. É diferente e não é tautológico.

Assim como os castores, grande parte do saber humano e que até hoje nos maravilha, foi construído com técnicas e tecnologias totalmente desvinculadas de um saber científico. Mas isso não exclui o fato de que a ciência, desde que nasceu, circunscreve-se conceitualmente em sua capacidade de produzir tecnologia.

Definir, como etimologicamente o termo nos diz, é dar um fim a algo, demarca-lo, limita-lo. Conceituar é diferente de definir, embora no Houaiss traga dentro da acepção de “Conceito” a idéia de “Definição”. Conceituar é entender o mais profundamente possível alguma coisa em sua manifestação e conseguir detectar nessa coisa aquilo que a melhor caracteriza; o seu significado. Conceituando, a meu ver, é que se define.

Eu trago, portanto, dois conceitos envolvendo o que entendo por ciência. O primeiro conceito diferencia o que seria técnica e o que seria ciência, dizendo que técnica é um saber específico, particular, prático e ciência é um saber pretensamente universal, abstrato, teórico. Técnica ou Tecnologia (como conjunto de técnicas inter-relacionadas ou não, constituindo um único fazer ou não) podem vir delas mesmas e de suas práticas ou virem cientificamente de uma abstração que universaliza um conhecimento ou um conjunto deles.

No outro conceito, vinculo a validade do saber científico ao desenvolvimento de um fazer prático que o valide, dando corroboração à teoria pelos desdobramentos empíricos daquilo que prediz; dominando, controlando, reproduzindo e manipulando aquele aspecto da realidade que foi explicado. E justamente por se validar dessa forma, tem como seu fim a produção da Técnica e/ou da Tecnologia.

Mas sabemos que só a partir de Bacon e já com o capitalismo comercial em voga e o industrial já em vias de dar sua cara na história é que podemos falar dessa necessidade de comprovação empírica e do nascimento da técnica como fim da ciência. Antes, a ciência especulativa era empírica somente na formulação de suas leis, mas não necessariamente na validação delas. Não se fazia o caminho de volta. Então, como era a ciência antes? Será que ela, antes disso, antes do capitalismo propriamente dito, possuía também esse imbricamento com a tecnologia?

 

Um Pouco de História e Contextualização

A Técnica, ou a Tecnologia enquanto conjunto de técnicas, pode ser adquirida (como excelência em um fazer) apenas através da prática da tentativa e erro. Por isso fiz a conjectura do costume dos judeus em relação à carne de porco. Assim como os saberes arquitetônicos do Egito e outras civilizações que atingiram sua excelência sem um saber teórico que as fundamentassem, existe uma gama de saberes que prescindem da ciência para se estabelecer. E os castores sabem disso, pois sua excelência é um longo processo de tentativa e erro cuja validação se circunscreve na continuidade de sua existência.

A Suméria revolucionou a engenharia da época desenvolvendo um campo de saber específico na construção de represas, diques e canais que maravilha o mundo até hoje, mas que não era um saber teórico, e sim eminentemente prático e adquirido pela sintonia fina de tantas tentativas e erros. A necessidade move as descobertas e a técnica. Até aqui eu penso que estamos de acordo sem muitas divergências. Nada disso ainda é ciência, mas expressa a técnica e a tecnologia.

tales-de-mileto A ciência nasce na Jônia no século VI a.C. E ela marca seu nascimento por um modo novo de se pensar e não por uma motivação nova para se pensar diferente. As motivações humanas não parecem ter se modificado ao longo do tempo. Sempre estivemos em voltas de resolver nosso problema de existência. Sempre buscamos resolver os problemas práticos relacionados com a perenidade de nosso existir e de nossas idéias. Ou estamos preocupados com nossa existência ou com a perenidade de nossos conceitos, significados e sentidos. Toda busca humana parece se dar na direção da preservação de nossa vida e dos significados que atribuímos a ela.

Imaginar que haja algo que valha por si só como parte integrante da natureza humana, parece-me ser assumir um modelo metafísico essencialista do universo e querer olhar a história a partir dele. Não há mal em si em ver dessa forma, porém carecemos de justificativas que nos façam assumir isso além de uma mera preferência pessoal.

Tentando contextualizar o nascimento da ciência no sec....VI a.C. para buscar o que motivou um novo tipo de pensar sobre a realidade, nos deparamos muito mais com a questão pragmática do fazer ciência do que com uma corroboração possível de um fim nela mesma ao molde aristotélico. O pensamento abstrato, porém não formal, já existia em todas as civilizações, mas a confluência de fatores de fundo eminentemente práticos e ligados à questões de sobrevivência, desembocaram na necessidade de se buscar um saber abstrato que pairasse acima dos costumes de cada sociedade.

A Grécia vivia um período de efervescência econômica e comercial, dominando boa parte da península e precisando expandir seus negócios. Cada nação que espremia a Grécia (que era formada por cidades-estado independentes politicamente) tinha uma cultura diferenciada, seus próprios costumes e seus campos de saberes atribuídos aos poderes divinos dos deuses que os protegiam. Na Grécia não era diferente, e a tradição impedia boa parte do crescimento econômico devido as divergências cosmovisionárias entre eles e seus vizinhos. Guerras eram freqüentes e isso não poderia continuar.

Menos do que por qualquer coisa do que por necessidade, a meu ver, era necessário que se encontrasse pontos de convergência cosmovisionários, abstratos, em que se pudessem pautar as relações entre as diversas nações ali presentes. Sem isso o comércio era impossível, a expansão era impossível, a vazão do excesso populacional e o acúmulo de riqueza eram impossíveis.

A Grécia se torna privilegiada nesse aspecto, segundo os historiadores, por alguns motivos básicos:

1. A capacidade discursiva e lógica de uma escrita herdada dos fenícios, mas que ao se incorporar as vogais deu amplitude comunicativa sem precedentes;

2. O uso corrente por uma princípio absolutamente abstrato de um indexador que colocava os valores das mercadorias numa mesma base de troca: a moeda. Esse é um símbolo da capacidade abstracional grega, cuja primeira moeda cunhada com esse fim nasce na Lídia (cidade-estado grega) no sec.... VI.a.C.;

3. A existência de uma classe de cidadãos que se abstém do trabalho e se dedica a uma atitude contemplativa e reflexiva perante a natureza e a realidade;

4. A experiência, desde o sec....VII dos jogos Pan-Helênicos congregando e promovendo a paz entre nações de unidades políticas independentes, além do sincretismo religioso promovido pelo politeísmo.

5. Laicização crescente das instituições políticas gregas e a separação entre religião e estado.

arte-na-grecioa-antiga Notamos com isso que a capacidade abstracional já existente, a experiência da multiculturalidade religiosa, aliada a uma habilidade de descrição mais precisa de suas idéias e o ócio, perfazem as condições de possibilidade do nascimento da ciência e da filosofia.

A Jônia era a porta de entrada e saída da Grécia continental. Mileto vivia, à época de Tales, seu apogeu. Os pré-socráticos foram os primeiros a tentar abstrair da diversidade os princípios naturais que regiam o universo, pairando acima daquele monte de deuses e buscando de forma universal aquilo que seria comum a todos.

A ciência é subproduto disso. Ela já nasce como forma de um pensar politicamente engajada na necessidade de constituir saberes que fundamentam um aspecto utilitário. Toda especulação filosófico-científica feita pelos pré-socráticos nasce sob o pano de fundo pragmático da necessidade de expansão comercial grega e suas relações com outras nações. Podemos até arriscar em dizer que a ciência jônica nasce sob os auspícios da busca de uma tecnologia para um fazer diplomático, na busca de uma técnica ou uma excelência que daria aos gregos condições de expandir e dominar as nações além de suas fronteiras sem a necessidade de guerras, embora estivessem também dispostos a luta-las.

Essa visão contrasta em muito com o que nos foi passado nos cursos oficiais que coloca o nascimento da Filosofia como um “milagre” grego emergente de uma natureza humana cujo amor ao saber é espontâneo e constituinte. Essa construção visionária, inclusive, também se encontra encerrada no arcabouço ideológico necessário para que assumamos essa postura idealista. Antes de Aristóteles, Platão já nos via com um impulso de buscar o BEM através da razão.

É aqui então que entra todo o humanismo renascentista, o iluminismo kantiano e por fim a Escola de Frankfurt a fazer uma crítica marxista dos postulados que coloca a ciência desinteressada e neutra. Ela pode ser, mas o homem e as estruturas que a controla não são.

Fazemos confusão, até pela história recente que isso representa (estando intimamente ligada à contemporaneidade). com o grito de liberdade iluminista contra a medievalidade que encarcerava as mentes numa concepção de mundo autoritária e obscura. Esse grito de liberdade pode ter até tirado a subordinação da razão das estruturas metafísicas escolásticas, mas não a tornou independente do utilitarismo. Pensar num fazer científico sem seu desdobramento técnico (mesmo que potencial), tira dele a necessidade do rigor metodológico que é a pedra de torque de toda ciência.

Concluindo

Nem o imbricamento entre Ciência e Tecnologia, nem o Imbricamento entre Tecnologia e Capitalismo trazem necessariamente um imbricamento direto entre Ciência e Capitalismo. A questão é que, querendo ou não, o Capitalismo apropriou-se de toda atividade e motivações humanas, mesmo que particularmente muito de nós não concordem ou resistam de alguma forma.

A questão da Tecnologia ser fim e definir um conhecimento científico, não coloca a Ciência como necessariamente ferramenta capitalista em sua natureza. Parece-me que é esse o alerta que Osame faz ao pensamento que venho trazendo. Alerta acatado, penso que não fiz essa ligação. No entanto é impossível deixar de admitir que a natureza do fazer ciência cai como uma luva a um sistema que precisa do domínio, controle e poder manipulativo da natureza para chegar aos seus propósitos.

DSC03702 Os pontos que o Osame salienta distanciando a Ciência do Capitalismo são, a meu ver, pontos legítimos, mas que não anulam a idéia de que o conhecimento científico, por sua própria natureza, traz como fim o desenvolvimento de técnicas que controla e proporciona o domínio da natureza da forma que mais desejam os famintos donos das indústrias. É inegável o avanço científico causado pelas revoluções industriais ávidas pelas novas técnicas de domínio e controle da natureza fornecidas pelas mais variadas pesquisas científicas.

O que precisa ficar claro é que a tecnologia sendo fim da ciência, não significa que a exploração capitalista também o seja, nem tampouco que seja fim da própria tecnologia.

Osame diz que vê a ciência muito mais próxima da filosofia do que julga nossa vã filosofia rs. E eu concordo com ele. O imbricamento que vejo entre Ciência e Tecnologia não exclui de maneira alguma o aspecto filosófico servindo como base ao pensar científico.

Mesmo o pesquisador de posse de boa parte dos meios de produção do conhecimento científico e que não tenha financiamento capitalista, disponibilizando o que descobre ao mundo da forma mais altruísta e humanitária possível, terá como produto final de sua pesquisa uma técnica e uma tecnologia cujas consequências ele não terá controle algum.

Nesse ponto, concordo com o Osame que a questão ética premente esteja relacionada com o uso da tecnologia gerada a partir daí e não necessariamente da ciência produzida. Mas enquanto houver a tutela do capital no uso e fruto da tecnologia gerada pela ciência, corremos o risco de estarmos virando um repositório e criadouro artificial de superbactérias e supervírus.

A Teoria de Darwin proporcionou desdobramentos técnicos sem precedentes no combate biológico de pragas, mas seu uso irresponsável e uma desenfreada ambição, fazem com que a técnica que comprovou a validade da teoria, seja usada contra nós mesmos, mascarada de benefícios que o sistema finge nos proporcionar. Culpa de Darwin? Culpa da Tecnologia que comprova a validade de sua teoria? Claro que não…

Ninguém precisou patentear a descoberta de Darwin para fazer mal uso dela, e nem ele foi financiado por qualquer indústria, mas a técnica oriunda da própria validação de sua teoria está na iminência de nos matar a todos se não tomarmos cuidado.

É da ciência a geração da tecnologia. Mas é do homem, a decisão ética de usar responsavelmente essa tecnologia. Penso também que é daqueles que mais promovem nosso progresso e futuro a voz mais ativa na sociedade para tentar nos alertar contra o mau uso daquilo que eles nos proporcionam: OS CIENTISTAS.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

O Saber Científico e a Gripe Suína

porco_leitor Tenho acompanhado os ótimos posts do Osame Kinouchi (já sou fã dele) em seu ótimo blog SEMCIÊNCIA, mas liguei o computador hoje com uma sensação realmente ruim ao ver a notícia da Folha On Line de que os “Casos confirmados de gripe suína saltam para 898 em 18 países”.

Há quatro dias atrás, quando a gripe atingia apenas 1/4 do número de casos no mundo, Osame alertou no Roda de Ciências sobre o descaso que os blogueiros científicos estavam dando ao assunto. Desde que ela surgiu, inclusive associada à gripe aviária, me vi pensando sobre o assunto e tentando inferir meios de entender melhor os desdobramentos disso filosoficamente.

Coincidentemente, na semana em que os casos se tornaram mais alarmantes, eu fui com minha família ao posto de saúde de minha cidade para tomar a vacina anual contra gripe que a prefeitura oferece gratuitamente.

Essa é uma prática comum e mais de 150 milhões de pessoas no mundo se beneficiam da vacina que funciona basicamente pela inoculação de um vírus inativado que precipita o nosso sistema imunológico preparando-o para o caso de uma gripe real nos infectar. A cada ano é feita uma nova vacina, pois o vírus Influenza sofre mutações constantes e uma série de Grupos Regionais de Observação de Gripe (GROGs) sistematiza a coleta de informações para que a OMS (Organização Mundial de Saúde) forme as bases de elaboração da próxima vacina.

Para saber mais, consulte: Vacina.

Bem, o sistema funciona. Porém nos aponta numa direção estranha e que é foco do que escrevo nesse artigo, inclusive indo por outro caminho daquele analisado por Osame em seus posts nos Blogs onde participa.

Osame foca sua análise nas condições de acondicionamento próprias da produção de carne em escala industrial, o que não deixa de ser um dado relevante na busca de explicação dos motivos que trouxeram esse vírus tão perigoso às manchetes do mundo inteiro. Explica, parece-me, a capacidade assustadora de alastre do vírus, mas não explica como ele se tornou tão potente e prejudicial aos humanos.

O presente artigo possui dois focos básicos: uma breve análise sobre a questão demarcatória entre conhecimento científico, não-científico e pseudocientífico e uma tentativa de explicação dos motivos pelos quais o poder adaptativo do vírus se direciona para um poder cada vez mais avassalador e letal, levando em conta a Teoria da Evolução de Darwin.

O fundo da questão demarcatória está na troca de comentários entre eu e o Osame sobre meu artigo que atribui à ciência a questão tecnológica. O fundo da questão teorética da capacidade letal e mutacional do vírus está na tentativa de aprofundar-me nos desdobramentos possíveis da Teoria da Evolução de Darwin, e também levanta um questionamento sobre o uso tecnológico do conhecimento científico no sistema capitalista.

A Questão Demarcatória (Cientificidade e Tecnologia)

Torah_(2) Pensando sobre a questão judaica da proibição do consumo de carne de porco, é irresistível pensar em como nós, céticos, atribuímos à tradição religiosa as mais inverossímeis fantasias explicativas para as coisas. Pensar que a proibição de carne de porco tomada pela tradição judaica pode ser classificada como pseudociência só faz sentido (pela própria demarcação sugerida pelo Osame) se essa tradição, frente à epidemia que se avizinha, traga como proposição uma suposta cientificidade por traz da prática, e por conseguinte, a proposta de que a existência de Deus possa ser deduzida logicamente desse fato. É claro que não estamos fazendo isso, nem tampouco dizendo que alguém o fez, mas conjecturemos que sim para efeito de análise.

O que então, separaria a verossimilhança de uma explicação tida como pseudocientífica de outra explicação qualquer, mesmo as postuladas pelos usos e costumes tradicionais religiosos? O que então, além da questão de pseudociência e ciência, enquadraria um conhecimento como científico ou não? O conhecimento científico, eleito o mais seguro, anularia todos os outros, ou haveria outro tipo de conhecimento, também seguro, fora do científico?

Existe como contraponto a explicação científica que atribui ao mau acondicionamento e condições de abate do animal o risco de contaminação por diversas doenças. Essa é uma questão de higiene e possui por traz uma saber teórico corroborado pelo controle e desenvolvimento de técnicas que, supostamente, anulariam esse efeito nocivo, possibilitando a criação em larga escala e seu consumo sem oferecer mal a nós, humanos. É considerado científico por que promove um saber técnico, portanto prático, que controla, manipula e reproduz aquilo que prediz, podendo ser corroborado empiricamente.

moises Mas olhemos com os olhos de 1.500 a.C. onde supostamente teria vivido Moisés e onde se começou a decodificar os costumes hebreus (que mais tarde com a tradição grega nos fundaria como civilização Ocidental). Lembro que somente mil anos depois é que teríamos evidências do surgimento de um novo campo de saber, o teórico, iniciado por Tales em Mileto.

Até então, as grandes civilizações e nações que povoaram a história tinham circunscritos em seus saberes técnicas e costumes que traduziam um conhecimento prático que era reproduzido porque dava certo. Era esse o critério vigente, e segundo a forma que classificamos, não era científico.

Antropologicamente os anciãos, os líderes, e/ou cúpula político-administrativa do grupo social era quem guardava esses saberes e legislava com base neles, estabelecendo a moral vigente. As práticas que se mostravam propícias e funcionavam, emergindo espontaneamente das próprias relações sociais, eram guardadas e preservadas por essa cúpula, transformando-as em leis e costumes a serem seguidos. E como emergiam espontaneamente do seio das relações sociais entre os membros, eram práticas já introjetadas em sua moralidade.

Por uma questão até de um olhar privilegiado, por fora do cotidiano, portanto teorético (do grego Theoria = contemplação), os legisladores e membros da cúpula podiam perceber e fazer associações sobre casos em que a causalidade parecia verossímil, mas que as pessoas inseridas no processo não veriam. Com isso, o saber, que nessa época já poderia ser teorético, teria que ser imposto por outros argumentos que melhor traduzissem a urgência de medidas rápidas de resolução.

porco1 Fico imaginando um povo vagando à esmo no deserto, desesperançado e faminto, passando toda a sorte de privações e provações, preferindo até voltar a ser cativo no Egito do que viver com a promessa de uma Terra Santa, ouvir de um legislador que não pega no batente que a partir daquele momento o alimento mais acessível, fácil de criar e abundante não deveria mais ser consumido: o porco.

Muito provavelmente esse olhar privilegiado e contemplativo do legislador associou o consumo da carne suína a diversos males, inclusive óbitos de parte das pessoas que estavam sob sua tutela. Era seu dever, por via das dúvidas, tomar as decisões cabíveis para que isso cessasse e não se alastrasse. Associação feita (hipotética), cabia-lhe a aplicação prática para que a empírea a corroborasse ou não.

Infelizmente a bíblia não nos narra se houve algum grupo de controle promovido por Moisés, isolando alguns membros em pelo menos dois grupos para que um continuasse a comer porco e outro se abstivesse da iguaria. A questão é que o saber indutivo é de tentativa e erro, bem ao sabor do que Popper nos lega em seus escritos pós 1.960. A tentativa foi feita; proibiu-se e pronto.

Mas como conseguir que essa proibição fosse levada à cabo? Desobedientes, desorientados, dispersos, rebelados, famintos e desesperançados os hebreus estavam até adorando ídolos, sem coesão, pressionados por todos os outros povos em seu destino errante e malogrado. Era uma questão de sobrevivência a elaboração de um guia de justiça social e moralidade comum a ser obedecido radicalmente por todos. É claro que aqui estamos reduzindo tudo ao recorte que escolhemos, que é o consumo da carne suína, mas parece-me que à época, esse era apenas mais um dos problemas enfrentados.

Não é difícil de imaginar, como legislador e líder, numa situação crítica, marcial e de urgência, que Moisés usasse o que tinha em mãos para fazer valer o bom senso e não degringolar tudo aquilo que ele tinha reunido com esforços hercúleos.

Não vou entrar no mérito aqui se Deus falou com Moisés ou não, se Moisés existiu mesmo ou não, ou se algum outro patriarca fez o que foi atribuído a ele para que as coisas andassem da melhor maneira possível. Poderíamos até conjecturar que a própria idéia do monoteísmo teria respaldo na necessidade de se centralizar o poder decisório no intuito de promover um tempo de resposta adequado às urgências dos fatos. O fato é que no fim das contas deu certo. Não só em relação ao porco, mas em relação a muitos costumes que nos dão um desdobramento prático que funciona na convivência pacífica e saudável entre as pessoas.

É o caso, por exemplo, da Lei do Talião. Para uma época em que roubar uma galinha era vingado com a degola do assaltante, a lei de “olho por olho e dente por dente” fazia o maior sentido do mundo. Mas para quem é o ofendido, é sempre mais atraente uma vingança exagerada que garanta que nunca mais se repetirá o ato novamente, de preferência eliminando de vez o agente do crime. E isso não poderia ser permitido, pois criava animosidades intermináveis.

dar_a_outra_face Regulamentar a vingança, estabelecendo-a como justa na mesma medida em que o delito foi cometido, foi um avanço jurídico que pôs fim às contentas intermináveis entre tribos e famílias da época. Hoje, a cultura cristã supera essa noção dizendo que é pedagógico não se vingar, que devamos perdoar setenta vezes sete se preciso e ainda oferecer a outra face. Mas a vingança está tão eticamente entronada em nosso inconsciente coletivo, que nosso sistema penal só quer recuperar presos no papel.

O que parece estar por traz de tudo isso? Uma orientação divina preocupada com o dia a dia mesquinho de criaturas criadas para adorar seu criador, mas curiosamente criadas também com a capacidade de desobedece-Lo, ou a perspicácia humana de abstrair da experiência empírica os princípios práticos de um viver que melhor se adéqüe a seus objetivos?

Se levarmos em conta a segunda opção, parece-me que sobra apenas a escolha da melhor forma de persuadir os envolvidos a aplicar o saber abstraído das circunstâncias, atribuindo sua obrigatoriedade a uma ordem que teria sanções se não fosse cumprida. Somos livres para não cumprir, mas assumimos a responsabilidade de sermos punidos se não cumprimos ou o gozo de sermos recompensados se cumprirmos. Um esquema realmente eficaz.

Em que esses saberes todos, que regulamentam um melhor viver e atingem a um objetivo específico e desejado se diferem de um saber definido como científico? Para melhor tentar explicar isso preciso recorrer, tal qual fiz em minha resposta ao Osame no post Teoria, Evolução, Fato e Cientificidade - Questões Epistemológicas – Parte II, à questão do “para o quê”.

A teorização, isto é, o tipo de abstração contemplativa que gera um saber é que me sugere se aquilo que sabemos é científico ou não. No caso da conjectura que faço sobre a proibição judaica da carne de porco, a abstração de Moisés foi até ao ponto em que o problema identificado pudesse ser resolvido com vistas ao que ele pretendia, isto é, garantir a sobrevivência dos hebreus. Mas todo o processo circunscrito na observação, associação dos fatos, inferência hipotética e proposição preditiva foi feito de forma científica. E não só isso, foi corroborado quando aplicado, tanto que virou lei.

porco

O único ponto que faltou para que de fato garantisse a cientificidade daquilo que ele estava fazendo, era fazer o caminho inverso e a partir da explicação dada deduzir predições que pudessem ser controladas, reproduzidas e manipuladas para estender-se a outros saberes possíveis. No entanto, na decisão tomada e nos resultados obtidos, houve a corroboração de que a medida era correta e o conhecimento era seguro. E por que então, não é científico? Simples, por que não se estabeleceu a possibilidade de um saber Universal a ser aplicado em práticas particulares diversas. Não se criou Tecnologia, não se aprimorou ou criou uma Técnica.

Ambos são conhecimentos seguros, teoréticos e com desdobramentos práticos e empíricos. A explicação não científica não traz tecnologia a ser aplicada em outros fazeres, a científica traz. Se o saber adquirido de proibir carne de porco fosse ampliado a todos os alimentos, eles virariam vegetarianos, o que também não seria nenhuma blasfêmia. Mas não foi, era específico e particular, logo, não científico.

No comentário do Osame sobre o post mencionado mais acima, ele questiona o imbricamento que faço entre Ciência e Tecnologia e eu respondo no sentido de que a ciência só é ciência por que produz tecnologia. Será que agora minha idéia faria mais sentido a ele?

Independente da questão que demarca de fato a ciência da pseudociência, parece-me ser a capacidade de produzir tecnologia que separa o conhecimento científico de qualquer outro, sem contudo invalida-lo. É essa a tese, enfim, que defendo.

E a Gripe Suína?

Agora entra o segundo ponto que queria enfocar nesse artigo. Esse enfoque não se distancia do assunto sobre o imbricamento entre C&T em que eu e o Osame discutimos recentemente, mas traz a tentativa de entender melhor os desdobramentos do que vem acontecendo.

Bad-Miss-Piggy--41323

Por que a gripe suína, a aviária, e tantas outras saem do controle numa sociedade que domina cientificamente os mistérios da natureza? Penso que o princípio disso esteja intimamente ligado ao que discuto em outro artigo do Filosofando chamado Alerta: Seleção Artificial, onde tento trazer uma reflexão a respeito do uso de enxaguatórios bucais a base de triclosan que estariam proporcionando a produção artificial de superbactérias arrasadoras.

Quando fui tomar minha vacina contra gripe, percebi que conforme os anos passam as gripes que pego são cada vez mais fortes e difíceis de serem debeladas. Claro que isso nos dá uma certa neura pensando na idade e tudo mais, mas sou jovem ainda rs…

virus A questão é que numa população de vírus, assim como em qualquer pool genético, seus indivíduos variam entre si em suas expressões gênicas, mutando o tempo todo e mantendo situações de equilíbrio pontuado na luta pela sobrevivência ao dividirem o mesmo nicho ecológico. Num ciclo de vida ou reprodutivo alto, qualquer interferência que afete esse equilíbrio é preenchido rapidamente pelos indivíduos melhores adaptados às novas condições.

Toda vez que tomo minha vacina anual contra gripe o vírus inativado desperta meus anticorpos a produzir os mecanismos de reconhecimento dos antígenos das variações mutantes do vírus. Logo, se eu for atacado por uma população de vírus da gripe cujo antígeno for reconhecido pelos meus anticorpos eu estou protegido e eles todos são eliminados. E o que acontece? Eu funciono como um ambiente selecionador dos vírus melhores adaptados que sobrevivem e podem se proliferar a vontade. São justamente aqueles vírus dos quais não possuímos anticorpos para combater.

Viramos, tomando a vacina da gripe, pequenos universos selecionadores dos vírus mais fortes e resistentes, fazendo com que eles predominem. Com isso os GROGs trabalham intensamente para municiar a OMS de novas informações para a vacina do ano que vem.

318 Estamos criando monstros só para que tenhamos um frugal conforto de não pegarmos mais gripes. As gripes que pegaríamos sem usarmos a vacina nos deixariam de cama alguns dias, doloridos e aos cuidados de nossos parentes como sempre foi. Talvez isso até aproxime mais as relações familiares ligadas por um cuidar mútuo. Mas não, o mercado exige que não faltemos ao trabalho, que não se gaste mais que o necessário em médicos, que a economia gire sem cessar e possamos estar sempre saudáveis para consumir, consumir, consumir….

E assim é com os produtos mais inocentes que pululam sem receitas nas propagandas lindas que vemos. Sabonetes com bactericidas poderosíssimos veiculando propagandas com crianças saudáveis e protegidas da flora jurássica de bactérias que tiraria o sossego de qualquer pai atencioso. Enxaguatórios bucais que tiram todas as bactérias que causam o incômodo mau hálito mas seleciona para a posteridade bactérias cada vez mais poderosas e de poder destrutivo. Tudo em nome de uma assepsia de um mundo pasteurizado e padrão ao gosto de quem precisa prever e comandar cada passo de nossa humanidade.

corpo-humano00 Por fim, nos vemos humanos, tomados equivocamente como ápices de uma teleologia evolutiva, impedidos de usarmos toda a arma natural que nos tornou o que somos, pra nos submetermos à pasteurização artificial de uma assepsia que está criando monstros cada vez mais poderosos e devastadores de nossas próprias vidas, em nome do lucro incessante de uma indústria que usa o fim científico que é de todos, para seu enriquecimento particular e de um sistema absolutamente auto-destrutivo.

Agora imaginem, caros amigos, constatar isso que é diretamente ligado a nós e imaginar se a produção de vírus cada vez mais poderosos vindo dos animais também não obedece esse princípio?

Se numa questão de saúde pública, onde inferimos que o interesse econômico não seja tão forte assim, estão nos transformando em pequenos nichos selecionadores de vírus mais potentes, imaginem as doses cavalares e contínuas que a indústria de alimento prepara e imuniza suas criações em escala industrial? O poder e a velocidade do potencial destrutivo, mutacional e avassalador desses vírus pode escapar até ao poder preditivo dos modelos estatísticos do Osame e nos surpreender da pior maneira possível.

É importante agora que nos aprofundemos mais nessa questão, trazendo para ela o saber científico, a tecnologia e questões éticas do saber prático.

Ciência & Tecnologia – Capitalismo & Ética

Um saber teórico, científico por gerar técnicas e saberes práticos eficientes, entregue a uma ética duvidosa pode desembocar na destruição em massa da raça humana. Alarmista? Pode ser, mas factual e verossímil.

capitalismo Osame, em seu comentário para meu artigo atribui a construção de um mito sobre a C&T no século XX por conta da Escola de Frankfurt. Eu não discordo. Penso de fato que existe um mito que vê o imbricamento entre C&T pernicioso. Adorno e Horkheimer nos denuncia em sua Dialética do Esclarecimento onde o sonho iluminista do progresso necessário promovido pela razão nos levou com os horrores do holocausto e da Bomba Atômica. Mas eles não criticam nem a ciência nem a tecnologia em si, mas o uso racional da tecnologia viabilizada pelo conhecimento científico que é posta a serviço da ambição humana que promove a exploração e a opressão do próprio ser humano.

Como esperar que qualquer conhecimento que é posto a serviço de princípios antiéticos possa promover o bem estar da humanidade? A questão é ética e política e não científica ou tecnológica, a meu ver.

Vivemos num sistema que, se não tivesse essa lógica, talvez jamais chegássemos aos avanços tecnológicos que alcançamos, mas que por outro lado, por conta dessa mesma lógica, nos usurpa o benefício que nos lega através do domínio sistemático de nossa liberdade, consciência e futuro, de forma a potencialmente e possivelmente nos exterminar da face da terra.

A cientificidade da Teoria da Evolução é demonstrada a cada instante, mas seu poder preditivo ainda não parece ser do domínio do conhecimento humano, que mesmo sem conotação ética duvidosa (no caso das vacinas contra gripe), pode nos trazer consequências desastrosas.

darwin O medo que fica é ampliar de tal forma a discussão, que o senso-comum, acostumado com a tutela da autoridade, dobre-se frente a uma proibição arbitrária de pesquisas que produzam tecnologias com potencial destrutivo. Não poderia haver discussões amplas e democráticas sem o devido conhecimento de causa sobre as vantagens e desvantagens do uso tecnológico do conhecimento científico.

A se deixar na mão tendenciosa de parte da sociedade que pretende varrer do mapa as idéias de Darwin para colocar no lugar o obscurantismo da verdade por autoridade, abriremos mão da petição de princípio frankfurtiano tão caro a todos os pensadores livres e produtores de conhecimento legítimos.

Será que não estaria na hora de uma Revolução Científica contra a tutela do capital na produção de tecnologia? Ou mesmo, na intensificação do trabalho de divulgação científica para leigos para o aumento sistemático do esclarecimento do senso-comum sobre o potencial dúbio da ciência em nos redimir enquanto humanidade ou nos destruir enquanto planeta?

São coisas que podemos pensar juntos e que também me orgulham em ter meu Blog e os sites em que participo indexados na blogosfera científica de língua portuguesa. (Anel de Blogs Científicos e Blogs de Ciência)

sábado, 2 de maio de 2009

Existência na Fenomenologia

Para a fenomenologia a existência é faticidade. Aquilo que se vê, sensível, interagente entre os de mesma categoria, existentes. No entanto, melhor seria separar essa faticidade considerada pela fenomenologia da faticidade considerada pelo existencialismo.

A fenomenologia, assim como o próprio existencialismo, assemelha-se mais a uma abordagem, a um método para um pensar filosófico do que um corpo de princípios conceituais unificados que se possa denominar uma “Filosofia”.

Portanto, dentre os que adotam o método fenomenológico para lançar um olhar sobre a existência, muitos deles escolheram questões teoréticas que ora privilegia a existência em si mesma, ora privilegia o existente e como ele olha para a existência.

husserl_edmund Edmund Husserl (1859-1938), considerado pai da fenomenologia, foi o primeiro a tentar organizar o método fenomenológico, adotando uma teorética diferente dos existencialistas, embora tenha influenciado a todos eles e tenha sido pioneiro e inspirador das idéias de Heidegger (1889-1976), Sartre (1905-1980) e Merleau-Ponty (1908-1961) entre outros. Husserl estava interessado no sentido subjetivo da existência, colocando a própria existência, segundo suas palavras, em “parênteses”. A faticidade existencial que preocupava Husserl era a que dava sentido à existência das coisas e determinava as coisas naquilo que elas são enquanto existentes. Dessa forma procurava a essência, o sentido que configurava a existência, aquilo que era determinante de sua figuração sensível. A existência dos fatos, em si mesma, deveria ser colocada em parênteses para que fosse entendida através dos sentidos que a colocava em evidência.

Há de se diferenciar, porém, que essa busca de sentido, do fundamento existencial das coisas, não se referia a uma busca de propósitos ou princípios pré-existentes que determinassem irresistivelmente a configuração das coisas como elas são. Procurar o sentido de algo existente enquanto tal, era, à partir de sua faticidade, mapear os conteúdos subjetivos e históricos que os categorizariam. Não era, portanto, partir de apriorismos que determinassem sua faticidade.

Heidegger Heidegger, distanciando-se de Husserl nesse sentido, buscava no próprio fato existente o sentido que o configurasse, influenciando Sartre e Merleau-Ponty. Ponty, por sua vez parte de Heidegger para voltar a Husserl, tentando dar continuidade ao seu legado fazendo a ligação entre sentido e existência através da percepção.

Enquanto Husserl permanece na investigação do significado das coisas que existem, e Heidegger e Sartre se interessam pelo fenômeno em si, isto é, as coisas que existem como fato, Ponty tenta unir numa visão mais ampla e abarcante tanto o fenômeno quanto o sentido dado ao fato pela percepção e a intersubjetividade.

sartreO que interessava Husserl e posteriormente Merleau-Ponty é como o sujeito  apreende o fenômeno, os atos de consciência envolvidos nessa apreensão, indo ao interior e ao subjetivo. Husserl pretende fazer uma análise do ponto de vista do espírito e das motivações envolvidas na apreensão dos fenômenos. Ponty vai além e amplia a dimensão desse espírito para as questões da corporeidade, partindo dessa corporeidade como co-determinante da subjetividade.

Os existencialistas partem do próprio fenômeno, como existente, e suas implicações na sua relação com o sujeito. A própria existência humana e como ela se figura no mundo é objeto dos existencialistas, não se detendo com profundidade em como o próprio ser humano percebe e concebe esse fenômeno. O ponto que separa os existencialistas de Husserl é a questão da subjetividade, as motivações dos atos, onde Husserl se preocupa com essas motivações e os existencialistas com o próprio ato.

É a partir de Heidegger, mas sem voltar-se a Husserl como fez Ponty, que Sartre inaugura sua Ontologia Fenomenológica com O Ser e o Nada, procurando esmiuçar e investigar as reflexões de Heidegger em O Ser e o Tempo.

Merleau-Ponty2Em linhas gerais, por gosto pessoais e filosóficos, fico mais com as definições existencialistas fenomenológicas de Merleau-Ponty; que diz ser a Fenomenologia uma tomada de partido contra o racionalismo quando este se une ao próprio empirismo concatenando um pensamento causal, cujo princípio desencadeia um propósito determinado a um fato ou a um fenômeno.

Por esse pensamento, podemos dizer que a existência para a Fenomenologia se constitui no colocar-se para fora de algo que se torna algo nesse próprio colocar-se para fora, recebendo significados e sentidos na relação que tem com outros existentes, significando-os também. Portanto, existência se torna faticidade, seja lá como teoreticamente seja abordado: se partindo do próprio fato ou se partindo da própria percepção.

Outro ponto que merece destaque em minha concepção, é a questão da Essência. Todo um legado de fundo eleata e pitagórico traz catalisado pelo Platonismo uma precedência de uma essência como determinante da existência. Isto é, a faticidade não se determina a partir de sua própria expressão, e sim é determinada previamente por um sentido independente. Aristóteles, embora una essência e existência na própria faticidade, engessa a expressividade do fenômeno a partir da relação potência e ato. A faticidade seria para ele a atualização de potenciais predeterminados por formas que participam de caminhos próprios separados.

A fenomenologia não parte de pressupostos que determinem a existência em sua expressividade. Ela parte da própria existência considerada faticidade nela mesma e investiga sua figuração sensível significada a partir das motivações e espírito do sujeito. A essência, para a fenomenologia, que é o que ela busca como objeto colocando a existência em parênteses é justamente essas motivações espirituais que a determinam “como” algo existe; faticidade.