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domingo, 18 de dezembro de 2011

O Corpo e o Mito do EU

shout16 Entre uma visão essencialista que coloca a “natureza” humana dada e fixa lidando com o mundo, e uma visão existencialista que coloca o “SER” humano como emergente,  histórico e somente fruto das contingências, prefiro uma abordagem fenomenológica. Isso não significa que a intenção seja buscar uma mescla entre as duas. Significa que uma percepção do SER Humano como fenômeno existencial (procurando adotá-la defenestrando todo pressuposto possível) traz aspectos que podemos chamar de inatos e aspectos que podemos chamar adquiridos e emergentes, mas que enquanto fenômeno, não a reduz nem a um nem a outro. Significa também que, mesmo tendo aspectos tanto contingentes quanto inatos, nem uma nem outra explicação considerada exclusiva parece se isentar de “saltos” e pressupostos que precisariam, antes de mais nada, justificarem-se no que postulam. Até porque o inato é também contingente fora da singularidade.

O homem, enquanto fenômeno existencial, não parece ser nem uma tábula rasa, nem uma essência anímica encarnada cumprindo algum desígnio: explicá-lo assim é ignorar não só evidências contra, como também dar um salto especulativo que mais obscurece do que explica.

O importante, a meu ver, é que tentemos não assumir pressupostos que ultrapassem nossa apreensão a partir do que pode ser observado. A lógica tem seus limites e se ela nos levar ao improvável é preciso colocá-la também sob epokhé. Até porque é naquilo que reside essa mesma apreensão é que está o que procuramos. Não há apreensão sem aquilo que nos coloca no mundo e nos faz relacionarmos com ele. É um ponto “equidistante”, mediador, catalisador, e que constitui nossa síntese existencial: o Corpo.

O corpo é o lugar próprio de encontro entre sujeito e objeto, o lugar próprio da existência por excelência, da vida, da arte, do mundo, do outro e de nós mesmos, além, é claro, de todos os nexos, sentidos e expressões que construímos para ter qualquer tipo de interação e/ou previsibilidade nas relações complexas que envolvem todas essas percepções. É o lugar síntese da necessidade: toda existência se dá na necessidade de continuar existindo de algum modo.

É no corpo que se dá a catarse de apreensão do homem como homem, que surge o EU sintonizado ao todo que ele próprio compõe e intui com e como aquilo que percebe. Através do corpo o homem apreende o mundo e a realidade e os traduzem através dos discursos possíveis determinados por sua própria corporeidade. A linguagem, a lógica, a ludicidade, a expressão artística, a racionalidade (epifanias que se dão a partir do corpo) se constituem libertação e cativeiro. Libertação, pois que lhe abre ao mundo e a si próprio constituindo condição de possibilidade de sua potência, e cativeiro, pois que é no controle desse corpo que se exerce o controle sobre o homem, seja este controle dele próprio ou de (e para) outrem.

A religião, assim como as filosofias dualistas, tomam o corpo como algo inferior a ser ultrapassado: como prisão de uma centelha divina (ou consciência) que “mereceria” a plena liberdade de se reencontrar (se religar) com o inefável; sua suposta origem. E é por isso que a religião precisa controlar, subjugar, determinar como se deve agir o corpo, o pensamento, desejos, ações e vontades de quem está sob sua guarda e auspícios: o pio. Destino semelhante requerem as filosofias que pregam ascese para instâncias ideais e formas puras.

O ser humano tem em sua natureza (essa que emerge da sua relação com o mundo e não uma suposta natureza essencialista que anteceda ao fenômeno humano) a ânsia premente de entender o que lhe circunda para sobreviver. É uma demanda evolutiva, portanto inata embora contingente. É a necessidade que coloca o homem perante si mesmo e o mundo, procurando estratégias de compreensão, domínio e controle desse mundo na perspectiva de continuidade de sua existência. Com isso emerge um SI MESMO e o OUTRO: Sujeito e Objeto.

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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A não tolerância: o grande desafio humano

Texto originalmente publicado no Repositório Filosófico.

tolerancia1 Ouvi/li em algum lugar que solicitar tolerância é tão preconceituoso quanto a discriminação. Faz muito sentido isso, pois quem precisa tolerar já se coloca em situação superior ao outro, inferioriza-o, como se dissesse: “olha, você é menos que eu, mas não se preocupe, magnânimo que sou, eu te tolero, ok?”

Esse é um exemplo curioso de como uma palavra que pretende mudar paradigmas e inverter o vetor do preconceito, acaba reforçando-o sem que seu uso fosse nesse sentido.

A grande ambigüidade aqui se situa numa questão de Lógica Hermenêutica. As palavras isoladas em seus conceitos mais comuns, ou em definições estritas, não refletem os sentidos que podem acrescentar ou até modificar seus significados. A rigidez de definições “esquece” e impede a dinâmica da língua, dos afetos, da ampliação horizontal e perspectiva (e não apenas vertical e progressiva) do conhecimento e das visões de mundo. Dialogar efetivamente, como nos ensina Habermas, é uma questão de Agir Comunicativo. Há de se compartilhar certa idiossincrasia ou aprendermos, via empatia, nos colocarmos na perspectiva alheia para dialogarmos.

Porém, a tentativa de uma ampliação horizontal ofende quem se acha detentor de uma única verdade e do discurso hegemônico baseados em conceitos que crêem serem metafísicos, embora não sejam. E é nessa ofensa que os dogmáticos (embora muitos não assumidos) se policiam para “tolerar” o semelhante. Porém ao exercer essa hipócrita tolerância, continuam excluindo e discriminando. Todo aquele que não comunga da visão de mundo e dos rígidos conceitos pelos quais os dogmáticos erigem seus castelos axiomáticos e determinantes do mundo, não pode compartilhar o mundo com eles.

Se o mundo pode ser melhor do que é, ou do que foi, só poderá ser quando abrigarmos a diversidade para além da mera tolerância. O grande desafio humano talvez seja aprendermos a nos destituirmos de nossas certezas (e não de nossas verdades) e nos abrirmos para a diversidade das verdades possíveis, procurando o consenso prático que abrigue a complexidade intrincada da qual o próprio mundo parece ser composto.

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sábado, 6 de agosto de 2011

Nietzsche ensinando a Democracia (É possível?)

Nietzsche-e-o-espelho-do-seculo-XXI Em minha maneira particular de ler e entender Nietzsche, não o vejo pregando a volta de uma Aristocracia nos moldes antigos, mas sim a assunção dos valores de nobreza onde a igualdade se estabelecia pelo respeito mútuo de quem comunga os mesmos critérios éticos e estéticos.

Minha tese é: se todo homem fizer o que ele diz, ou seja, transvalorar os valores e criar-se a si próprio a partir de uma afirmação estética da vida - considerando-se igual aos tantos outros que fizeram isso - criar-se-á uma democracia verdadeira: deixa de ser valor a usurpação do forte em relação ao fraco e abre-se como campo moral o enfrentamento perspectivo de cada visão para um consenso de objetivo coletivo e de benefício mútuo. Mas é claro, preciso argumentar em favor disso.

Nietzsche foi bem específico naquilo que ele não concordava com a democracia. Ao contrário do que se pensa, isso não significa que ele "pregasse" a aristocracia. Mas ele via a Aristocracia mais desejável que a Democracia no contexto o qual a democracia havia se estabelecido. Como existir uma “verdadeira democracia” se a Moral de Rebanho estabelece um niilismo que retira o ser humano da vida presente e o irresponsabiliza nela para viver um futuro de suposto regozijo além da vida?

Uma democracia forjada nesses termos se transforma numa aristocracia dos manipuladores, e em comparação a ela, melhor seria uma Aristocracia real, formada por nobres que, mesmo violentos e egoístas, ao menos não dissimulariam suas intenções roubando às escondidas e decretando a morte de milhares de seres humanos que esperam soluções do poder.

A crítica de Nietzsche à democracia não era sobre o conceito de abertura de possibilidades, mas sim sobre o nivelamento por baixo de uma massa a ser manipulada por poucos. Ao colocarmos o medíocre como padrão, o arrebanhado ou o niilista, ofuscamos seres com potência para superar esse tipo de humanidade. Não só ofuscamos como também castramos, adestramos e os normalizamos conforme uma moral universal metafísica e perniciosa.

O pensamento de Nietzsche é a favor dos bem dotados governarem, mas não é exatamente contra a democracia, e sim contra as ideologias que a defendiam a favor de um nivelamento da cultura pela moral de ressentimento.

Esse tipo de pensamento, polêmico por certo, entendido tendenciosamente, leva até a crença de que ele tenha legitimado filosoficamente o totalitarismo. Nietzsche se coloca contra o nacionalismo e o totalitarismo, assim como é contra o “populacho” tomando o poder para nivelar por baixo a cultura e a possibilidade do homem superar a si mesmo. A maioria, contaminada pela moral de ressentimento incentivada por manipuladores com sede de poder, sempre quer o mais cômodo, o mais frívolo.

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terça-feira, 2 de agosto de 2011

O Esclarecimento que não nos cabe…

Antes de mais nada gostaria de pedir desculpas pela demora em postar novos textos. Minha vida tem estado atribulada ao extremo e precisei priorizar outras coisas nesse momento. Porém, em momento algum, esqueci do compromisso existencial que assumi em refletir sobre a realidade, meu arredor e minha condição de sujeito jogado no mundo dentro das relações que estabeleço.

Desta vez, incidentalmente ao artigo “O Esclarecimento que nos Cabe…” resolvi escrever mais algumas linhas. Desta feita evocando um texto antigo meu; origem do comentário do qual o artigo mencionado foi motivado.

Immanuel Kant, filósofo iluminista alemão escreveu em 1.784:

"Esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo. O homem é o próprio culpado desta menoridade se a causa dela não se encontra na falta de entendimento, mas na falta de decisão e coragem de servir-se de si mesmo sem a direção de outrem. Sapere aude! Tem coragem de fazer uso de teu próprio entendimento, tal é o lema do esclarecimento. "

kant Podemos entender que "ser menos" está em nos deixarmos determinar pelo entendimento alheio ao invés de construirmos nosso próprio entendimento. Só assim seremos "mais"; seremos esclarecidos. A palavra esclarecer nos remete à noção de estarmos sob a luz, de estarmos claros, límpidos, cristalinos. Esclarecido é aquele que enxerga cada vez mais porque removeu as coisas que proporcionam sombras, que embotam a visão. Nossos condicionamentos, as circunstâncias repletas de meia-verdades e coisas aparentes que escondem intenções escusas de outrem funcionam como sombras: esses entraves a uma visão que pode ser mais longínqua, alcançável de horizontes mais amplos.

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sexta-feira, 22 de abril de 2011

Realidade, Ciências e Senso-Comum

realidade Pensar que podemos conhecer o mundo além do que esteja limitado pelos nossos sentidos, ou mesmo acreditar que exista algo a ser percebido e conhecido além desses limites se constitui em um dos mais belos e criativos exercícios da intuição humana. Por mais evidências que uma realidade fora de nós possa existir, sempre a conheceremos a partir do que nós somos e do que temos como aparato para sua percepção. Isso inclui não só aparelhos e equipamentos que servem como extensão de nossos sentidos físicos, como também ideologias, cosmovisões e, principalmente, a intencionalidade humana (no sentido fenomenológico do termo). Ou seja, não conhecemos o mundo apenas a partir de nossos sentidos físicos, mas do valor do sentido e do significado que um fato obtém quando se configura inserido em nossa idiossincrasia.

Imagine você, cientista e cego, saber tudo sobre o que é a cor vermelha, mas jamais ter tido a oportunidade de vê-la como as outras pessoas a vêem? Por mais que você conheça com propriedade tudo o que diz respeito à cor (suas propriedades, freqüências de ondas, prisma e etc) jamais terá a chance de experienciá-la. A falta de explicação qualitativa sobre a experiência mental humana é uma lacuna que se configura numa revitalização das justificativas de crendices das mais diversas.

Por esse motivo, a pergunta lógica se impõe: existe uma realidade além do que podemos perceber e abarcar? No caso específico do cientista, mesmo não conseguindo experienciar o que seja a cor vermelha, ela existe extra-mentis e é e pode ser experienciada pelas outras pessoas, menos por ele. Quantas coisas das quais a realidade é composta poderiam estar na classe de coisas que existem de fato, mas estão fora de nosso âmbito de percepção e da medição científica? Podemos argumentar que seja apenas uma questão de tempo trazê-las à luz da ciência, mas falando no “agora” isso é um fato incontestável.

O que precisa ficar absolutamente claro é que a constatação da possibilidade da existência de coisas além daquilo que podemos experienciar, medir, controlar, não significa que podemos inferir existências baseadas simplesmente em tradições, confortos psicológicos ou mesmo necessidades lógicas. Porém, enquanto essa constatação existir haverá uma brecha insofismável para qual crendices das mais diversas irão se imiscuir sem qualquer pudor ou qualquer rigor metodológico plausível.

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domingo, 17 de abril de 2011

O Mal, o Sofrimento e a Dor...

Uma vez me disseram:

O maior problema de quem não acredita em Deus, pelo que tenho visto, é sua falta de justificativa mental para o mal, o sofrimento e a dor

sofrim Ocasião em que fui obrigado a concordar. De fato é um problema. Mas nem de longe isso significa que a resposta seja automaticamente ou necessariamente uma crendice. Não é porque não há respostas para algo, é que aquilo que nos conforta deva ser a verdade sobre esse algo. Eis a grande diferença de postura entre o crédulo e o cético. Ambos, quando às voltas com um problema, respondem de maneira diversa: um se apega ao que lhe é útil ou agradável, outro se apega ao que lhe é coerente. Para o crédulo (e não posso generalizar) o que lhe é útil e lhe traz conforto mental o é por ser coerente. Isso é uma falácia sem tamanho. Por outro lado os critérios de coerência do cético são outros.

O pensamento filosófico-científico (que os céticos em geral adotam) suporta a dúvida, a incerteza e a falta de respostas quando nenhuma delas satisfaz os critérios pelos quais se constitui consensualmente um saber. Ao passo que a religião e a crendice em geral precisa de certezas e respostas a qualquer custo: qualquer falta de resposta torna automaticamente verdade qualquer coisa que satisfaça as necessidades utilitárias do crente.

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domingo, 20 de fevereiro de 2011

Consciência e Sociedade

mente-humana Penso que as funções e papéis sociais humanos possuem respaldo em uma instância que se estabeleceu como se fosse metafísica, porém baseada nos jogos de poder que estabelecem valores para pautar a vida humana. Essa coerção, pela exclusão que provoca, pode ser muito mais forte que uma determinação física, química ou genética como, por exemplo, das formigas. Quem de nós não conhece pessoas que foram operárias no grande ABC em São Paulo durante 30, 40 anos? A própria consciência de classe promovida no advento do socialismo acaba por determinar as pessoas em gavetinhas sociais intransponíveis.

É claro que podemos entrar em outros meandros aqui, pois dentro de uma determinação teleonômica social, existe uma verticalização das possibilidades: aquele que não quer ser operário terá de ser patrão. Mas a natureza, fora da tipologia e da especiação, possui uma diversidade horizontalizada que não vemos nos seres humanos por mera determinação social. Queremos ser espelhos da natureza, mas nos verticalizamos como formigas, exceto pelo fato de podermos ser rainhas, mas nunca uma vespa...

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sábado, 27 de novembro de 2010

Evolução, Gripe Suína e Ética

Há algum tempo em meu Blog [1] e em sites que participo, venho trazendo alguns alertas relacionados com questões éticas na área de ciência, pontuando que a ciência, considerada como um método de aquisição de conhecimento seguro, embora tenha um imbricamento com a questão do fazer prático e da tecnologia, não poderia ser responsabilizada pelo mau uso daquilo que traz.

Isso tem provocado reações tanto de cientificistas quanto dos detratores das ciências. Uns pregam um purismo no fazer ciência que fica difícil vê-lo numa sociedade cuja ética de seu sistema econômico se apropria de tudo para o transformar em mercadoria e lucro. Outros pregam um total imbricamento entre o sistema e o fazer ciência, dizendo que a ciência como conhecemos hoje só é o que é por causa dos interesses do sistema por trás dela e de todo fenômeno social humano atual.

ciencia A ciência é um fenômeno histórico e tem em sua ocorrência um sujeito histórico que a faz; disso não podemos duvidar. Que exista um imbricamento entre a forma como ela é feita e o sistema econômico que historicamente a insere como fenômeno humano, também não temos como questionar. No entanto, tanto a ciência enquanto fenômeno humano histórico, quanto os homens que a faz ao longo dos tempos, pouco ou nada tiveram a ver com uma motivação direcionada ao atendimento das necessidades de mercado dos agentes econômicos individuais que compõem o sistema como um todo e é sua mola propulsora.

O fazer ciências está imbricado com motivações individuais e sociais cujos desdobramentos sempre estiveram em voltas da solução de nossos problemas de sobrevivência num mundo inóspito, mas que pode ser conhecido. O direcionamento dessas motivações (justificáveis por si mesmas) para questões de classe e exploração econômica ou para o enriquecimento de alguns se constitui numa questão ética não só pelo uso exploratório de algo que é de todos (e que pode nos ajudar a viver melhor), como também por uma questão de um uso irresponsável que pode nos levar todos à extinção ou a situações catastróficas.

Tapar o sol com a peneira dizendo que os cientistas não tem nada a ver com isso e querer que a ciência, enquanto fenômeno histórico, não possua imbricamento com o sistema que a financia e a faz avançar, é apenas olhar para outro lado e não se responsabilizar pela própria história da qual fazemos parte. Por outro lado, demonizar a ciência como responsável direta por esse tipo de coisa é leviano e superficial. É preciso desenvolver uma visão crítica mais ampla acima de partidarismos, procurando uma coerência dialética.

 

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domingo, 14 de novembro de 2010

A Morte de Deus, o Deus que Dança e o Devir…

"É verdade: amamos a vida não porque estejamos habituados à vida, mas ao amor. Há sempre o seu quê de loucura no amor; mas também há sempre o seu quê de razão na loucura.

E eu, que estou bem com a vida, creio que para saber de felicidade não há como as borboletas e as bolhas de sabão, e o que se lhes assemelhe entre os homens. Ver revolutear essas almas aladas e loucas, encantadoras e buliçosas, é o que arranca a Zaratustra lágrimas e canções.

Eu só poderia crer num Deus que soubesse dançar.”

(NIETZSCHE, Friedrich W. Assim Falou Zaratustra. Os Discursos de Zaratustra. Ler e Escrever. p. 36. Tradução José Mendes de Souza. Fonte Digital eBooksBrasil.com)

arvore E eu também. Penso que só um Deus que soubesse dançar não estaria morto como anuncia o louco na Gaia Ciência de Nietzsche. Por conceber um Deus fixo, imutável, carrancudo, ideal, ou melhor, por sermos tão soberbos em determinar como Deus deva ser, é que o tornamos tudo aquilo que precisamos que Ele seja para compensar nosso complexo de inferioridade.

Depositamos tudo o que não conseguimos ser em Deus; resignados, na esperança de que, pelo menos, sejamos amparados por Ele na reunião de tudo o que tomamos como perfeito. Mas perfeição, para nós, é ter o controle de tudo, ter tudo sob nosso domínio, sermos capazes de prever os menores acontecimentos e driblarmos todas as dificuldades. Ora, se não conseguimos, se algo assim está totalmente fora do alcance visível de nossa vida, precisamos eleger um Ser que tenha esse domínio total e que possa nos proteger em nossa pequenez. Se a partir de Sócrates esse “Ser” poderia ser atingido pela razão, na Idade Média foi substituído pela idéia do Deus judaico-cristão, e na modernidade pela ciência e pelo pleno domínio racional da natureza pretendido pelos iluministas e positivistas.

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sábado, 23 de outubro de 2010

Diálogos sobre Justificação

figura_01 Do Blog de um colega do Orkut (leia em Investigação Filosófica) foi afirmado que qualquer justificação de P teria que trazer como conceito a impossibilidade de não-P. Esse, sem dúvida, seria o melhor dos mundos e nas ciências naturais é muito provável que encontremos inúmeros exemplos desse tipo de justificação. Inclusive penso que o falseamento popperiano traz em seu bojo esse conceito desde que Popper se virou contra o positivismo. Porém Popper foi mais prudente, pois não precisamos “provar” nem demonstrar a impossibilidade de não-P. Basta que deixemos em aberto que se não-P existe, então P é falso. Pronto, estabelecemos com isso uma verdade provisória da afirmação de P. Penso que seja um critério mais lógico e possível que o do Rodrigo Cid.

O cerne da discussão parece-me ser a questão do que torna uma afirmação uma verdade indubitável. Não uma possibilidade de verdade, mas sim uma verdade total, diria até absoluta. Mas o que dá para concordar com o que foi dito?

Infelizmente a realidade não é tão “preto no branco” assim. Tudo seria mais fácil se fosse e por “precisar” ser mais fácil para uma maior previsibilidade, o ser humano foi pródigo em determinar que o mundo fosse sim “preto no branco” (e isso aconteceu até na esfera racial). Parece que assisto apenas uma inversão do positivismo, onde sua negação traz os mesmos vícios que o tornou o que é. É um paradoxo absolutista.

Em suma, se P só pode ser justificado pela impossibilidade de não-P, em tese poderíamos dispensar as razões de P existir? Percebem as conseqüências disso? Ou seja, posso justificar qualquer sandice desde que demonstre e justifique que a não-sandice seja impossível. Soa-me estranho, confesso. Pode até ser que eu não esteja alcançando o nível de raciocínio dos membros do Blog, mas soa-me realmente estranho.

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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Moralidade e Verdade

Reflito sobre uma leitura que fiz de Habermas:

Por outro lado, a verdade de uma proposição expressa um fato, no caso dos juízos morais não há nada que equivalha à afirmação de que um determinado estado de coisas ‘é’. Um consenso normativo, formando em condições de participação livre e universal no contexto de um discurso prático, estabelece uma norma válida (ou confirma sua validade). A ‘validade’ de uma norma moral significa que ela ‘merece’ o reconhecimento universal em virtude de sua capacidade de, por meio da razão somente, obter o consentimento da vontade daqueles a quem se dirige.” (HABERMAS 2007, p. 65-66) [i]

habermasCom isso ele diz que a única forma de substituir a referência ontológica a um mundo objetivo é, em nós, na qualidade de pessoas morais, afirmarmos os sentidos morais por meio de uma construção conjunta, dialogada. Eu concordo com ele e com o sonho de uma democracia plena que nos dê livre acesso à construção conjunta do discurso racional que escolheremos permear nossas vidas e nossos destinos.

Porém e, infelizmente, isso me soa utópico. Enquanto houver aqueles que delegam a outrem o seu co-pertencimento à sociedade, enquanto houver alguém que aliena as decisões sobre sua vida e deixa-se oprimir para ser representado por grupos, associações, clubes, governos e ideologias, sempre haverá uma referência ontológica para a moral e para o mundo objetivo.

São esses grupos que determinam as coisas como devem ser e as pessoas como devem ser e agir. Eles determinam o espírito, o fundamento e a finalidade do mundo de acordo com seus interesses; inclusive dando respaldo metafísico para isso. Eles contam não só com a alienação das consciências individuais a seu favor de forma voluntária, mas usam de seus instrumentos coercitivos para angariar quem se aliene a favor de suas idéias, excluindo e discriminando quem não concorda ou pensa diferente.

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sábado, 12 de junho de 2010

Jovens Velhos...

CorpoVelho-MenteJovem Existem jovens que são velhos. Velho já sabe tudo. Não acredita que existam mais coisas a serem nomeadas e relacionadas. Tudo já se encontra encaixado naquilo que sempre esteve e ele já descobriu ao longo da vida. Quando é que recuperaremos enquanto humanidade a nossa capacidade de nomear as coisas novamente, de estabelecer novas relações e valores entre elas?

Quando abrimos mão de corresponder à expectativas, sejam do mundo, da sociedade e nossas mesmos, parece-me que recuperamos uma antiga capacidade humana (própria até da juventude) de nomear o mundo muito mais por aquilo que desejamos dele, do que por aquilo que ele espera de nós. E é só assim que transformamos o mundo, ou seja, quando abrimos mão de reproduzir os nomes e as relações já estabelecidas e passamos a nomeá-lo (ele e as coisas dele) a partir de novas perspectivas e desejos que não reprimimos para atender o status quo.

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segunda-feira, 5 de abril de 2010

Sobre o Ser e o Devir da Linguagem

Mas que Ser é esse, fugidio, que nos confunde pela escrita, pela a fala, pelo mundo, signos, coisas? Qual o Ser por traz do simples “parole”? O que significa dizer algo? Algo realmente é dito (ou seja, a linguagem é uma coisa e tem Ser próprio) ou só podemos dizer algo sobre outro algo (mera representação)? Como os falantes se entendem e se comunicam dentro de determinados contextos e de sua singularidade como seres? As questões lingüísticas, semiológicas ou semióticas confundem-se com questões talvez mais profundas que envolvem não só a origem da linguagem, mas como ela se dá fenomenicamente e, mais do que isso, que função exatamente ela cumpre na relação homem-mundo e homem-homem.

linguagem-corporal

Muitos se ocuparam dessas questões, mas não primordialmente se levarmos em conta a História da Filosofia. Husserl foi um deles e talvez pioneiro na forma como abordou o modo de existência da linguagem. Enquanto Descartes, Hume e Kant situados na Filosofia Clássica se ocupavam do problema do conhecimento pela relação entre o pensamento e as coisas, há pelo menos um século se assiste a virada lingüística colocando em pauta o problema do sentido e da significação como anteriores ao do próprio conhecimento; senão até como pressuposto de todo conhecimento possível.

Os protagonistas dessa “virada lingüística” na filosofia, dentre eles e com destaque Wittgenstein (seguindo a seu modo as problemáticas iniciadas por Frege e Russel), trouxeram a questão de que só através da linguagem e da lógica é que poderíamos fundamentar as ciências, justificando seu necessário caráter universal e objetivo. Com isso afastaram-se da idéia dominante até então de que toda ciência partiria de um Sujeito do Conhecimento. Certo é que essa contenda não acabou.

 

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domingo, 14 de março de 2010

O Mistério Feminino…

O enunciado proposto por Simone de Beauvoir -- "Ninguém nasce mulher: torna-se mulher" -- provocou um deslocamento da naturalização da condição feminina construída nos séculos XVIII e XIX e abriu um leque de possibilidades para pensar "o que o sujeito pode se tornar, sendo (também)mulher". O efeito social provocado pelas mulheres na luta por seus direitos introduziu a necessidade de pensar sua história. A partir daí, incorporou-se no horizonte do trabalho reflexivo o efeito histórico da relativização da 'essencialização' do feminino. Na medida em que foi sendo tecida uma história coletiva, puderam-se reconstruir histórias individuais e reinventar projetos para o futuro.

A mulher e o Ser Feminino colocam-se diante do masculino como um mistério. Tentativas exaustivas existiram para saber tanto o que representa a mulher para o mundo masculino, quanto o que a mulher deseja. O homem, tomando a si próprio como referência, jamais chegará nem perto de descobrir. Tirando a voz da mulher e sua possibilidade de construção responsável de si, muito menos.

Como uma mulher poderia dizer o que deseja se grande parte do que ela deseja foi engendrada nela a partir de um universo que apenas lhe tange e não a abriga como sujeito? Confundimos as referências das mulheres, impondo-nos a nossa referência, e exigimos que elas se expliquem.

Claro é que o homem não pode se definir afastado e isolado da mulher, assim como pouco provável seria a mulher conseguir isso de forma isolada. Se ambos dividem o mesmo espaço em uma relação recíproca, a simbólica não pode ser unilateral, com pena de um dos lados perder sua própria identidade e ser chamado de confuso e/ misterioso. Triste isso, mesmo que adquira um ar romântico.

Uma grande dívida da Filosofia foi tomar o referencial de quem a fazia para construir o estatuto ontológico do ser humano. Essa dívida, espero, pode ser paga a partir da inserção cada vez mais crescente das mulheres nesse campo. Mas é preciso que elas possam, sobretudo, problematizar essa questão e terem sob suas perspectivas a arbitrariedade que é considerar a questão da sexualidade como mero acidente na construção ontológica.

Mas como fariam isso se é ainda a sociedade falocêntrica que determina os interesses de pesquisa para a manutenção do status quo? Esse fato exclui em becos sectários um importante arcabouço de saberes que as mulheres fora desses becos e muito mais os homens, perdem em considerar essas questões nas reflexões mais abrangentes que fazem.

Curioso é que para problematizar isso é preciso, no olhar masculino filosófico, definir o que seria a identidade feminina e a identidade masculina. Mas toda definição da identidade feminina que passe por uma construção masculina, deixará lacunas insondáveis. Ao recorrermos às próprias mulheres para essa tarefa, entra em cena uma possível característica de seu tipo de pensar: a definição aberta, contingencial, não delimitadora, mas apenas orientativa. O que se inicia a partir daí é uma questão epistemológica, em que o acesso por vias masculinas é substancialmente diferente das vias femininas.

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sexta-feira, 5 de março de 2010

Acaso, Aleatoriedade e Propósito (Parte 2)

Bolas aleatórias Quero crer que os conceitos expressos no artigo anterior tenham ficado claros para continuarmos. Noções como heurística, teleologia e teleonomia são de suma importância para que entendamos não só o processo científico, mas os motivos pelos quais os argumentos criacionistas e de sua vertente pseudocientífica (o Design Inteligente) não se sustentam dentro daquilo que alegam pretender: serem uma alternativa às teorias vigentes e ter o estatuto de conhecimento científico.

Nesse artigo tentarei discorrer sobre a possibilidade da emergência de estruturas complexas cujo Télos se defina dentro do próprio processo e dispensa a necessidade de uma intencionalidade e direcionamento prévios: pilares dos conceitos criacionistas de Complexidade Irredutível e Complexidade Especificada. Esses conceitos, cunhados por seus autores Michael Behe e William A. Dembski respectivamente, trazem como conseqüência (nos argumentos de seus autores) a exclusividade da conclusão lógica de um projetista inteligente para todas as formas de vida.

Minha idéia, assim como de muitos que vêem uma separação heurística fundamental entre fazer ciência e outra atividade qualquer, não vai em direção (insustentável a meu ver) contra a existência nem de Deus e nem da possibilidade de algum tipo de direcionamento ou impulso prévio que manteria ou desenvolvesse a vida dentro de certas restrições. Minha idéia é demonstrar que, mesmo concedendo a possibilidade dos “tedeístas” e criacionistas estarem certos, a forma como eles postulam suas hipóteses não tem sustentabilidade nem científica e nem dentro de seus próprios raciocínios, pois:

1 – Sua heurística se baseia em raciocínios que hiperbolizam suas observações condicionadas por pressupostos não demonstrados e tomados como absolutos e

2 – Seus pressupostos requerem um nível de cognoscibilidade atual impossível, sendo que se eximem de demonstrar sua possibilidade.

Dessa forma, como indicado ainda no artigo anterior, faltará abordar também a própria idéia de Deus como conceito lógico que dispensa qualquer necessidade de atribuição necessária de um propósito próprio, sendo que postulá-lo, significa tão somente atribuir nossos propósitos, carências e desejos em uma idéia que fazemos d’Ele. Seria, sobretudo, inferir que teríamos acesso à Sua natureza, Seus desejos, impulsos e modos de Ser. Isso, sem dúvida, constitui-se em uma arrogância sem tamanho e nada nos garante que tenhamos acesso a esse tipo de conhecimento para postulá-lo. Ou seja, a petição de princípio que fazem para chegar às conclusões que chegam, necessita de algo fora do magistério científico: a fé. Essa parte ficará para a seqüência dessa série de artigos.

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sábado, 13 de fevereiro de 2010

Acaso, Aleatoriedade e Propósito (Parte 1)

Um dos grandes problemas epistemológicos que a teologia enfrenta ao analisarmos filosoficamente a relação humana com o divino é: até que ponto é atribuído a Deus as características que o homem precisa atribuir a si mesmo ou que as tomam a partir da necessidade de aspirar-se a uma determinada forma de ser? Outra questão importante também é: até que ponto o homem tem acesso a uma suposta natureza divina para postulá-la em suas características e poder construir discursos sobre ela? E por último, como deve ser classificado esse discurso diante da dúvida iminente sobre se o homem teria as propriedades e competências epistêmicas para construir um discurso sobre o divino e sua natureza? As três indagações se interpenetram e fazem um télos próprio que torna insustentável certos argumento que tentam se fazer de científicos, mas caem no puro proselitismo religioso.

mao_de_deusDessa forma, o grande problema no “raciocínio” dos postulantes ao Design Inteligente (doutrina criacionista dissimulada em pseudociência) é confundir uma teleonomia verificada em um sistema organizado e complexo, consumidor de energia, com um projeto prévio e intencional de origem divina. Antes disso, porém, esse projeto postula-se ligado por um princípio conseqüente de uma idéia sobre como Deus ou essa Inteligência deva agir e ser: conhecimento tal que é preciso revestir-se de uma arrogância sem limites para postular.

Ou seja, problematizo aqui não só a conexão necessária entre teleonomia1a e projeto intencional, como também a petição de princípio de um conhecimento não justificado da natureza e forma de agir de uma suposta força inteligente (Deus) que o ser humano dificilmente teria acesso ou cognoscibilidade.

Essas petições não têm estatuto científico, tampouco se baseiam em uma heurística que se possa considerar epistemicamente virtuosa, pois se tratam em todas as instâncias possíveis de um salto de fé com intuito de conferir sentido a uma ignorância provavelmente eterna para os seres humanos. Mesmo que não possamos defini-la como “eterna”, há de se escolher um método de aproximação (heurística2) que afaste de todas as formas as petições de princípios não verificáveis. Por outro lado, decorre desse “salto” a propalada suposta evidência à frente de conceitos criacionistas famosos como: Complexidade Irredutível e Complexidade Especificada.

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domingo, 7 de fevereiro de 2010

O Ensino do Criacionismo em Aulas de Ciências

adao_e_deus Toco, não contra minha vontade, em um assunto polêmico, porém necessário. Antes da defesa de qualquer bandeira não há como analisar um fato e posicionar-se dentro de uma perspectiva sem que as cartas estejam na mesa. Até porque mesmo que já tenhamos como pano de fundo uma perspectiva, é preciso analisar os fatos para que o posicionamento seja coerente e justificado dentro do mínimo de bom senso que se espera. Até porque os fatos nunca são eles próprios de forma pura e simples. Há sempre coisas em jogo além dos fatos quando se olham os fatos.

A questão central é que para quem preserva um firme propósito diante da verdade, se os fatos sugerirem ou demonstrarem que nossa perspectiva esteja equivocada, começamos a perceber uma desconstrução natural de nossas crenças e assistimos um reposicionamento progressivo na amplitude de nosso olhar sobre o mundo. Os fatos nunca estão isolados. Sempre existe um contexto que os encaixa em um sentido maior que sustenta uma certa simbólica. O reposicionamento, porém, não acontece sem dor e para quem busca a verdade é preciso estar preparado para a dor e o desconforto. Na multiplicidade de opiniões em um esforço sincero de imparcialidade é que as coisas se ajeitam, tomam forma e constituem a realidade que nos circunda, tanto sensivelmente quanto simbolicamente; não sem antes assumirmos o quanto trágico isso pode ser e nos posicionarmos favoravelmente para reconstruções profundas.

Isso é o que difere, talvez, as buscas religiosas das buscas filosófico-científicas. Quem busca a verdade pela religião se acomete de uma Vontade de Verdade que não raro o cega diante de qualquer coisa que, supostamente, contradiga a interpretação canônica daquilo que crê. A busca da verdade religiosa é uma busca, primordialmente, de conforto psicológico e nisso não podemos negar que a religião é profícua, útil e (a despeito das más línguas) até necessária. Embora haja no bojo da atividade científica e filosófica uma disposição “natural” ao conforto (pois são feitas por homens e suas complexas psiques), não é possível dizer que essa busca seja a primordial. Por esse motivo é que elas se constituem um plano de saber diferenciado e não raro promotoras de angústias e sofrimento para aqueles que precisam desconstruir suas crenças e verdades prontas para se abrirem às evidências.

charles_darwin A questão criacionista é uma questão delicada. Envolve muito mais do que crer ou não crer, nem tampouco invade a questão da validade ou não em se ter crenças. A questão é sobre a validade de se solicitar um estatuto a algo sem que esse algo cumpra aquilo que lhe classificaria dentro do estatuto que ele pleiteia. Ou seja, o criacionismo (e sua vertente menos religiosa o DI – Design Inteligente) solicita o estatuto científico sem querer ou se preocupar em cumprir os requisitos que os incluiriam como ciências. Como encarar isso? Como os próprios crentes poderiam encarar isso? Eis a questão.

Quem é do meio científico, seja estudante ou cientista atuante (sendo crente ou não) sabe o que o estatuto científico e a comunidade científica prescrevem para que uma atividade ou um corpo de pensamentos possam ser considerados como tal; dessa forma candidatar-se a ter esforços e financiamentos direcionados às pesquisas que corroborem seus postulados. Quem não é, ou não aceita, pois se “encastela” em verdades prontas a serem apenas confirmadas, simplesmente tenta desestabilizar esse estatuto com vistas a embrenhar-se em suas rachaduras (naturais, inclusive) para validar algo sem classificação fora de sua esfera: crenças.

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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O Trágico como Remédio para o Niilismo

anjo_tragico A configuração do pensamento trágico nietzschiano, principalmente a partir das considerações de Deleuze sobre a obra de Nietzsche, nos coloca a visão trágica do mundo como um antídoto não-dialético para o niilismo.

O trágico afirma o SER Universal a partir do Devir, afirma o UM a partir do múltiplo, a necessidade a partir do acaso e da aleatoriedade. Não há constituição cosmológica, não há “cosmização” sem pressuposição volitiva de uma força contra o caos, a desordem e a indistinção. No entanto, diferente de postular esse movimento volitivo contra o caos como dialético, ou seja, interrogando o caos para saber uma Verdade e Fundamento a serem descobertos por negação, a tragicidade constrói o fundo e a verdade sob a perspectiva de uma afirmação estética, dialogada afirmativamente entre o Belo e o Útil.

Quando a cosmização é simplesmente reativa, dialética, ela desemboca no niilismo. O trágico sempre será afirmativo e não reativo. O reativo, dialético, é simplesmente conservação de força frente ao inesperado, que precisa do controle e da submissão daquele que é atingido pelo inusitado. O trágico afirma-se na consciência plena do acaso como constituinte da própria realidade e o cosmiza ativamente e não reativamente. O trágico não só afirma a necessidade a partir do acaso, como afirma o próprio acaso; não só afirma a ordem a partir da desordem, como afirma a própria desordem; não só afirma o cosmos a partir do caos, como afirma o caos. Dessa forma afirma o Dever como constituído a partir do Devir, afirmando sobretudo o próprio Devir.

Essa é a grande inversão de Nietzsche, que tira do pensamento qualquer pressuposição de sentido e valor para construí-los (sentido e valor) a partir do jogo de forças visando expansão de potência. A grande denúncia de Nietzsche em relação ao pensamento ocidental está justamente em considerar todo pensamento que pressupõe sentido e valor já uma Vontade de Potência se afirmando como força e moldando os agentes a reagirem contra aquilo que constitui a realidade: a falta de valor em si e sentido próprio.

nietzsch1ppp A ação reativa embrenhada na pressuposição de sentidos e valores constitutivos de um fundamento do real é niilista, estatizante, cheia de deveres e fixada na conservação da predominância da força que institui uma dada situação e, como tudo, não passa de perspectiva. Ela reage contra o niilismo, mas se conspurca em sua raiz mais profunda, já que nega a realidade e a própria vida para fugir. Ou seja, é uma Vontade de Nada (ilusão) contra o Nada real.

Para Deleuze a história e a evolução expressam justamente o jogo dialético entre as forças reativas e o niilismo, já que é a Vontade de Nada que garante a sobrevivência dessas forças. As forças ativas embrenhadas na constatação do trágico e de dentro do próprio trágico, trabalham em outro nível vetorial; em combinação de forças.

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sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Choque Cultural? – Devir e Dever no BBB

falsidade3 Mesmo não acompanhando com assiduidade o BBB, esse tipo de programa sempre me atraiu por um aspecto antropológico. A idéia, que no início suscitava a observação do comportamento humano em uma situação de exposição, contaminou-se com uma representação forçada dos participantes em cada edição. Apesar desse aspecto negativo o programa resiste. Resiste muito pelo apelo ao que há de voyeur no ser humano e pela catarse que é expurgar seus próprios problemas e viver a fantasia alheia, na vida do “outro”; como um folhetim que promete a realidade. Tudo farsa, mas uma farsa que é igual a própria realidade que vivemos. Afinal, a realidade pode muito bem ser uma grande farsa bem contata com anuência coletiva. Se fosse, jamais perceberíamos, pois como farsa, ela estaria calcada justamente naquilo que não teríamos dúvida de sua concretude.

Há de se pensar até se a representação do que tomamos como concreto não se constitui em farsa também, mas isso é outra história. Farsa ou não, a vida e a verdade são constituídas pelos choques de cada singularidade existente, o que demonstra que não há um Télos, ou um Dever em ser assim ou assado; mesmo quando duas pessoas se encontram ou quando duas culturas se encontram. Embora haja convenções que “encurtam” o caminho da aproximação, essas convenções jamais podem se tornar metafísicas. Elas precisam ser reafirmadas ou reformuladas na própria singularidade do encontro: é na singularidade dos encontros que se alimenta o Grande Discurso, o Logos, nossa maneira de ser, nossa cultura. Ou seja, nos fazemos no Devir e não possuímos qualquer dever em sermos como as convenções nos mandam.

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domingo, 24 de janeiro de 2010

Haiti 2: É possível um mundo para além do capitalismo?

Por Atanásio Mykonios¹

DSC01445 O Haiti parece nos mostrar ainda de forma cabal o fato de que o país deve ser reconstruído com a única referência que nos é possível – o capitalismo. Seria possível outra experiência, justamente em um país arruinado em todos os aspectos? O atual contexto parece negar isto. Imediatamente, todos os esforços se voltam para dois grandes intentos, a saber, o primeiro, humanitário, óbvio, na medida em que todo mundo não irá negar essa ajuda, salvar vidas, oferecer conforto, comida, medicamentos, tratamento médico, cuidar dos feridos e especialmente dos desvalidos sem abrigo. O outro objetivo é mais profundo e neste sentido, especialmente os EUA que mostraram empenho imediato em oferecer ajuda, especialmente, um tratamento de choque, ocupando os pontos estratégicos no que concerne à logística: porto, aeroporto, vias de acesso, etc. A reconstrução do Haiti terá como motivação a inserção do capitalismo em sua face moderna. É necessário que a reconstrução atenda às relações fundamentais do sistema, o país, neste aspecto, está fechado, sequer um Estado com feições comuns ao que encontramos entre nós existe.

haiti2 Por outro lado, a destruição do Haiti, por meio de décadas de ditaduras, exploração, abandono, indiferença e violência, não foram capazes de gerar entre os haitianos outro modo de vida. Isto pode nos revelar, afinal, que os empobrecidos e os explorados não encontram condições para criarem novas formas de relação social econômicas. Não quer dizer com isto que não haja experiências que tentam enfrentar a mercantilização, no entanto, a energia para superar o capitalismo foi extremamente sugada pelo próprio sistema. A reconstrução estrutural e material do Haiti requererá investimentos e anos de trabalho. Os haitianos serão explorados e mantidos sob controle rígido, contudo, serão empregados para serem submetidos a trabalhos pesados e receberão em troca um punhado de dólares, talvez mais do que recebiam até antes do terremoto. Ironicamente, serão mais felizes, terão comida à mesa e poderão levar os filhos à escola primária e com tudo isto, o mundo se orgulhará de reconstruir o Haiti sem os radicais islâmicos, os talibãs, os xiitas, e outros grupos de terroristas, até porque um povo absolutamente vergado receberá qualquer forma de ajuda com muito bons olhos. Assim, as gangues e os traficantes poderão ser controlados pelas forças de mercado ou até mesmo pelas massas de trabalhadores empregadas que exercerão mecanismos de compensação e controle social legitimando a ação das forças policiais que atuarão com o rigor de quem supostamente protege os trabalhadores da reconstrução do Haiti.

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