domingo, 14 de março de 2010

O Mistério Feminino…

O enunciado proposto por Simone de Beauvoir -- "Ninguém nasce mulher: torna-se mulher" -- provocou um deslocamento da naturalização da condição feminina construída nos séculos XVIII e XIX e abriu um leque de possibilidades para pensar "o que o sujeito pode se tornar, sendo (também)mulher". O efeito social provocado pelas mulheres na luta por seus direitos introduziu a necessidade de pensar sua história. A partir daí, incorporou-se no horizonte do trabalho reflexivo o efeito histórico da relativização da 'essencialização' do feminino. Na medida em que foi sendo tecida uma história coletiva, puderam-se reconstruir histórias individuais e reinventar projetos para o futuro.

A mulher e o Ser Feminino colocam-se diante do masculino como um mistério. Tentativas exaustivas existiram para saber tanto o que representa a mulher para o mundo masculino, quanto o que a mulher deseja. O homem, tomando a si próprio como referência, jamais chegará nem perto de descobrir. Tirando a voz da mulher e sua possibilidade de construção responsável de si, muito menos.

Como uma mulher poderia dizer o que deseja se grande parte do que ela deseja foi engendrada nela a partir de um universo que apenas lhe tange e não a abriga como sujeito? Confundimos as referências das mulheres, impondo-nos a nossa referência, e exigimos que elas se expliquem.

Claro é que o homem não pode se definir afastado e isolado da mulher, assim como pouco provável seria a mulher conseguir isso de forma isolada. Se ambos dividem o mesmo espaço em uma relação recíproca, a simbólica não pode ser unilateral, com pena de um dos lados perder sua própria identidade e ser chamado de confuso e/ misterioso. Triste isso, mesmo que adquira um ar romântico.

Uma grande dívida da Filosofia foi tomar o referencial de quem a fazia para construir o estatuto ontológico do ser humano. Essa dívida, espero, pode ser paga a partir da inserção cada vez mais crescente das mulheres nesse campo. Mas é preciso que elas possam, sobretudo, problematizar essa questão e terem sob suas perspectivas a arbitrariedade que é considerar a questão da sexualidade como mero acidente na construção ontológica.

Mas como fariam isso se é ainda a sociedade falocêntrica que determina os interesses de pesquisa para a manutenção do status quo? Esse fato exclui em becos sectários um importante arcabouço de saberes que as mulheres fora desses becos e muito mais os homens, perdem em considerar essas questões nas reflexões mais abrangentes que fazem.

Curioso é que para problematizar isso é preciso, no olhar masculino filosófico, definir o que seria a identidade feminina e a identidade masculina. Mas toda definição da identidade feminina que passe por uma construção masculina, deixará lacunas insondáveis. Ao recorrermos às próprias mulheres para essa tarefa, entra em cena uma possível característica de seu tipo de pensar: a definição aberta, contingencial, não delimitadora, mas apenas orientativa. O que se inicia a partir daí é uma questão epistemológica, em que o acesso por vias masculinas é substancialmente diferente das vias femininas.

Se essa questão (a diferença epistemológica) é histórica ou ontológica não sabemos. As mulheres são assim na construção social que os homens fizeram para elas, ou essa característica tem estatuto ontológico do Ser Feminino. Mesmo sendo possível buscar raízes biológicas, químicas e físicas para essas diferenças, toda e qualquer fixação social delas terá uma interpretação com base em um valor masculino.

Talvez a saída, e percebo mesmo que esse movimento tem sido crescente, seja adotarmos a perspectiva epistemológica que provém da identidade feminina, mesmo que corramos o risco de estar apenas assumindo uma característica refratária de uma determinação histórica.

Sendo isso ou não, essa característica por ser aberta, cooperativa e não-definitiva, nos garantiria ao menos a possibilidade de nos ajustarmos no caminho; coisa que, em geral, os caminhos masculinos não permitem.

Reflexões apenas…

4 comentários:

Vanessa Souza Moraes disse...

Ser mulher é uma construção. Lacan também afirmava isto. E eu acredito nisso.

Angelillo disse...

Y lo que yo me pregunto: cómo habría sido la filosofía caso de no existir ese falocentrismo y una sociedad patriarcal dominante? El logos griego se habría enquistado en el discurso filósofico dominante de la forma que lo ha hecho hasta casi nuestros días? Naturalmente, la pregunta no tiene respuesta.

Saludos...

Gilberto Miranda Jr. disse...

Meu caro amigo Angelillo. Realmente essa pergunta não tem resposta, mas quisera que os homens, em sua massiva prevalência, pudesse tecer outras perguntas que não direcionassem as respostas e permitisse que as mulheres pudessem construir livremente e autonomamente suas próprias respostas. Gostaria muito e penso que já passou da hora. Que não seja no pleno reconhecimento de que elas tem todo o direito de responder pelo mundo como nós, que seja ao menos por curiosidade para saber como seria...

Gilberto Miranda Jr. disse...

Vanessa, querida, concordo com você... Odeio essa nossa mania masculina de nos acharmos prontos e acabados. Por isso fazemos tanta merda rs... Que o mundo perceba que não precisa ser esse mundo, mas um ser uma construção. Que o mundo, segundo você e Lacan, também seja mulher, feminino, construindo-se no Devir.

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