terça-feira, 5 de maio de 2009

Ciência & Tecnologia – Imbricamentos e Relações

Em que sentido se circunscreve a idéia de que a ciência é o conhecimento capaz de produzir tecnologia?

Resolvi publicar em artigo ao invés de responder ao comentário do Osame no artigo O Saber Científico e a Gripe Suína porque além dele ter ficado longo, penso que traz reflexões que podem ser compartilhadas além do acaso dos leitores que se interessam em ler comentários. Muitas vezes os comentários são até melhores que os próprios artigos e essa discussão em que estamos parece-me ter esse aspecto.

mainpage-pic_green Penso que nossa divergência está em algo muito mais amplo do que havia me atentado no início. Eu não vejo diferença, no entanto, no que chamamos exatamente de Técnica ou Tecnologia. Mesmo na definição da Wikipédia em inglês abre-se um campo vasto para se entender o que vem a ser Tecnologia, mas como eu havia dito em minha resposta eu a entendo de uma forma bem específica que nada mais é do que um conjunto de Técnicas, que por sua vez se circunscreve em um fazer especializado, seja com base teórica ou não.

Técnica é você ter e exercer o domínio, controle e manipulação de um aspecto material da realidade. Tecnologia é o domínio com sentido de uma técnica ou de uma série de técnicas. Não importa para a idéia que quero passar se o “logia” como sufixo também traga o conceito de estudo sobre técnicas. Tecnologia como conjunto de técnicas ou como estudo de técnicas ou ainda como o conhecimento de causa de um conjunto de técnicas, não muda, substancialmente, a idéia de que a ciência só é ciência na ocidentalidade se trouxer nela o potencial tecnológico como desdobramento de sua própria existência.

A tecnologia, ou a técnica em si, porém, não dependem necessariamente da ciência. E isso me parece tirar o caráter tautológico da questão. O que precisamos ver é em que medida a Ciência dependeria da técnica para ser considerada como tal.

Identifico dois pontos de divergências entre meu pensamento e de Osame:

Um ponto diz respeito às motivações da ciência, que para mim soa como uma busca metafísica do fundamento da atividade científica. Não penso que o fundamento de algo deva ser buscado numa instância metafísica cuja essência anteceda sua existência e o que a caracteriza fenomenicamente.

Determinar o que se vê pelo que se conceitua previamente, parece-me ser anticientífico. Eu não busco esse caminho nem tampouco insinuo que o Osame esteja fazendo isso. Mas os conceitos que venho trazendo parecem-me dizer respeito a uma abstração de como a ciência se apresenta a nós fenomenologicamente e não como ela é vista por quem a faz ou como ela poderia ou deveria ser.

Outro ponto diz respeito ao Osame vincular o que trago a um necessário desdobramento tecnológico factual do conhecimento científico, excluindo a cientificidade daquilo que não produziu tecnologia factualmente. Eu não vinculo a cientificidade de um conhecimento a uma necessária produção tecnológica, mas sim ao potencial tecnológico do conhecimento. É essa a motivação científica, e antes de motivação, é a que torna ciências na ocidentalidade.

Vou então, antes de argumentar a favor do que penso, responder a pergunta inicial desse artigo: em que sentido se circunscreve a idéia de que a ciência é o conhecimento capaz de produzir tecnologia? Resposta: no próprio método científico.

Pensemos juntos.

Se uma teoria só pode ser considerada científica se for possível depreender dela predições de eventos que podem ser corroborados por fatos, inferimos que todo conhecimento científico teórico se circunscreve no desenvolvimento de uma técnica que possibilite ter e exercer o domínio, controle e manipulação de um aspecto da realidade. Não existe possibilidade desse domínio, controle e manipulação sem o desenvolvimento de uma técnica que os possibilite. A Teoria não dá a técnica, mas ela a exige para que se comprove sua validade.

A técnica pode ser até vista como um subproduto da ciência, pode até ser vista como um fim marginal, mas sem a produção técnica, sem um saber prático específico que valide a universalidade da teoria, não se tem ciências. Se Técnica, como eu disse, é ter e exercer o domínio, controle e manipulação de um aspecto material da realidade, e se a ciência não se valida sem isso, a Técnica é fim da ciência, portanto a define.

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O conjunto dessas técnicas compõe uma tecnologia a ser direcionada por quem a usa, mesmo que não seja, necessariamente, os únicos que deveriam usar. É aí que entram as decisões políticas, ideológicas e de interesses econômicos.

Se não fizesse parte da ciência, por definição, a necessidade do domínio, controle e manipulação de um aspecto da realidade, não haveria como consequência dela, necessariamente, a tecnologia. Mas se faz parte, o imbricamento é total, e no conceito de ciências não se pode excluir seu desdobramento potencial técnico.

O que se faz depois com essa técnica dependerá das estruturas sócio-políticas-econômicas que destinam esse conhecimento científico. No capitalismo se faz produtos, mercadorias, se alimenta o mercado na sede incessante de lucros das empresas e na produção ideológica de uma vontade crescente de se consumir por parte das pessoas. Faz-se armas de destruição massiva e remédios poderosíssimos que nos transformam em celeiros de proliferação de supervírus e superbactérias. Mas isso não é culpa nem da ciência, nem da tecnologia que ela possibilita em seu imbricamento existencial.

 

Alerta Importante, porém….

Mas aqui cabe um alerta importantíssimo  na presente abordagem e que escrevendo com muita sinceridade ao Osame, me sinto obrigado a fazer.

Criticamos ambos, penso eu, um sistema que “rouba” da ciência e do conhecimento científico as descobertas que poderiam ser usadas para algo mais útil (ou meramente para sabermos mais do que nos cerca) e a usa como instrumento de opressão e domínio num sistema preocupado apenas com o lucro.

Podemos ver a Tecnologia por dois prismas nesse aspecto:

1. Como mera somatória de técnicas oriundas da necessidade de domínio, controle e manipulação da realidade que toda ciência faz e tem como fim;

2. Como um conjunto de técnicas agrupadas sob um significado dado a posteriori e à revelia do conhecimento científico para cumprir um propósito e uma finalidade alheia à comunidade e à atividade científica, bem como alheia até às suas técnicas fins.

Mas nisso tudo, até onde vai a responsabilidade da ciência? Até onde esse elemento que “rouba” o conhecimento científico para fins particulares está na estrutura a priori da atividade científica?

Tecnologia0 Não é só ao definirmos Tecnologia meramente como conjunto de Técnicas, sem nada a mais que a caracterize além disso, que meu argumento se torna verossímil. Isso significa que nem ciência, nem técnica e nem tecnologia são responsáveis pela destinação duvidosa que o sistema e certos setores da sociedade dá ao conhecimento científico. Não em si mesmos, mas existe uma responsabilidade.

O propósito do conhecimento científico é um conhecimento seguro, e seu critério de segurança é sua capacidade de domínio, controle e manipulação daquilo que conhece, portanto (mais uma vez) seu fim é a técnica. Ao agruparmos um conjunto de técnicas que gere outros conhecimentos científicos e sirvam como base para uma ampliação do conhecimento, teremos uma Tecnologia retroalimentando a própria ciência. Teremos a Tecnologia como fim da ciência e seu subproduto sendo usado por um sistema que usa sua essência com propósitos específicos.

Mas levando em conta o item 2 e colocarmos na definição de Tecnologia, além do mero conjunto de Técnicas, um significado, isto é, um conjunto de Técnicas agrupadas sob um propósito e finalidade específica, então sim poderemos separa-la do conhecimento científico. Mas de que adiantaria isso?

Se, à revelia da técnica como forma de domínio de um conhecimento teórico, agruparmos uma série de técnicas dando um sentido e propósito a elas, desenvolvemos uma Tecnologia sem vínculo com a estrutura apriorística da ciência. Penso que seja essa tecnologia que Osame se refira.

Isso é muito importante salientar, pois esse sentido, propósito e finalidade é algo colocado a posteriori do processo científico e da aplicação do método, bem como no desenvolvimento da técnica que valida o domínio que a Teoria Científica procura proporcionar.

Penso estar com isso estendendo meu entendimento ao que o Osame tenta me trazer em seus comentários. No entanto tem um outro problema ainda. Do que adiantaria tudo isso, esse malabarismo conceitual, se mesmo que não colocássemos a Tecnologia como fim da ciência (admitindo a definição 2), é o sistema que vai usar a tecnologia como bem quer que financia a própria ciência, seja diretamente ou por traz dos governos que promovem o incentivo à pesquisa?

Claro, isso não está no cerne da questão que estamos discutindo, mas se traz à baila automaticamente. Imaginemos que, por acaso, pudéssemos retirar completamente o interesse econômico por traz de toda pesquisa científica. Seja qual for o fim da ciência e o que a define, é dificílimo imaginar que aceitemos que o que define um conhecimento científico não seja a capacidade potencial desse conhecimento produzir saberes práticos e técnicos, suprindo nossas necessidades como seres humanos.

No final do artigo anterior que causou o comentário de Osame, saliento a importância da comunidade científica ficar atenta ao mau uso de suas descobertas e aos riscos que ele acarreta, servindo como porta-voz da necessidade de uma postura ética de um sistema preocupado somente consigo mesmo.

Com um medo cínico de me tornar muito longo, vou tentar justificar esse pensamento.

 

Castores, Tautologias e Definições

castor Osame pergunta-me se tenho a opinião de que a história da tecnologia começa no capitalismo e diz que, para ele, começa com os castores. O raciocínio por traz está no pensamento de que eu teria dito que a tecnologia é fruto exclusivo da ciência, o que traria o caráter tautológico da definição de ciência como conhecimento capaz de produzir tecnologia.

Penso que nesse entendimento houve um equívoco. No artigo em que escrevo sobre o Saber Científico e a Gripe Suína, eu não questiono enquanto técnica a decisão judaica em não comer porco. Só não a coloco como científica por que ela não se refere a um saber universal, abstrato e teorético que possibilite sua aplicação técnica em outros campos particulares.

O que é preciso ficar claro que eu não defendo que é a Tecnologia é definida pela ciência, mas que a ciência é definida pela tecnologia que potencialmente produz. É diferente e não é tautológico.

Assim como os castores, grande parte do saber humano e que até hoje nos maravilha, foi construído com técnicas e tecnologias totalmente desvinculadas de um saber científico. Mas isso não exclui o fato de que a ciência, desde que nasceu, circunscreve-se conceitualmente em sua capacidade de produzir tecnologia.

Definir, como etimologicamente o termo nos diz, é dar um fim a algo, demarca-lo, limita-lo. Conceituar é diferente de definir, embora no Houaiss traga dentro da acepção de “Conceito” a idéia de “Definição”. Conceituar é entender o mais profundamente possível alguma coisa em sua manifestação e conseguir detectar nessa coisa aquilo que a melhor caracteriza; o seu significado. Conceituando, a meu ver, é que se define.

Eu trago, portanto, dois conceitos envolvendo o que entendo por ciência. O primeiro conceito diferencia o que seria técnica e o que seria ciência, dizendo que técnica é um saber específico, particular, prático e ciência é um saber pretensamente universal, abstrato, teórico. Técnica ou Tecnologia (como conjunto de técnicas inter-relacionadas ou não, constituindo um único fazer ou não) podem vir delas mesmas e de suas práticas ou virem cientificamente de uma abstração que universaliza um conhecimento ou um conjunto deles.

No outro conceito, vinculo a validade do saber científico ao desenvolvimento de um fazer prático que o valide, dando corroboração à teoria pelos desdobramentos empíricos daquilo que prediz; dominando, controlando, reproduzindo e manipulando aquele aspecto da realidade que foi explicado. E justamente por se validar dessa forma, tem como seu fim a produção da Técnica e/ou da Tecnologia.

Mas sabemos que só a partir de Bacon e já com o capitalismo comercial em voga e o industrial já em vias de dar sua cara na história é que podemos falar dessa necessidade de comprovação empírica e do nascimento da técnica como fim da ciência. Antes, a ciência especulativa era empírica somente na formulação de suas leis, mas não necessariamente na validação delas. Não se fazia o caminho de volta. Então, como era a ciência antes? Será que ela, antes disso, antes do capitalismo propriamente dito, possuía também esse imbricamento com a tecnologia?

 

Um Pouco de História e Contextualização

A Técnica, ou a Tecnologia enquanto conjunto de técnicas, pode ser adquirida (como excelência em um fazer) apenas através da prática da tentativa e erro. Por isso fiz a conjectura do costume dos judeus em relação à carne de porco. Assim como os saberes arquitetônicos do Egito e outras civilizações que atingiram sua excelência sem um saber teórico que as fundamentassem, existe uma gama de saberes que prescindem da ciência para se estabelecer. E os castores sabem disso, pois sua excelência é um longo processo de tentativa e erro cuja validação se circunscreve na continuidade de sua existência.

A Suméria revolucionou a engenharia da época desenvolvendo um campo de saber específico na construção de represas, diques e canais que maravilha o mundo até hoje, mas que não era um saber teórico, e sim eminentemente prático e adquirido pela sintonia fina de tantas tentativas e erros. A necessidade move as descobertas e a técnica. Até aqui eu penso que estamos de acordo sem muitas divergências. Nada disso ainda é ciência, mas expressa a técnica e a tecnologia.

tales-de-mileto A ciência nasce na Jônia no século VI a.C. E ela marca seu nascimento por um modo novo de se pensar e não por uma motivação nova para se pensar diferente. As motivações humanas não parecem ter se modificado ao longo do tempo. Sempre estivemos em voltas de resolver nosso problema de existência. Sempre buscamos resolver os problemas práticos relacionados com a perenidade de nosso existir e de nossas idéias. Ou estamos preocupados com nossa existência ou com a perenidade de nossos conceitos, significados e sentidos. Toda busca humana parece se dar na direção da preservação de nossa vida e dos significados que atribuímos a ela.

Imaginar que haja algo que valha por si só como parte integrante da natureza humana, parece-me ser assumir um modelo metafísico essencialista do universo e querer olhar a história a partir dele. Não há mal em si em ver dessa forma, porém carecemos de justificativas que nos façam assumir isso além de uma mera preferência pessoal.

Tentando contextualizar o nascimento da ciência no sec....VI a.C. para buscar o que motivou um novo tipo de pensar sobre a realidade, nos deparamos muito mais com a questão pragmática do fazer ciência do que com uma corroboração possível de um fim nela mesma ao molde aristotélico. O pensamento abstrato, porém não formal, já existia em todas as civilizações, mas a confluência de fatores de fundo eminentemente práticos e ligados à questões de sobrevivência, desembocaram na necessidade de se buscar um saber abstrato que pairasse acima dos costumes de cada sociedade.

A Grécia vivia um período de efervescência econômica e comercial, dominando boa parte da península e precisando expandir seus negócios. Cada nação que espremia a Grécia (que era formada por cidades-estado independentes politicamente) tinha uma cultura diferenciada, seus próprios costumes e seus campos de saberes atribuídos aos poderes divinos dos deuses que os protegiam. Na Grécia não era diferente, e a tradição impedia boa parte do crescimento econômico devido as divergências cosmovisionárias entre eles e seus vizinhos. Guerras eram freqüentes e isso não poderia continuar.

Menos do que por qualquer coisa do que por necessidade, a meu ver, era necessário que se encontrasse pontos de convergência cosmovisionários, abstratos, em que se pudessem pautar as relações entre as diversas nações ali presentes. Sem isso o comércio era impossível, a expansão era impossível, a vazão do excesso populacional e o acúmulo de riqueza eram impossíveis.

A Grécia se torna privilegiada nesse aspecto, segundo os historiadores, por alguns motivos básicos:

1. A capacidade discursiva e lógica de uma escrita herdada dos fenícios, mas que ao se incorporar as vogais deu amplitude comunicativa sem precedentes;

2. O uso corrente por uma princípio absolutamente abstrato de um indexador que colocava os valores das mercadorias numa mesma base de troca: a moeda. Esse é um símbolo da capacidade abstracional grega, cuja primeira moeda cunhada com esse fim nasce na Lídia (cidade-estado grega) no sec.... VI.a.C.;

3. A existência de uma classe de cidadãos que se abstém do trabalho e se dedica a uma atitude contemplativa e reflexiva perante a natureza e a realidade;

4. A experiência, desde o sec....VII dos jogos Pan-Helênicos congregando e promovendo a paz entre nações de unidades políticas independentes, além do sincretismo religioso promovido pelo politeísmo.

5. Laicização crescente das instituições políticas gregas e a separação entre religião e estado.

arte-na-grecioa-antiga Notamos com isso que a capacidade abstracional já existente, a experiência da multiculturalidade religiosa, aliada a uma habilidade de descrição mais precisa de suas idéias e o ócio, perfazem as condições de possibilidade do nascimento da ciência e da filosofia.

A Jônia era a porta de entrada e saída da Grécia continental. Mileto vivia, à época de Tales, seu apogeu. Os pré-socráticos foram os primeiros a tentar abstrair da diversidade os princípios naturais que regiam o universo, pairando acima daquele monte de deuses e buscando de forma universal aquilo que seria comum a todos.

A ciência é subproduto disso. Ela já nasce como forma de um pensar politicamente engajada na necessidade de constituir saberes que fundamentam um aspecto utilitário. Toda especulação filosófico-científica feita pelos pré-socráticos nasce sob o pano de fundo pragmático da necessidade de expansão comercial grega e suas relações com outras nações. Podemos até arriscar em dizer que a ciência jônica nasce sob os auspícios da busca de uma tecnologia para um fazer diplomático, na busca de uma técnica ou uma excelência que daria aos gregos condições de expandir e dominar as nações além de suas fronteiras sem a necessidade de guerras, embora estivessem também dispostos a luta-las.

Essa visão contrasta em muito com o que nos foi passado nos cursos oficiais que coloca o nascimento da Filosofia como um “milagre” grego emergente de uma natureza humana cujo amor ao saber é espontâneo e constituinte. Essa construção visionária, inclusive, também se encontra encerrada no arcabouço ideológico necessário para que assumamos essa postura idealista. Antes de Aristóteles, Platão já nos via com um impulso de buscar o BEM através da razão.

É aqui então que entra todo o humanismo renascentista, o iluminismo kantiano e por fim a Escola de Frankfurt a fazer uma crítica marxista dos postulados que coloca a ciência desinteressada e neutra. Ela pode ser, mas o homem e as estruturas que a controla não são.

Fazemos confusão, até pela história recente que isso representa (estando intimamente ligada à contemporaneidade). com o grito de liberdade iluminista contra a medievalidade que encarcerava as mentes numa concepção de mundo autoritária e obscura. Esse grito de liberdade pode ter até tirado a subordinação da razão das estruturas metafísicas escolásticas, mas não a tornou independente do utilitarismo. Pensar num fazer científico sem seu desdobramento técnico (mesmo que potencial), tira dele a necessidade do rigor metodológico que é a pedra de torque de toda ciência.

Concluindo

Nem o imbricamento entre Ciência e Tecnologia, nem o Imbricamento entre Tecnologia e Capitalismo trazem necessariamente um imbricamento direto entre Ciência e Capitalismo. A questão é que, querendo ou não, o Capitalismo apropriou-se de toda atividade e motivações humanas, mesmo que particularmente muito de nós não concordem ou resistam de alguma forma.

A questão da Tecnologia ser fim e definir um conhecimento científico, não coloca a Ciência como necessariamente ferramenta capitalista em sua natureza. Parece-me que é esse o alerta que Osame faz ao pensamento que venho trazendo. Alerta acatado, penso que não fiz essa ligação. No entanto é impossível deixar de admitir que a natureza do fazer ciência cai como uma luva a um sistema que precisa do domínio, controle e poder manipulativo da natureza para chegar aos seus propósitos.

DSC03702 Os pontos que o Osame salienta distanciando a Ciência do Capitalismo são, a meu ver, pontos legítimos, mas que não anulam a idéia de que o conhecimento científico, por sua própria natureza, traz como fim o desenvolvimento de técnicas que controla e proporciona o domínio da natureza da forma que mais desejam os famintos donos das indústrias. É inegável o avanço científico causado pelas revoluções industriais ávidas pelas novas técnicas de domínio e controle da natureza fornecidas pelas mais variadas pesquisas científicas.

O que precisa ficar claro é que a tecnologia sendo fim da ciência, não significa que a exploração capitalista também o seja, nem tampouco que seja fim da própria tecnologia.

Osame diz que vê a ciência muito mais próxima da filosofia do que julga nossa vã filosofia rs. E eu concordo com ele. O imbricamento que vejo entre Ciência e Tecnologia não exclui de maneira alguma o aspecto filosófico servindo como base ao pensar científico.

Mesmo o pesquisador de posse de boa parte dos meios de produção do conhecimento científico e que não tenha financiamento capitalista, disponibilizando o que descobre ao mundo da forma mais altruísta e humanitária possível, terá como produto final de sua pesquisa uma técnica e uma tecnologia cujas consequências ele não terá controle algum.

Nesse ponto, concordo com o Osame que a questão ética premente esteja relacionada com o uso da tecnologia gerada a partir daí e não necessariamente da ciência produzida. Mas enquanto houver a tutela do capital no uso e fruto da tecnologia gerada pela ciência, corremos o risco de estarmos virando um repositório e criadouro artificial de superbactérias e supervírus.

A Teoria de Darwin proporcionou desdobramentos técnicos sem precedentes no combate biológico de pragas, mas seu uso irresponsável e uma desenfreada ambição, fazem com que a técnica que comprovou a validade da teoria, seja usada contra nós mesmos, mascarada de benefícios que o sistema finge nos proporcionar. Culpa de Darwin? Culpa da Tecnologia que comprova a validade de sua teoria? Claro que não…

Ninguém precisou patentear a descoberta de Darwin para fazer mal uso dela, e nem ele foi financiado por qualquer indústria, mas a técnica oriunda da própria validação de sua teoria está na iminência de nos matar a todos se não tomarmos cuidado.

É da ciência a geração da tecnologia. Mas é do homem, a decisão ética de usar responsavelmente essa tecnologia. Penso também que é daqueles que mais promovem nosso progresso e futuro a voz mais ativa na sociedade para tentar nos alertar contra o mau uso daquilo que eles nos proporcionam: OS CIENTISTAS.

4 comentários:

Osame Kinouchi disse...

Sobre técnica ou tecnologia entre animais = comportamento não instintivo e transmissivel por aprendizagem.

http://scienceblogs.com.br/rnam/2009/05/os_passaros_mais_espertos_do_m.php

Osame Kinouchi disse...

Acho que o meu comentário deveria ter citado sua frase, que acho que é o ponto principal e problemático:

"a ciência só é ciência na ocidentalidade se trouxer nela o potencial tecnológico como desdobramento de sua própria existência."

18 years of science with the Hubble Space Telescope

Julianne J. Dalcanton1,2

After several decades of planning, the Hubble Space Telescope (HST) was launched in 1990 as the first of NASA's Great Observatories. After a rocky start arising from an error in the fabrication of its main mirror, it went on to change forever many fields of astronomy, and to capture the public's imagination with its images. An ongoing programme of servicing missions has kept the telescope on the cutting edge of astronomical research. Here I review the advances made possible by the HST over the past 18 years.

Eu não consigo ver como pesquisas sobre supernovas e energia escura ou teoria de formação galáctica se encaixam na sua definição de ciência. E o caso do Hubble é emblemático: é a tecnologia que permite o avanço na Astronomia, e não o inverso.

Osame Kinouchi disse...

Oi Gilberto, sem tempo para uma resposta demorada, fica pra outro dia.

Tres pensamentos:

1. Talvez usar o termo ciencia, com c Maiusculo, seja generalizar demais. Acho que existem ciencias, ou até mesmo apenas cientistas...
Então, frases como "o proposito da ciencia, o fim da ciencia, etc" talvez pequem por sobregeneralização e essencialismo.
2. A Cosmologia, Paleontologia e Arqueologia são ciencias históricas. Não usam laboratórios, não manipulam, não controlam nem visam controlar nada (a não ser controlar seus dados, como voce sugeriu, o que me parece um pouco trivial... ou não?)
3. A Culinária se valida por seus produtos, e visa o controle e o domínio dos alimentos. Mas não é ciencia. O que a distingue da ciência?
4. Citando voce: Se uma teoria só pode ser considerada científica se for possível depreender dela predições de eventos que podem ser corroborados por fatos, inferimos que todo conhecimento científico teórico se circunscreve no desenvolvimento de uma técnica que possibilite ter e exercer o domínio, controle e manipulação de um aspecto da realidade. Não existe possibilidade desse domínio, controle e manipulação sem o desenvolvimento de uma técnica que os possibilite. A Teoria não dá a técnica, mas ela a exige para que se comprove sua validade.

O problema é o "Se uma teoria só pode ser considerada científica se for possível depreender dela predições de eventos que podem ser corroborados por fatos..." Isso é metodologia cientifica antiga, não é considerado mais válido hoje em dia. Dado que o postulado "se..." não é válido, o argumento fica invalido.

5. Ainda to achando que voce aceita muito rapidamente que os artistas fazem arte por idealismo (expressar suas emoções, etc). E que os cientistas não o fazem (a curiosidade intelectual é simplesmente uma extensão do instinto de exploração do ambiente, observavel em qualquer ratinho... não é nada sofisticado não). E o prazer cientifico da descoberta é identico ao prazer da pesquisa de qualquer intelectual academico e do artista. Como dizia Feynman:



"Physics is like sex. Sure, it may give some practical results, but that's not why we do it."
— Richard P. Feynman

Outras dele:

"Mathematics is a language plus reasoning; it is like a language plus logic. Mathematics is a tool for reasoning."
— Richard P. Feynman (The Character of Physical Law)

"Science is the belief in the ignorance of experts."
— Richard P. Feynman

"I believe that a scientist looking at nonscientific problems is just as dumb as the next guy."
— Richard P. Feynman

6. Meus amigos matemáticos puros achariam insultuoso voce declarar que a Matemática precisa ser validada por aplicações em outras ciencias. Os teoremas matematicos se validam pelo uso simplesmente das tecnicas dedutivas axiomas -> teoremas, não existe um referente externo. Ou você acha que a geometria não euclidiana só será validada se o espaço for realmente curvo? Os varios tipos de geometria euclidiana sao igualmente validos (e igualmente incompativeis pois seus axiomas diferem).

Osame Kinouchi disse...

Gilberto, talvez você aprecie o conto "Demiurgo" que coloquei aqui:

http://stoa.usp.br/osame/files/1625

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