sábado, 6 de agosto de 2011

Nietzsche ensinando a Democracia (É possível?)

Nietzsche-e-o-espelho-do-seculo-XXI Em minha maneira particular de ler e entender Nietzsche, não o vejo pregando a volta de uma Aristocracia nos moldes antigos, mas sim a assunção dos valores de nobreza onde a igualdade se estabelecia pelo respeito mútuo de quem comunga os mesmos critérios éticos e estéticos.

Minha tese é: se todo homem fizer o que ele diz, ou seja, transvalorar os valores e criar-se a si próprio a partir de uma afirmação estética da vida - considerando-se igual aos tantos outros que fizeram isso - criar-se-á uma democracia verdadeira: deixa de ser valor a usurpação do forte em relação ao fraco e abre-se como campo moral o enfrentamento perspectivo de cada visão para um consenso de objetivo coletivo e de benefício mútuo. Mas é claro, preciso argumentar em favor disso.

Nietzsche foi bem específico naquilo que ele não concordava com a democracia. Ao contrário do que se pensa, isso não significa que ele "pregasse" a aristocracia. Mas ele via a Aristocracia mais desejável que a Democracia no contexto o qual a democracia havia se estabelecido. Como existir uma “verdadeira democracia” se a Moral de Rebanho estabelece um niilismo que retira o ser humano da vida presente e o irresponsabiliza nela para viver um futuro de suposto regozijo além da vida?

Uma democracia forjada nesses termos se transforma numa aristocracia dos manipuladores, e em comparação a ela, melhor seria uma Aristocracia real, formada por nobres que, mesmo violentos e egoístas, ao menos não dissimulariam suas intenções roubando às escondidas e decretando a morte de milhares de seres humanos que esperam soluções do poder.

A crítica de Nietzsche à democracia não era sobre o conceito de abertura de possibilidades, mas sim sobre o nivelamento por baixo de uma massa a ser manipulada por poucos. Ao colocarmos o medíocre como padrão, o arrebanhado ou o niilista, ofuscamos seres com potência para superar esse tipo de humanidade. Não só ofuscamos como também castramos, adestramos e os normalizamos conforme uma moral universal metafísica e perniciosa.

O pensamento de Nietzsche é a favor dos bem dotados governarem, mas não é exatamente contra a democracia, e sim contra as ideologias que a defendiam a favor de um nivelamento da cultura pela moral de ressentimento.

Esse tipo de pensamento, polêmico por certo, entendido tendenciosamente, leva até a crença de que ele tenha legitimado filosoficamente o totalitarismo. Nietzsche se coloca contra o nacionalismo e o totalitarismo, assim como é contra o “populacho” tomando o poder para nivelar por baixo a cultura e a possibilidade do homem superar a si mesmo. A maioria, contaminada pela moral de ressentimento incentivada por manipuladores com sede de poder, sempre quer o mais cômodo, o mais frívolo.

 

A Vontade de Potência

poder Nietzsche diz que a primazia da vida como valor supremo é um pressuposto para os filósofos do por vir. Esse pressuposto é mais do que filosófico, pois nos chama a uma postura diante da realidade. Ele é estético e ético. Curioso é que Nietzsche não se dedicou estritamente a reflexões éticas e a dever-ser em sua obra, mas no bojo de sua crítica à moral e ao valor, sobretudo, existe uma ética que se apresenta como saída: a transvaloração dos valores.

A questão da transvaloração perpassa toda a obra de Nietzsche. O chamamento de Nietzsche à superação de todos os valores que negam a vida para a criação de novos valores abre perspectivas para uma nova moralidade baseado numa ética de enfrentamento e afirmação estética da vida.

Ao abrir a possibilidade do homem inventar a si mesmo a partir da destruição de todo caráter universal da moral e do valor, Nietzsche estabelece uma ética de responsabilização como dever-ser, cujo desdobramento moral é notório.

Prefiro muito mais a tradução de “Der Wille zur Macht” como Vontade de Potência do que como Vontade de Poder onde vemos claramente sua intenção ética e o desdobramento moral dessa ética:

“Não nos enganemos quanto ao sentido do título que quer tomar este evangelho do futuro. ‘Vontade de Potência. Ensaio de uma transmutação de todos os valores’ – nesta fórmula expressa-se um contramovimento, quanto à origem e à missão; um movimento que, num futuro qualquer que seja, substituirá o niilismo total; mas que admite sua necessidade, lógica e psicológica: que absolutamente virá depois dele e por ele.” - (NIETZSCHE, F. W. Vontade de Potência – Ensaio de uma trasmutação de todos os valores. Esboço de um prólogo. P. 1)

Como não vermos isso como um projeto ético? Como não enxergarmos um desdobramento moral para esse projeto? Quando Nietzsche se classifica como um imoralista é possível entender esse epíteto em dois sentidos:

1. Ele coloca-se no oposto dos moralistas que tomam suas perspectivas morais como únicas e absolutas;

2. Refere-se a uma imoralidade contra todo tipo de Moral ou Valor que se pretende tradutor de conceitos como “fim”, “unidade” e “verdade” em termos definitivos.

Não significa, portanto, em meu entendimento, que ele não tenha ou não queira desenvolver um pensamento ético e moral sob determinados critérios perspectivos que adota. Nietzsche, mesmo se intitulando um imoralista, o é em relação a um tipo bem específico de moral: aquela que nega o valor supremo da vida traduzida como Vontade de Potência. Curiosamente, Nietzsche coloca também como Vontade de Potência a moral que demoniza o forte para sobrevivência do oprimido. É uma espécie de Vontade de Potência que nega a Vontade de Potência daquele que oprime. Ele mostra isso nesse trecho:

“Se o oprimido, aquele que sofre, perdesse a crença em seu direito de desprezar a vontade de potência, sua situação seria de desespero. Para que isso fosse assim, seria necessário que este gesto fosse essencial à vida e que se pudesse demonstrar que, na vontade moral, a “vontade de potência” foi apenas dissimulada, e que esse ódio e esse desprezo nada mais são que manifestações daquela. O oprimido compreenderia que se encontra no mesmo terreno que o opressor e que não possui privilégio nem categoria superior sobre este.” (Ibidem. O Niilismo Europeu. p. 7)

Penso ser extremamente temerário vincular a Potência em Nietzsche como Poder e Dominação. Ao menos a partir de minhas leituras dele, vejo claramente que seria uma redução da riqueza que encerra a Vontade de Potência como pulsão humana.

 

O Outro, a alteridade e a Democracia

Alteridade Esse poder de expandir-se como ato criativo de si só tem sentido se for em direção ao Outro a partir do Mesmo sem um retorno a Si. Dominar e subjugar é retornar ao Mesmo a partir da determinação do Outro, mas o ato criativo é justamente também determinar-se a partir do Outro na alteridade. Logo, o homem livre para criar-se e expandir sua Vontade de Potência, só fará sentido a si próprio como obra de si, se estiver livre também de determinar o outro como instrumento e meio de sua potencialização.

Porém, nessa perspectiva, fazer-se no domínio e subjugo do outro é muito mais sinal de fraqueza do que de força. Mas somente conseguindo fazer a aproximação da radicalidade ética de Lévinas com a ética estética de Nietzsche - como Derrida fez - que é possível avaliar essa dimensão. Pressupor sua Vontade de Potência como mera Vontade de Poder, para mim, seria negar o legado de Nietzsche e a riqueza estética de suas conseqüências .

Os tradutores de seu livro póstumo Vontade de Poder (Marcos Sinésio P. Fernandes e Francisco José Dias de Moraes) nos alerta sobre essa questão. "Der Wille zur Macht" diz algo como a vontade, modo de ser; que se estrutura afim com o Poder. Essa Vontade é a Potência que nos dota de poder. Vontade de Poder não é cobiça nem meros meios quaisquer para atingir um poder qualquer. É a Vontade como Potência que nos confere Poder realizador, criativo, modificador da realidade. É o empenho mais autêntico do homem, sua parcela reprimida durante toda a moralização do ocidente que viu suas pulsões atreladas ao mal.

Isso é interessante demais, pois Nietzsche nos solicita que encaremos toda essa potência recalcada e reprimida pela moral como fonte criativa e libertária de um novo tempo, o que nem de longe passa por uma moralidade de dominação e opressão dos chamados fracos. Nietzsche nos mostra que essas forças telúricas e pulsionais da época arcaica eram livres e estavam na mão dos bárbaros que criaram seus próprios valores. Depois passou para a mão dos fracos, escravos, decadentes e “civilizados”; reprimidas hipocritamente para promover a mesma dominação, subjugo e escravidão. Nada mudou, apenas dissimulou-se. Entre uma aristocracia que deixa explícito o jogo de poder para se estabelecer e uma democracia baseada em uma moral de rebanho cuja mentalidade é dominada por poucos que estabelecem uma metafísica de dominação voluntária, eu e Nietzsche preferimos a primeira. Preferir um ao outro significa que somos aristocráticos ou mesmo aristocrata? No meu caso não, pois sou radicalmente democrata. Penso que no caso do Nietzsche seja um salto vê-lo assim.

O que ele nos mostra é que o ser humano tem outra opção de como usar suas pulsões. Ela pode ser criativa e esteticamente formada para o que o homem desejar. Ela não pode ser reprimida, mas sim sublimada. Essa sublimação se dá na alteridade a partir da vantagem relativa de considerar o outro naquilo que se quer para si. Essa consideração do outro leva em conta a liberdade do outro, sua individualidade e diferenças, principalmente quando ele não está embebido pela moral de ressentimento e dialoga a partir de valores que levam em conta a vida no aqui e no agora.

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Há outro fundamento para a verdadeira democracia que esse? A chave é o respeito mútuo entre iguais.

Há quem pode dizer que o respeito mútuo entre os nobres de que Nietzsche falava se dá exclusivamente pelo medo. Admitamos que realmente se dê por esse viés. Porém a continuidade do respeito não parece ter somente (quiçá continue a ter) esse ponto. Há de se questionar também esse “exclusivamente” a meu ver, pois existe admiração, junção de forças como forma de afirmar a sua e um monte de outras coisas em jogo nisso além do medo. nada nos impede que, a partir desse medo, criar-se um valor pelo respeito que se desprenda dele. O valor já está lá: o de não sofrer diminuição da força. A união pode ser a busca da expansão da mesma sem riscos desnecessários. Só um caráter absolutista, autoritário, totalitário e dogmático de uma força única e individual (coisas que em muitos escritos Nietzsche foi contra) é que poderíamos dizer que é por “exclusivamente” medo que se daria o respeito mútuo entre os nobres.

O que fica disso, a meu ver, é que o nobre, aquele que afirma a vida, que tem seus valores calcados na positividade da afirmação, permite-se conviver com a diferença em pleno jogo de forças e quando vê que sua força pode ser diminuída propõe alianças. Ao passo que o aquele que tem seus valores calcados na negatividade, no ressentimento, na exclusão, no nivelamento, não sabe conviver na diferença e precisa aniquilar o que se destaca. O segundo geraria uma democracia hipócrita assentada no ressentimento e no rebaixamento das forças, tornando a massa manipulável. O primeiro tem respaldo numa aristocracia, que entre eles é o que chamo (por conta e risco meu) de verdadeira democracia.

A consequência democrática do pensamento de Nietzsche, a meu ver, é uma democracia entre nobres (fortes) e a eliminação (por deixar conscientemente e voluntariamente de existir) dos fracos e ressentidos. Essa idéia na mão de megalômanos e sociopatas cria a eugenia, o xenofobismo e o preconceito.

Não vejo outra forma de estabelecer uma verdadeira democracia se não trabalharmos em duas vias de políticas públicas: de um lado a transvaloração dos valores para o aumento da vontade de potência e autoestima das pessoas e de outro a valorização da alteridade, respeito mútuo e ausência de preconceito desde o seio da educação básica nas escolas. Eis os arcabouço da futura democracia possível.

 

Referências Bibliográficas

NIETZSCHE, Friedrich W. A Vontade de Potência (Fragmentos Póstumos). Rio de Janeiro, RJ: Tecnoprint, s.d.

—. O Nascimento da Tragédia. 1a. Edição. Tradução: Heloisa da Graça BURATI. São Paulo, SP: Editora Rideel, 2005.

—. “Para uma Genealogia da Moral - Um Escrito Polêmico.” In: Obras Incompletas - Coleção os Pensadores, por Friedrich W. NIETZSCHE, páginas 337-370. São Paulo, SP: Nova Cultural, 1996.

6 comentários:

Diogo Bogéa disse...

Olá, Gilberto.
Interessante seu post.
Olha, estou lançando um livro de ensaios Filosóficos, para incentivar a reflexão e o questionamento de nossas verdades habituais, chamado "Eu, O Personagem". Se puder dar uma olhada, o site é http://www.euopersonagem.com
Críticas são bem vindas.

Um abraço,
Diogo

LyDelfino disse...

Muito bom o site...amei!!!Parabéns!

Rejane Bruck disse...

Muito interessante o conteúdo do teu blog, voltarei, certamente, pra olhar melhor e comentar!

Estou seguindo! Gostaria que visitasse e meu blog e, se possível, seguisse também!

http://rejanebruck.blogspot.com
Beijo!

Pablo Alves disse...

Olá Miranda!

Aqui tomo a liberdade de postar um relato um tanto quanto pessoal a respeito deste seu texto...

Já há algum tempo, depois que Nit instalou sua dinamite em meu âmago e fez-me questionar o valor dos valores, implodindo e colocando sob análise todo um sistema moral que sustentava minha existência, questionei-me repetidas vezes ao lê-lo qual seria então a alternativa ética de fato para minha vida e também, de forma idealizada, para o restante da humanidade.

Por quais valores valeria, em fim, lutar por?

A resposta que encontrei de Zaratustra foi enfática e me balançou profundamente: "crie você mesmo teus próprios valores. Abriga-te em tua solidão e torna-te o que és, para então com a tua verdade, o teu sim e teu não, interagir com os outros e continuar a transformar-te, devindo e atingindo a realidade com toda paixão e fatalidade que possuas, até que, em fim, sucumbas de tua própria potência e vontade de vida." (tomo a liberdade aqui de criar esta fala fictícia; não é, portanto, uma citação direta do livro Assim Falou Zaratustra – é como se a idéia que extraí do livro a este respeito me dissesse isso agora, enquanto escrevo estas linhas).

Porém, como pude perceber posteriormente com a experiência, criar valores não é de forma alguma tarefa fácil. Criar constantemente a si mesmo, descartando parte do que se é para agregar o que se considera valoroso (estética e eticamente falando), sem nenhuma referência além do que intimamente se percebe importante, é tarefa complicadíssima para qualquer um que se arrisque a tentar.

Caminhei por becos escuros dentro de minha subjetividade, procurando uma âncora, um apoio... Até que percebi, finalmente, que não poderia mais tentar encontrar portos seguros. O desafio que se impunha era o enfrentamento do mar aberto e tempestuoso de mim mesmo de frente, dia a dia, sem ídolos, sem deuses, até o fim de minha vida.

Com esta transformação – e fazendo agora um gancho com teu excelente texto - a democracia se tornou para mim a simples existência de aberturas / frestas para novos mundos e horizontes; alternativas e possibilidades de trilhar novos caminhos (possibilidades estas que sempre aparecerão de forma limitada e parcimoniosa a cada indivíduo, dado o processo histórico e a teia de acontecimentos por detrás da formação de cada subjetividade); uma espécie de ode à multiplicidade de escolhas: um SIM às perspectivas e novas formas de conceber a realidade – por mais trágicas que elas se mostrem -, e também um assertivo NÃO ao que se propõe definitivo.

E isso – ou seja, o aproveitamento dessa abertura, dessa potencialidade de mudança - percebi só ser possível a partir de uma subjetiva transvaloração constante de valores. Me parece que muito se teoriza e se idealiza a respeito da democracia e também da liberdade, porém muito pouco se exerce e se aproveita subjetivamente falando, ou seja, com base na realidade que se apresenta a cada um. A democracia deixou de ser para mim um conceito puramente político, jurídico, ou altruísta – deste modo devéras abstrato - para se tornar uma realidade subjetiva latente do meu cotidiano. Desde então aquela democracia idealizada, que prega direitos iguais a todos e que prevê a convivência pacífica entre os homens, se esfumaçou e sumiu lentamente dos meus pensamentos.

É isso aí Miranda, vamos conversando, forte abraço!!!

Filosofia Chula - disse...

Excelente reflexão. Sou admirador de Nietzsche, mas nunca havia analisado por essa perspectiva. Parabéns

Anônimo disse...

http://www.ufpel.edu.br/isp/dissertatio/revistas/33/01.pdf

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