segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Filósofos são Girassóis

Homem e Mundo estão imbricados naquilo que Merleau-Ponty chamou de Carnalidade. Mas essa carnalidade é também ambígua entre um corpo atual e um corpo habitual. Merleau-Ponty nos diz em Fenomenologia da Percepção:

O corpo é o veículo do ser no mundo, e ter um corpo é, para um ser vivo, juntar-se a um meio definido, confundir-se com certos projetos e empenhar-se continuamente neles.” (MERLEAU-PONTY, 2006, p. 122)

A face genealógica desse imbricamento está na forma como os valores são instituídos. Num primeiro momento pela questão da necessidade e, num segundo momento, na construção de possibilidades da expansão de potência. Portanto, a busca pontyana pela Ontologia do Ser Bruto coincide com a origem da emergência dos valores para aquém da cultura; formadores da cultura.

fruto_do_mundo Fruto do Mundo… Eis o que somos. Porém, a volta às coisas mesmas, como nos solicitava Husserl, requer um olhar além desse olhar imbricado. Requer que mostremos a cara, nos tornemos Girassóis. Olhar para nossa própria genealogia requer reconfigurar o mundo nesse novo olhar.

Esse ultrapassamento, talvez transcendência do homem rem relação a si mesmo, de seu aspecto irredutível (o corpo), é a pulsão de expansão que se faz diametralmente oposta à conservação, mera sobrevivência, mera reprodução.

E como olhar, tal como Girassol, acima e além desse imbricamento? Não pode ser desprezando-o, não pode ser criando dualidades, não pode ser, enfim, de cima de montanhas (e lembranças) que não dizem nada. Esse olhar é Vitalista….

A vida enquanto forma do ser que melhor conhecemos é especificamente uma vontade de acumulação da força” (XIII, 14 (82). Ou ainda: “O “ser” – nós não temos dele outra representação senão o “viver”” (XII, 2 (172)). Esse “vitalismo” é mobilizado pelo filósofo [Nietzsche] em seu combate à concepção metafísica do ser como estabilidade, permanência, imutabilidade: por oposição à antiga cisão entre o ser e o vir-a-ser (entre o real e o aparente), pensar o ser como vida é pensar o real sob as idéias de mudança, de metamorfose, de diversidade impossível de fixar; é afirmar a diferença, a dessemelhança, o díspar, o múltiplo, o vir-a-ser e o acaso. É enfim consagrar a aparência e a efemeridade. (BACELAR, 1996, p. 35)

2051941 Filósofos são como Girassóis. Ele estão despertos. São eles, em estado de vigília desde sua carnalidade, que podem, sem perde-la, perscrutar o que está além e aquém de si mesmos. A diferença entre o filósofo e o homem comum é a atenção que o filósofo dedica ao surgimento das coisas em seu campo perceptivo. Ele problematiza, ao passo que o homem comum reage. O filósofo especula. E ele especula redescobrindo em si aquele espírito bruto, anterior à cultura e aos conceitos. Ele procura aquela “membrana” do SER que se manifesta através do homem. Esse é um tipo de pensar inédito, que sistematicamente abrimos mão a favor de teleologias que se absolutizaram para nossa conveniência.

Olhar esse Sol, girar para ele, é ler o Logos: o discurso do mundo. É compo-lo com o próprio mundo, construindo o mundo.

Embora seja este o discurso, sempre, os homens tardam, não só antes de ouvi-lo, como logo que o ouviram; pois, mesmo que todas as coisas aconteçam de acordo com esse discurso, mostram-se semelhantes a inexperientes ao experimentarem tais palavras e atos que eu persigo segundo a natureza distinguido cada coisa e mostrando como ela é. Mas os outros homens ignoram o que fazem depois de acordarem, como esquecem o que fazem dormindo” (SCHÜLER, 2000, p. 12)

Ouvem, talvez, as montanhas que não dizem nada? Incapazes são, os que falam de tudo, mas sofrem quietos e não afirmam a vida como valor supremo.

Réquiem para uma Flor

Raul Seixas / Oscar Rasmunssem

Fruto do Mundo
Somos os homens
Pequenos girassóis
Os que mostram a cara
Enormes as montanhas (lembranças)
Que não dizem nada


Incapaces los hombres
Que hablan de todo
Y sufrem callados

 

Referências

SEIXAS, Raul. Réquiem para Uma Flor. (Faixa 9 do disco Por Quem os Sinos Dobram). 1979

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. Tradução: Carlos Alberto R. de Moura – 3ª edição – São Paulo: Martins Fontes, 2006.

BACELAR, Kleverton. “A Vida como Ela É: crítica e clínica em Nietzsche.” Edição: Scarlett Marton. Cadernos Nietzsche (GEN – Grupo de Estudos Nietzsche), n. I (1996): p. 33-52

SCHÜLER, Donaldo. Heráclito e seu (dis)curso. Porto Alegre, RS. L&PM, 2000.

1 comentários:

Fabio Fonseca disse...

Bravo!
Acrescento apenas que o especular (do filósofo) e o reagir (do homem comum) devem andar juntos, pois surgem embricados na maternidade (Carnalidade) e, somente, pela praxis é que seremos verdadeiramente emancipados para entender e construir o mundo.

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