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sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Dia 16/08 – Dia do Filósofo e meu aniversário

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Hoje (16/08) é dia do Filósofo. Sinceramente eu nem sabia que existia esse dia. Procurei na internet para saber se é algum dia instituído pela ONU ou por alguma instituição renomada, mas não encontrei nada. De onde surgiu? Por que precisamos, filósofos, de um dia? Porém, coincidentemente é o dia em que nasci, assim como foi o de Tiradentes, do Oscarito, de Bukowsky, do Millôr, do Marcelo Nova e da Madonna. É também quando morreu Elvis, Bela Logosi e Robert Johnson.

Entre nascimentos e mortes ilustres (ao menos para mim), eu estou entre o Pop, o Clássico e o Cult, mesmo anonimamente e, agora, quase cataléptico. Fazer aniversário é estar mais perto de deixar de existir. Que constatação estranha! Mais um ano de vida é mais um ano perto da morte. E todos os amigos, carinhosamente, nos dão parabéns e, não raro, presentes. Minha irmã, com 7 anos na época, havia pedido aos meus pais uma bicicleta ou um irmãozinho. E eu vim ao mundo. Ela perdeu a bicicleta rs...

Há quem se irrite e ache falsa modéstia quando reforço que sou postulante a filósofo. Como se tornar um? Como se autodenominar um? Que direito temos, formados ou não, em nos titularmos filósofos? É muito vago dizer que é filósofo aquele que olha racionalmente a realidade. Ou que a explica. Ou que a investiga. Qualquer um de nós, bastando respirar, faz isso. Não há nada que façamos que não seja racionalmente. Até respiramos racionalmente. Há quem diga que, por ser automático e ser em nível subconsciente, a respiração não é racional. Mas quem determinou que fosse racional apenas aquilo que é intencional e raciocinado? A racionalidade está em tudo, ela é contingente, econômica... A “ratio” pela qual as coisas se dão independe de uma vontade, de uma intenção ou de um plano prévio para acontecer. Quando nos abstraímos da circunstância para lermos o Logos dos acontecimentos e interferirmos nele, estamos estabelecendo apenas outro tipo de “ratio”. O próprio ato de observar já estabelece outra “ratio”. Mas tudo isso é “ratio”.

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sexta-feira, 22 de abril de 2011

Realidade, Ciências e Senso-Comum

realidade Pensar que podemos conhecer o mundo além do que esteja limitado pelos nossos sentidos, ou mesmo acreditar que exista algo a ser percebido e conhecido além desses limites se constitui em um dos mais belos e criativos exercícios da intuição humana. Por mais evidências que uma realidade fora de nós possa existir, sempre a conheceremos a partir do que nós somos e do que temos como aparato para sua percepção. Isso inclui não só aparelhos e equipamentos que servem como extensão de nossos sentidos físicos, como também ideologias, cosmovisões e, principalmente, a intencionalidade humana (no sentido fenomenológico do termo). Ou seja, não conhecemos o mundo apenas a partir de nossos sentidos físicos, mas do valor do sentido e do significado que um fato obtém quando se configura inserido em nossa idiossincrasia.

Imagine você, cientista e cego, saber tudo sobre o que é a cor vermelha, mas jamais ter tido a oportunidade de vê-la como as outras pessoas a vêem? Por mais que você conheça com propriedade tudo o que diz respeito à cor (suas propriedades, freqüências de ondas, prisma e etc) jamais terá a chance de experienciá-la. A falta de explicação qualitativa sobre a experiência mental humana é uma lacuna que se configura numa revitalização das justificativas de crendices das mais diversas.

Por esse motivo, a pergunta lógica se impõe: existe uma realidade além do que podemos perceber e abarcar? No caso específico do cientista, mesmo não conseguindo experienciar o que seja a cor vermelha, ela existe extra-mentis e é e pode ser experienciada pelas outras pessoas, menos por ele. Quantas coisas das quais a realidade é composta poderiam estar na classe de coisas que existem de fato, mas estão fora de nosso âmbito de percepção e da medição científica? Podemos argumentar que seja apenas uma questão de tempo trazê-las à luz da ciência, mas falando no “agora” isso é um fato incontestável.

O que precisa ficar absolutamente claro é que a constatação da possibilidade da existência de coisas além daquilo que podemos experienciar, medir, controlar, não significa que podemos inferir existências baseadas simplesmente em tradições, confortos psicológicos ou mesmo necessidades lógicas. Porém, enquanto essa constatação existir haverá uma brecha insofismável para qual crendices das mais diversas irão se imiscuir sem qualquer pudor ou qualquer rigor metodológico plausível.

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domingo, 17 de abril de 2011

O Mal, o Sofrimento e a Dor...

Uma vez me disseram:

O maior problema de quem não acredita em Deus, pelo que tenho visto, é sua falta de justificativa mental para o mal, o sofrimento e a dor

sofrim Ocasião em que fui obrigado a concordar. De fato é um problema. Mas nem de longe isso significa que a resposta seja automaticamente ou necessariamente uma crendice. Não é porque não há respostas para algo, é que aquilo que nos conforta deva ser a verdade sobre esse algo. Eis a grande diferença de postura entre o crédulo e o cético. Ambos, quando às voltas com um problema, respondem de maneira diversa: um se apega ao que lhe é útil ou agradável, outro se apega ao que lhe é coerente. Para o crédulo (e não posso generalizar) o que lhe é útil e lhe traz conforto mental o é por ser coerente. Isso é uma falácia sem tamanho. Por outro lado os critérios de coerência do cético são outros.

O pensamento filosófico-científico (que os céticos em geral adotam) suporta a dúvida, a incerteza e a falta de respostas quando nenhuma delas satisfaz os critérios pelos quais se constitui consensualmente um saber. Ao passo que a religião e a crendice em geral precisa de certezas e respostas a qualquer custo: qualquer falta de resposta torna automaticamente verdade qualquer coisa que satisfaça as necessidades utilitárias do crente.

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sábado, 12 de março de 2011

Sectarização e Radicalização

Palavras de Paulo Freire:

A sectarização é sempre castradora, pelo fanatismo de que se nutre. A radicalização, pelo contrário, é sempre criadora, pela criticidade que a alimenta. Enquanto a sectarização é mítica, por isto alienante, a radicalização é crítica, por isto libertadora. Libertadora porque, implicando no enraizamento que os homens fazem na opção que fizeram, os engaja cada vez mais no esforço de transformação da realidade concreta, objetiva. A sectarização, porque mítica e irracional, transforma a realidade numa falsa realidade, que, assim, não pode ser mudada.” (FREIRE 2005)

paulofreire_cortezeditora A palavra “secto” do latim sectus significa cortado, cerceado, amputado. A sectura é um corte, uma incisão que separa duas partes. Dela vem sectário, aquele que segue uma das partes, que se aparta do todo, que vai atrás, que acompanha.

Por outro lado “radicar” (radicalizar) significa descer à raiz, ao fundamento que faz algo ser o que é. Radicalizar é descer à raiz genealógica de uma emergência que nos afeta, mesmo que essa descida fale muito mais de nós e da forma como vemos o mundo, do que do próprio objeto de estudo.

Fato é, também, que o radical muitas vezes é sectário. Ou seja, sua suposta descida à raiz se faz por apenas um dos lados. O sectário acredita ser radical, ao passo que o radical muitas vezes é sectário sem o saber. O que diferencia um do outro, talvez, seja que o radical esteja disposto a uma dialética entre várias descidas perspectivas daquilo que o afeta, ao passo que o sectário acredita deter a totalidade da realidade e se contenta apenas com uma única descida, que julga ser “a descida”; definitiva. Não há dialética para o sectário.

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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Moralidade e Verdade

Reflito sobre uma leitura que fiz de Habermas:

Por outro lado, a verdade de uma proposição expressa um fato, no caso dos juízos morais não há nada que equivalha à afirmação de que um determinado estado de coisas ‘é’. Um consenso normativo, formando em condições de participação livre e universal no contexto de um discurso prático, estabelece uma norma válida (ou confirma sua validade). A ‘validade’ de uma norma moral significa que ela ‘merece’ o reconhecimento universal em virtude de sua capacidade de, por meio da razão somente, obter o consentimento da vontade daqueles a quem se dirige.” (HABERMAS 2007, p. 65-66) [i]

habermasCom isso ele diz que a única forma de substituir a referência ontológica a um mundo objetivo é, em nós, na qualidade de pessoas morais, afirmarmos os sentidos morais por meio de uma construção conjunta, dialogada. Eu concordo com ele e com o sonho de uma democracia plena que nos dê livre acesso à construção conjunta do discurso racional que escolheremos permear nossas vidas e nossos destinos.

Porém e, infelizmente, isso me soa utópico. Enquanto houver aqueles que delegam a outrem o seu co-pertencimento à sociedade, enquanto houver alguém que aliena as decisões sobre sua vida e deixa-se oprimir para ser representado por grupos, associações, clubes, governos e ideologias, sempre haverá uma referência ontológica para a moral e para o mundo objetivo.

São esses grupos que determinam as coisas como devem ser e as pessoas como devem ser e agir. Eles determinam o espírito, o fundamento e a finalidade do mundo de acordo com seus interesses; inclusive dando respaldo metafísico para isso. Eles contam não só com a alienação das consciências individuais a seu favor de forma voluntária, mas usam de seus instrumentos coercitivos para angariar quem se aliene a favor de suas idéias, excluindo e discriminando quem não concorda ou pensa diferente.

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sábado, 12 de junho de 2010

Jovens Velhos...

CorpoVelho-MenteJovem Existem jovens que são velhos. Velho já sabe tudo. Não acredita que existam mais coisas a serem nomeadas e relacionadas. Tudo já se encontra encaixado naquilo que sempre esteve e ele já descobriu ao longo da vida. Quando é que recuperaremos enquanto humanidade a nossa capacidade de nomear as coisas novamente, de estabelecer novas relações e valores entre elas?

Quando abrimos mão de corresponder à expectativas, sejam do mundo, da sociedade e nossas mesmos, parece-me que recuperamos uma antiga capacidade humana (própria até da juventude) de nomear o mundo muito mais por aquilo que desejamos dele, do que por aquilo que ele espera de nós. E é só assim que transformamos o mundo, ou seja, quando abrimos mão de reproduzir os nomes e as relações já estabelecidas e passamos a nomeá-lo (ele e as coisas dele) a partir de novas perspectivas e desejos que não reprimimos para atender o status quo.

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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O Trágico como Remédio para o Niilismo

anjo_tragico A configuração do pensamento trágico nietzschiano, principalmente a partir das considerações de Deleuze sobre a obra de Nietzsche, nos coloca a visão trágica do mundo como um antídoto não-dialético para o niilismo.

O trágico afirma o SER Universal a partir do Devir, afirma o UM a partir do múltiplo, a necessidade a partir do acaso e da aleatoriedade. Não há constituição cosmológica, não há “cosmização” sem pressuposição volitiva de uma força contra o caos, a desordem e a indistinção. No entanto, diferente de postular esse movimento volitivo contra o caos como dialético, ou seja, interrogando o caos para saber uma Verdade e Fundamento a serem descobertos por negação, a tragicidade constrói o fundo e a verdade sob a perspectiva de uma afirmação estética, dialogada afirmativamente entre o Belo e o Útil.

Quando a cosmização é simplesmente reativa, dialética, ela desemboca no niilismo. O trágico sempre será afirmativo e não reativo. O reativo, dialético, é simplesmente conservação de força frente ao inesperado, que precisa do controle e da submissão daquele que é atingido pelo inusitado. O trágico afirma-se na consciência plena do acaso como constituinte da própria realidade e o cosmiza ativamente e não reativamente. O trágico não só afirma a necessidade a partir do acaso, como afirma o próprio acaso; não só afirma a ordem a partir da desordem, como afirma a própria desordem; não só afirma o cosmos a partir do caos, como afirma o caos. Dessa forma afirma o Dever como constituído a partir do Devir, afirmando sobretudo o próprio Devir.

Essa é a grande inversão de Nietzsche, que tira do pensamento qualquer pressuposição de sentido e valor para construí-los (sentido e valor) a partir do jogo de forças visando expansão de potência. A grande denúncia de Nietzsche em relação ao pensamento ocidental está justamente em considerar todo pensamento que pressupõe sentido e valor já uma Vontade de Potência se afirmando como força e moldando os agentes a reagirem contra aquilo que constitui a realidade: a falta de valor em si e sentido próprio.

nietzsch1ppp A ação reativa embrenhada na pressuposição de sentidos e valores constitutivos de um fundamento do real é niilista, estatizante, cheia de deveres e fixada na conservação da predominância da força que institui uma dada situação e, como tudo, não passa de perspectiva. Ela reage contra o niilismo, mas se conspurca em sua raiz mais profunda, já que nega a realidade e a própria vida para fugir. Ou seja, é uma Vontade de Nada (ilusão) contra o Nada real.

Para Deleuze a história e a evolução expressam justamente o jogo dialético entre as forças reativas e o niilismo, já que é a Vontade de Nada que garante a sobrevivência dessas forças. As forças ativas embrenhadas na constatação do trágico e de dentro do próprio trágico, trabalham em outro nível vetorial; em combinação de forças.

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sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Choque Cultural? – Devir e Dever no BBB

falsidade3 Mesmo não acompanhando com assiduidade o BBB, esse tipo de programa sempre me atraiu por um aspecto antropológico. A idéia, que no início suscitava a observação do comportamento humano em uma situação de exposição, contaminou-se com uma representação forçada dos participantes em cada edição. Apesar desse aspecto negativo o programa resiste. Resiste muito pelo apelo ao que há de voyeur no ser humano e pela catarse que é expurgar seus próprios problemas e viver a fantasia alheia, na vida do “outro”; como um folhetim que promete a realidade. Tudo farsa, mas uma farsa que é igual a própria realidade que vivemos. Afinal, a realidade pode muito bem ser uma grande farsa bem contata com anuência coletiva. Se fosse, jamais perceberíamos, pois como farsa, ela estaria calcada justamente naquilo que não teríamos dúvida de sua concretude.

Há de se pensar até se a representação do que tomamos como concreto não se constitui em farsa também, mas isso é outra história. Farsa ou não, a vida e a verdade são constituídas pelos choques de cada singularidade existente, o que demonstra que não há um Télos, ou um Dever em ser assim ou assado; mesmo quando duas pessoas se encontram ou quando duas culturas se encontram. Embora haja convenções que “encurtam” o caminho da aproximação, essas convenções jamais podem se tornar metafísicas. Elas precisam ser reafirmadas ou reformuladas na própria singularidade do encontro: é na singularidade dos encontros que se alimenta o Grande Discurso, o Logos, nossa maneira de ser, nossa cultura. Ou seja, nos fazemos no Devir e não possuímos qualquer dever em sermos como as convenções nos mandam.

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domingo, 24 de janeiro de 2010

Haiti 2: É possível um mundo para além do capitalismo?

Por Atanásio Mykonios¹

DSC01445 O Haiti parece nos mostrar ainda de forma cabal o fato de que o país deve ser reconstruído com a única referência que nos é possível – o capitalismo. Seria possível outra experiência, justamente em um país arruinado em todos os aspectos? O atual contexto parece negar isto. Imediatamente, todos os esforços se voltam para dois grandes intentos, a saber, o primeiro, humanitário, óbvio, na medida em que todo mundo não irá negar essa ajuda, salvar vidas, oferecer conforto, comida, medicamentos, tratamento médico, cuidar dos feridos e especialmente dos desvalidos sem abrigo. O outro objetivo é mais profundo e neste sentido, especialmente os EUA que mostraram empenho imediato em oferecer ajuda, especialmente, um tratamento de choque, ocupando os pontos estratégicos no que concerne à logística: porto, aeroporto, vias de acesso, etc. A reconstrução do Haiti terá como motivação a inserção do capitalismo em sua face moderna. É necessário que a reconstrução atenda às relações fundamentais do sistema, o país, neste aspecto, está fechado, sequer um Estado com feições comuns ao que encontramos entre nós existe.

haiti2 Por outro lado, a destruição do Haiti, por meio de décadas de ditaduras, exploração, abandono, indiferença e violência, não foram capazes de gerar entre os haitianos outro modo de vida. Isto pode nos revelar, afinal, que os empobrecidos e os explorados não encontram condições para criarem novas formas de relação social econômicas. Não quer dizer com isto que não haja experiências que tentam enfrentar a mercantilização, no entanto, a energia para superar o capitalismo foi extremamente sugada pelo próprio sistema. A reconstrução estrutural e material do Haiti requererá investimentos e anos de trabalho. Os haitianos serão explorados e mantidos sob controle rígido, contudo, serão empregados para serem submetidos a trabalhos pesados e receberão em troca um punhado de dólares, talvez mais do que recebiam até antes do terremoto. Ironicamente, serão mais felizes, terão comida à mesa e poderão levar os filhos à escola primária e com tudo isto, o mundo se orgulhará de reconstruir o Haiti sem os radicais islâmicos, os talibãs, os xiitas, e outros grupos de terroristas, até porque um povo absolutamente vergado receberá qualquer forma de ajuda com muito bons olhos. Assim, as gangues e os traficantes poderão ser controlados pelas forças de mercado ou até mesmo pelas massas de trabalhadores empregadas que exercerão mecanismos de compensação e controle social legitimando a ação das forças policiais que atuarão com o rigor de quem supostamente protege os trabalhadores da reconstrução do Haiti.

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Fazendo ECO aqui…

Umberto Eco - Copyright 2010 by R. D. Flavin Acabei de ler um excerto de um texto de Umberto Eco postado no blog de Alice Valente, chamado Os Poetas e a Interrogação do SER em ECO, do livro Kant e o Ornitorrinco (Edições DIFEL 1999). Eco é um autor raro. Em geral, entre os incautos, ele não é chamado de “Filósofo”, o que faz com que ele se sinta (e nos faça sentir) ser autorizado para criticar a Filosofia naquilo que ela se enclausura no pensamento da tradição; felizmente liberta pela contemporaneidade. Ele é um “ensaísta”, digamos assim. Um escritor. Um artista das palavras e que tanto pode construir tramas (como O Nome da Rosa), como dedicar-se à reflexão sem os rigores de uma filosofia menor, caduca, fechada em seus limites e pretensamente abarcante da totalidade do real. Eco faz eco (desculpem o trocadilho) “ensaiando”; ou seja, fazendo obras abertas, tentativas, aproximações… Algum outro incauto pode ver nisso um sinônimo de “imprecisão”, mas não lhe faltam rigor, método e profundidade.

No trecho destacado por Alice suscita-me um questionamento. Não aprecio a crítica que parte de um conceito já pronto, a não ser que seja para questiona-lo e reformula-lo sob uma perspectiva que o atrele ao perceptível. Quando Eco fala do SER ele fala do SER parmenediano, um SER análogo ao OVO Primordial dos Órficos e ao Número de Pitágoras, e que foi responsável por toda filosofia platônica e pela cultura ocidental ao sincretizarem-se com o judaísmo-cristão. Até hoje há controvérsias em relação às raízes orientais da filosofia, mas não é possível negar que, ao menos em uma vertente da Filosofia, há clara comunhão cosmovisionária com a mítica oriental. Não nego, no entanto, que mesmo havendo essa raiz comum, os gregos, assim como salienta Nietzsche, não tiveram uma cultura autóctone:
“(…) eles sorveram toda a cultura viva de outros povos e, se foram tão longe, é precisamente porque sabiam retomar a lança onde um outro povo a abandonou, para arremessa-la mais longe” (NIETZSCHE, Filosofia Trágica na Época dos Gregos, §1, p. 263)1
Um Universo que transcende a partir de uma Unidade2 constitutiva que se degenera na diversidade é uma concepção recorrente oriental (e mundial) que foi apropriada e racionalizada pelo pensamento filosófico de linha órfica-pitagórica-platônica. Esse SER esférico, imóvel e compacto cumpre as exigências de uma coletividade que precisa postular uma realidade fundamental que explique as ambigüidades experimentadas no cotidiano e direcione, com um Télos, as ações e objetivos coletivos. Esse Universo cria um Dever que direciona as ações para resolve-lo naquilo que é e que não pode deixar de SER.

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sábado, 23 de janeiro de 2010

O Necessário e o Supérfluo

Caneca USB Sonhos de consumo, vontades, desejos… Aparentemente coisas que não nos darão nada além do que satisfação momentânea, mas que se tornam importantes, desejosas, queridas e, pasmem, necessárias até. Dois exemplos estão aqui: uma Caneca USB e um Óculos com Head Fone Bluetooth. Que delícia…. rs… E como são necessários. mesmo que eu nem soubesse que eram necessários antes de vê-los e saber de suas existências. Isso não é estranho? De onde vem essa necessidade? Como ela nasce, se é que nasce? Ou é pré-existente, nos contaminando e fazendo com que queiramos e necessitemos de algo que nem sequer tínhamos consciência de sua existência?

Óculos Bluetooth A falta que esses produtos preenchem em mim já existia ou ela se constituiu a partir do benefício que minha percepção atribui, circunstancialmente, a eles? E esse suposto benefício em que consiste? Seria o caso de classificarmos quais benefícios são necessários e quais são supérfluos? Não estaria na carência de liberdade, percebida em nossa própria condição existencial, o arcabouço genético1 das necessidades do sujeito?

Desenvolvamos melhor isso. Em uma conversa com minha amiga Paula no Orkut, discutíamos os cárceres do sujeito e a liberdade em Sartre. Na ocasião escrevi a ela:

“Desde a invenção do EU, do EGO, do Si Mesmo, [ou da auto-consciência emergindo como condição humana] o homem projeta de si (do Sujeito que quer) um Eu que se relaciona com o mundo. Tanto Sartre como Lacan consideram esse EU (EGO) uma ficção2 que reproduz, via má-fé, os papéis que dão manutenção a essas “prisões” determinísticas de forma ideológica. É a primeira alienação humana. O Sujeito é encarcerado nesse EGO que medeia a relação de nossa condição com a circunstância. Porém essa mediação histórica é condicionada a ser sempre a favor da circunstância e o homem ainda não se viu livre dos valores que o obrigam a determinar-se nela. “

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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Políticas da Imanência…¹

Img2361 “No começo era o movimento.

Não havia repouso porque não havia paragem do movimento. O repouso era apenas uma imagem demasiado vasta daquilo que se movia, uma imagem infinitamente fatigada que afrouxava o movimento. Crescia-se para repousar, misturavam-se os mapas, reunia-se o espaço, unificava-se o tempo num presente que parecia estar em toda a parte, para sempre, ao mesmo tempo. Suspirava-se de alívio, pensava-se ter alcançado a imobilidade. Era possível enfim olhar a si próprio numa imagem apaziguadora de si e do mundo.

Era esquecer o movimento que continuava em silêncio no fundo dos corpos. Microscopicamente. Ora, como se passaria do movimento ao repouso se não houvesse já movimento no repouso?

No começo não havia pois começo.”

(GIL, José. Movimento Total: O Corpo e a Dança. São Paulo: Iluminuras, 2004, Prólogo, p.13)

O espaço e o tempo como estruturas a priori e inerentes à sensibilidade do ser humano, conforme nos legou Kant², constitui na tradição o nosso campo perceptivo. Não foi pensado, porém, que essa estrutura não é o que é a não ser pela representação que fazemos na experiência imediata e dentro de uma lógica causal que, evolutivamente, se tornou uma espécie de modus operandi humano.

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domingo, 14 de setembro de 2008

Aceitar a Realidade

Aquele ser humano que usa a Filosofia para olhar o mundo não "aceita" a realidade. Ele a perscruta, quer entende-la, quer sonda-la para descortinar-lhe seus fundamentos e motivos.

Isso não se constitui uma fuga covarde. Não ir ao encontro cômodo de aceitar as coisas como elas são, exige um ato de coragem que faz com que sua consciência tombe perante aquilo que parece ser, mas pode não ser. Mesmo os que nos legaram um sentido objetivo e positivo da realidade e da natureza em si, não a aceitaram antes que a considerasse em "crise", isto é, antes de quebra-la em partes e critica-la para inferir os motivos dela ser como ela é sob suas próprias perspectivas.

Esse negócio de "aceitar" a realidade, parece ser mais afeito à Filosofia Oriental; contemplativa. Sem nenhum demérito, claro, até por que tem sua contrapartida no Estoicismo, cuja aceitação da fatalidade e manter-se equilibrado diante dos movimentos é o mote principal. Talvez isso seja uma fuga, mas não necessariamente covarde. Não existe covardia alguma na Filosofia. Tanto a inação contemplativa oriental, quando a ação crítica que provoca cisões na realidade são atos corajosos que procuram levantar nossa consciência frente as crises intelectivas que a tombam perante nossas percepções.

Mas não podemos esquecer que o que nos chega da realidade em nós passa pela percepção e depois sofre uma interpretação interna; associativa, relacional e inferencial. É bem provável que tenhamos acesso  apenas a uma parte ínfima e não-substancial do que intuímos ser a realidade, e tomamos essa parte como o todo, partindo para conceituar tudo com base nisso.

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terça-feira, 13 de novembro de 2007

Alerta - Seleção Artificial

darwin Esse artigo também é para os detratores de Darwin de plantão...
A sociedade moderna cria necessidades em nós que nos obrigam a consumir até o que nos faz mal a saúde. Um dos motivos, além da própria lógica capitalista, é a credibilidade que damos ao mecanismo de propaganda e alarmismo que a mídia nos bombardeia diariamente. Tomamos como verdade o que nos chega de informação sem qualquer criticidade, e muito do que nos chega é igual aqueles boatos de chão de fábrica que você olha na cara do peão que está dizendo e não dá o mínimo de crédito. Pelo menos deveria ser.

Hoje, a iminência de novas doenças, próprias da contemporaneidade, nos faz temerosos e ávidos pelos avanços científicos para que nos protejamos. Uma infinidade de sabonetes, cremes de mão, produtos de limpeza de cozinha e até cremes dentais estão repletos de agentes antibacterianos em seus princípios ativos. Consumimos esses produtos na certeza de que eles nos protegerão dos males que essas bactérias provocariam. No entanto acontece o oposto, e isso está previsto na Teoria da Evolução das Espécies de Charles Darwin publicada a 150 anos atrás. (A Origem das Espécies)

O ciclo de vida de uma bactéria é super rápido, permitindo a troca de gerações várias vezes muito antes da própria doença ser detectada. E nessas trocas de gerações, conforme prevê a Teoria da Evolução, muitas mutações de forma aleatória se dão. A ação de produtos antibacterianos a base de triclosan, fora dos padrões estabelecidos em uma análise médica séria, elimina apenas as bactérias menos resistentes e deixa terreno livre para que as bactérias mutantes e resistentes se proliferem. A ação do triclosan não faz com que somente as bactérias resistentes a ele sobreviva, mas a uma gama extensa de outros anti-bióticos (como demonstra pesquisa feita na Universidade de Colorado, comandada por Herbert Schweizer.

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