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segunda-feira, 5 de abril de 2010

Sobre o Ser e o Devir da Linguagem

Mas que Ser é esse, fugidio, que nos confunde pela escrita, pela a fala, pelo mundo, signos, coisas? Qual o Ser por traz do simples “parole”? O que significa dizer algo? Algo realmente é dito (ou seja, a linguagem é uma coisa e tem Ser próprio) ou só podemos dizer algo sobre outro algo (mera representação)? Como os falantes se entendem e se comunicam dentro de determinados contextos e de sua singularidade como seres? As questões lingüísticas, semiológicas ou semióticas confundem-se com questões talvez mais profundas que envolvem não só a origem da linguagem, mas como ela se dá fenomenicamente e, mais do que isso, que função exatamente ela cumpre na relação homem-mundo e homem-homem.

linguagem-corporal

Muitos se ocuparam dessas questões, mas não primordialmente se levarmos em conta a História da Filosofia. Husserl foi um deles e talvez pioneiro na forma como abordou o modo de existência da linguagem. Enquanto Descartes, Hume e Kant situados na Filosofia Clássica se ocupavam do problema do conhecimento pela relação entre o pensamento e as coisas, há pelo menos um século se assiste a virada lingüística colocando em pauta o problema do sentido e da significação como anteriores ao do próprio conhecimento; senão até como pressuposto de todo conhecimento possível.

Os protagonistas dessa “virada lingüística” na filosofia, dentre eles e com destaque Wittgenstein (seguindo a seu modo as problemáticas iniciadas por Frege e Russel), trouxeram a questão de que só através da linguagem e da lógica é que poderíamos fundamentar as ciências, justificando seu necessário caráter universal e objetivo. Com isso afastaram-se da idéia dominante até então de que toda ciência partiria de um Sujeito do Conhecimento. Certo é que essa contenda não acabou.

 

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domingo, 24 de janeiro de 2010

Fazendo ECO aqui…

Umberto Eco - Copyright 2010 by R. D. Flavin Acabei de ler um excerto de um texto de Umberto Eco postado no blog de Alice Valente, chamado Os Poetas e a Interrogação do SER em ECO, do livro Kant e o Ornitorrinco (Edições DIFEL 1999). Eco é um autor raro. Em geral, entre os incautos, ele não é chamado de “Filósofo”, o que faz com que ele se sinta (e nos faça sentir) ser autorizado para criticar a Filosofia naquilo que ela se enclausura no pensamento da tradição; felizmente liberta pela contemporaneidade. Ele é um “ensaísta”, digamos assim. Um escritor. Um artista das palavras e que tanto pode construir tramas (como O Nome da Rosa), como dedicar-se à reflexão sem os rigores de uma filosofia menor, caduca, fechada em seus limites e pretensamente abarcante da totalidade do real. Eco faz eco (desculpem o trocadilho) “ensaiando”; ou seja, fazendo obras abertas, tentativas, aproximações… Algum outro incauto pode ver nisso um sinônimo de “imprecisão”, mas não lhe faltam rigor, método e profundidade.

No trecho destacado por Alice suscita-me um questionamento. Não aprecio a crítica que parte de um conceito já pronto, a não ser que seja para questiona-lo e reformula-lo sob uma perspectiva que o atrele ao perceptível. Quando Eco fala do SER ele fala do SER parmenediano, um SER análogo ao OVO Primordial dos Órficos e ao Número de Pitágoras, e que foi responsável por toda filosofia platônica e pela cultura ocidental ao sincretizarem-se com o judaísmo-cristão. Até hoje há controvérsias em relação às raízes orientais da filosofia, mas não é possível negar que, ao menos em uma vertente da Filosofia, há clara comunhão cosmovisionária com a mítica oriental. Não nego, no entanto, que mesmo havendo essa raiz comum, os gregos, assim como salienta Nietzsche, não tiveram uma cultura autóctone:
“(…) eles sorveram toda a cultura viva de outros povos e, se foram tão longe, é precisamente porque sabiam retomar a lança onde um outro povo a abandonou, para arremessa-la mais longe” (NIETZSCHE, Filosofia Trágica na Época dos Gregos, §1, p. 263)1
Um Universo que transcende a partir de uma Unidade2 constitutiva que se degenera na diversidade é uma concepção recorrente oriental (e mundial) que foi apropriada e racionalizada pelo pensamento filosófico de linha órfica-pitagórica-platônica. Esse SER esférico, imóvel e compacto cumpre as exigências de uma coletividade que precisa postular uma realidade fundamental que explique as ambigüidades experimentadas no cotidiano e direcione, com um Télos, as ações e objetivos coletivos. Esse Universo cria um Dever que direciona as ações para resolve-lo naquilo que é e que não pode deixar de SER.

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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Filosofia Palatável

boca1 Há algum tempo atrás escrevi um poema (quando participava da Companhia Literária Mote Perpétuo em 99 – com meus amigos diletos Alaércio, César e Cláudio), que falava justamente sobre o poder da língua, da boca. Parece-me hoje que valha a reprodução. A questão da linguagem e do que representa esse poder de nomear, designar e nos comunicarmos é há tempos discutido filosoficamente e merece um destaque a partir dos últimos acontecimento.

A Boca

A boca escreve das coisas
Só o que as coisas têm de inefáveis,
A boca come, ingere, mastiga...
Ela mente, xinga, ri e trai...
A boca regurgita, aspira ao pulmão
Coisas que nos mantém vivos.

A boca desenha a vida em nossas almas,
A boca abocanha, escancarada,
A vida brotando nela, engole
A mixórdia do mundo kaos...
A boca é caos com K, Grecolatinamente boca,
Cantada, decantada, encantada
Boca sem dente, luva desbocada,
Amada boca, de palato e saliva
De solitude e palavras,
De sotaque e Somálias
Famintas e certeiras...

Boca que procura bico,
Tórax; da cópia, coronária,
Canária, canto úmido das bocas sedentas...
Sandálias, da boca pescadora, do peixe
Que morre pela boca, mas não escreve
Que mata, mordendo o manto da morte

Boca morta, entreaberta
Em arcadas jogadas, exumadas,
Ex humanos de bocas caladas,
Na calada dos guetos, boca do lixo...
Boca amada, vermelha insaciável,
Sugando a vida espremida,
Canalizada na uretra da boca,

Boca, boca...

Sem ânimo, anima almejada
Boca, cloaca, retal...
Boca invertida, molhada, vagina,
Devoradora boca de loba, malvada –
Malversada, maledicente, melodiosa...

Boca delgada, carnuda,
Desnuda, imunda, pura
Boca santa, boca mantra
Em sons e dons de cura, crua

A boca desdenha, compra e vende
A boca desvela, nivela, revela
As palavras arcaicas, imemoriais
Boca, boca, boca, Haikai...

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