sábado, 27 de novembro de 2010

Evolução, Gripe Suína e Ética

Há algum tempo em meu Blog [1] e em sites que participo, venho trazendo alguns alertas relacionados com questões éticas na área de ciência, pontuando que a ciência, considerada como um método de aquisição de conhecimento seguro, embora tenha um imbricamento com a questão do fazer prático e da tecnologia, não poderia ser responsabilizada pelo mau uso daquilo que traz.

Isso tem provocado reações tanto de cientificistas quanto dos detratores das ciências. Uns pregam um purismo no fazer ciência que fica difícil vê-lo numa sociedade cuja ética de seu sistema econômico se apropria de tudo para o transformar em mercadoria e lucro. Outros pregam um total imbricamento entre o sistema e o fazer ciência, dizendo que a ciência como conhecemos hoje só é o que é por causa dos interesses do sistema por trás dela e de todo fenômeno social humano atual.

ciencia A ciência é um fenômeno histórico e tem em sua ocorrência um sujeito histórico que a faz; disso não podemos duvidar. Que exista um imbricamento entre a forma como ela é feita e o sistema econômico que historicamente a insere como fenômeno humano, também não temos como questionar. No entanto, tanto a ciência enquanto fenômeno humano histórico, quanto os homens que a faz ao longo dos tempos, pouco ou nada tiveram a ver com uma motivação direcionada ao atendimento das necessidades de mercado dos agentes econômicos individuais que compõem o sistema como um todo e é sua mola propulsora.

O fazer ciências está imbricado com motivações individuais e sociais cujos desdobramentos sempre estiveram em voltas da solução de nossos problemas de sobrevivência num mundo inóspito, mas que pode ser conhecido. O direcionamento dessas motivações (justificáveis por si mesmas) para questões de classe e exploração econômica ou para o enriquecimento de alguns se constitui numa questão ética não só pelo uso exploratório de algo que é de todos (e que pode nos ajudar a viver melhor), como também por uma questão de um uso irresponsável que pode nos levar todos à extinção ou a situações catastróficas.

Tapar o sol com a peneira dizendo que os cientistas não tem nada a ver com isso e querer que a ciência, enquanto fenômeno histórico, não possua imbricamento com o sistema que a financia e a faz avançar, é apenas olhar para outro lado e não se responsabilizar pela própria história da qual fazemos parte. Por outro lado, demonizar a ciência como responsável direta por esse tipo de coisa é leviano e superficial. É preciso desenvolver uma visão crítica mais ampla acima de partidarismos, procurando uma coerência dialética.

 

Contextualizando a questão

A questão de fundo nessa introdução que faço, diz respeito à uma má aplicação de um conhecimento científico consolidado, amplamente corroborado e que nos abriu e abre constantemente visões importantíssimas sobre a natureza dos seres vivos e do próprio homem: A TEORIA DA EVOLUÇÃO DE DARWIN.

Darwin_Wallace O conhecimento insuficiente ou não preditivo dos mecanismos da Seleção Natural de Darwin-Wallace nas mãos do interesse econômico irresponsável ou mesmo de políticas governamentais irrefletidas e/ou populistas (sem interferência ou sem uma ampla discussão promovida pela comunidade científica), estão fazendo com que se acelere situações de riscos cujos resultados são imprevisíveis e extremamente preocupantes.

Afora essas questões, as pesquisas dão conta de que 60% dos brasileiros tem o mau hábito da automedicação. Falta de informação e um “deixa pra lá” de cientistas que deveriam se dedicar a um aspecto educacional da ciência frente ao senso-comum repleto de crendices infundadas, engrossam um caldo de acriticidade que preocupa qualquer olhar mais atento.

A questão gira em torno de três situações exemplares que menciono e venho reforçando em meus escritos:

1 – Vacinação em massa contra gripe;

2 – Uso irrestrito e incentivado de bactericidas em enxaguantes bucais e produtos de limpeza;

3 – Produção e criação em escala de animais para abate e consumo.

 

Indo aos Pontos

E como essas situações podem nos preocupar e em que medida elas se circunscrevem no mau uso e em conhecimento insuficiente da Seleção Natural de Darwin-Wallace?

ciencia2 O vírus influenza a cada ano desenvolve novas cepas e evolui franco e direcionado para que seja cada vez mais nocivo, mais mutante e mais resistente aos nossos tratamentos. Qual a relação causa-efeito dessa questão? Podemos ser simplistas e ficar com uma versão senso-comum de que existe um plano de punição ou uma teleologia na evolução do vírus com algum propósito pronto para que uma autoridade o interprete e nos oriente, como sempre foi. Ou podemos usar o próprio conhecimento da Teoria Científica que está por trás das infrutíferas tentativas de controla-lo e entender que a própria não-direcionalidade da adaptação nos confere uma imprevisibilidade que talvez seja melhor (até que tenhamos condições de eliminar a aleatoriedade implícita do sistema) deixar as coisas seguirem suas próprias contingências, sem tantas interferências irresponsáveis.

Cada vez que vamos nos vacinar na campanha em massa contra a gripe promovida pela OMS, são inoculados em nós vírus desativados que precipitam nossos anticorpos para a produção de antígenos que combatem as cepas mapeadas no ano anterior pelos GROGs. [2]

lulavacina600

Quem está familiarizado com o mecanismo lógico, estatístico e científico da Seleção Natural (ou seja, a lógica do seu algoritmo) sabe que em nichos ecológicos que gozam de certo equilíbrio pontuado, uma população mantém estável sua variabilidade gênica, como se esperasse uma mudança no ambiente para oferecer a melhor alternativa de expressividade a ser desenvolvida e predominar. Sabe também que ambientes instáveis coincidem com uma taxa de mutação maior, havendo relação contingenciais intrínsecas. Não vamos especular se o aumento da taxa mutacional é uma resposta de um pool genético a um ambiente instável, como isso pode nos levar a crer, mas pontuamos a concomitância desses fatos como parte do argumento.

Isto posto, não é difícil concluir que a cada ano os GROGs fornecem à OMS dados que a faz desenvolver vacinas que adaptam artificialmente o corpo humano às variações naturais do Influenza, podendo provocar uma taxa de mutação maior no vírus. Isso, aliado à eliminação de cepas menos resistentes, proporciona um ambiente propício para a livre proliferação das cepas mais resistências, que crescem não só em número, quanto em formas alternativas cada vez mais nocivas esperando o ambiente certo para agir com toda a sua potencialidade.

Conclusão I: a OMS e o governo (possivelmente na melhor das intenções), estão nos transformando em criadouros artificiais de vírus cada vez mais resistentes e potencialmente nocivos a nós mesmos.

Concomitante a isso a indústria de higiene promove a consolidação de uma cultura do “clean” e da assepsia cada vez mais intensa no senso-comum, quase que nos obrigando a assumir posturas de consumo que promova a mesma coisa que a vacinação em massa pode provocar.

Cada vez que usamos um enxaguante bucal ou um sabonete protetor com o princípio ativo do triclosan, eliminamos uma série de bactérias inofensivas e abrimos caminho para as mais poderosas e nocivas proliferarem à vontade, pois a dose usada não as atinge. Limpa? Sim, limpa. Mas não naturalmente e promovendo o equilíbrio ecológico necessário para evitar riscos de descontrole total.

mythbusters-listerine

Propagandas e campanhas publicitárias milionárias passam a imagem que esses produtos realmente protegem, mas não mencionam o risco em seu mau uso nem tampouco nos alerta sobre nada que possa comprometer sua sede de venda crescente. Recentemente contrataram os Caçadores de Mitos, que se tornaram populares por aplicar o conhecimento científico para derrubar mitos e lendas urbanas no canal pago Discovery Chanel. A Listerine Brasil se manifesta sobre a escolha nos seguintes termos:

“Nosso objetivo com a campanha é principalmente educar o consumidor em relação à importância do uso de Listerine na rotina diária de higiene oral. Além disso, escolhemos os ”Caçadores de Mitos” porque eles conseguem transmitir credibilidade, humor e irreverência e esses valores estão alinhados à identidade da marca” [3]

E a ciência não se manifesta. Assistimos a nós mesmos sendo convencidos a nos transformar em criadouros de superbactérias e supervírus que, não demoram, tomarão as rédeas e destino de nossas próprias vidas.

Conclusão II: estamos sendo treinados pela cultura representada pelo capital a sistematicamente assumirmos práticas que nos transformam em criadouros artificiais de vírus e bactérias cada vez mais fortes, resistentes e com potencial destrutivo de forma imprevisível.

gripesuina1 Por fim, a indústria de alimento, mais precisamente da criação e abate de gado em escala industrial, levando em consideração o que já foi dito, faz com que pensemos em qual escala eles usam o conhecimento científico de forma insuficiente e conspurcado pelo interesse econômico para oferecer um risco crescente e alarmante em direção a problemas que podem fugir completamente do controle humano.

Raciocinemos juntos. Se o efeito das vacinas aplicadas em nós na legítima intenção de nos proteger pode estar nos causando danos irreparáveis e, sobretudo, se a indústria e seu interesse associa a imagem científica a produtos dos quais seu mau uso pode também nos causar (e nos causa) danos irreparáveis e imprevisíveis, inclusive prestando franca desinformação ou mesmo nos iludindo para vender cada vez mais, o que poderíamos esperar da indústria de criação e abate de carne? Simples: Gripe Aviária e Gripe Suína [4].

Longe de ser uma teoria da conspiração em que a malvada indústria ou o governo (ou ambos em conluio) pretendam matar aqueles que os sustentam ao consumir o que produz, parece-me ser apenas a reprodução de uma lógica intrínseca à própria dinâmica do capitalismo enquanto sistema globalizado e ético que determina as relações entre os agentes que o compõe.

Não é difícil de perceber os efeitos possíveis da aplicação maciça de remédios e vacinações com o intuito de promover uma carne extremamente saudável e própria para o consumo de uma sociedade cada vez mais preocupada com assepsia ideológica, mas que esconde suas próprias mazelas e falta de autonomia.

industria1

A ação, alastramento e a capacidade mutacional do vírus da Gripe Suína, por mais assustador que se coloque à nossa percepção, é facilmente explicável pela Teoria da Evolução e da Seleção Natural. Esse vírus, possivelmente, plausivelmente e com extrema verossimilhança (por mais redundante que pareça), está sendo selecionado sistematicamente, evolutivamente e artificialmente ao longo do tempo através de práticas sucessivas de vacinação e controle de doenças.

O detalhe mais cruel nessa constatação é que todos nós esperamos e torcemos para que seja assim. Instituímos vigilâncias sanitárias que fiscalizam e garantem que seja exatamente assim. Não tem como esperar que seja diferente do que é, pois uma indústria que confina seres vivos em espaços exíguos e totalmente diferentes de seus habitats, precisa pqvegan22fazer de tudo e mais um pouco para garantir nossas neuroses e ilusões de estarmos nos alimentando com o melhor do que pode ser oferecido.

Porém, essa indústria que faz exatamente o que esperamos dela, para cumprir nossas próprias exigências, estimula essas criaturas a produzirem em seus anticorpos, artificialmente e em tempo recorde, toda a sorte de antígenos para as mais diversas cepas de vírus e bactérias, selecionando automaticamente os mais vigorosos, destrutivos e com potencial mutacional para proliferarem e receberem o melhor acabamento existencial possível em sua eficácia.

Não me parece necessário extrair disso tudo uma terceira conclusão, porém dois pensamentos parecem se impor para que reflitamos.

1. Por que a comunidade científica, na constatação de um uso equivocado de um conhecimento científico, não vem a público promover um amplo debate sobre as práticas que o senso-comum toma como normais e que podem estar nos levando todos à extinção?

2, Por que, por outro lado, os detratores das ciências acusam levianamente a ciência de promover esse estado geral das coisas e esquecem-se da ética capitalista que está por trás do mau uso do conhecimento científico obrigando a própria comunidade científica a não se posicionar eticamente sobre isso?

Talvez seja hora de pensarmos sobre nosso próprios estilo de vida industrial e dimensionarmos até que ponto nós mesmos somos responsáveis por aquilo que acontece quando nos alienamos e deixamos as estruturas e instituições formais nos tutelarem, abrindo mão de nossa autonomia e de nossa necessária liberdade em decidirmos nossos próprios destinos.

 

Notas:

[1] – Poderão ler uma reflexão sobre isso nos seguintes artigos do Blog Filosofando na Penumbra:

Alerta, Seleção Artificial

Faca, Gumes e Reflexões sobre a Cegueira

O Saber Científico e a Gripe Suína

[2] – Para saber mais sobre vacinação, além do site da OMS, consulte: Vacina.

[3] – Palavras de Eduardo Siqueira, gerente de Listerine Brasil, no site Alept.com

[4] – Leia as perguntas e respostas na Veja: Gripe Suína: Entenda como a Epidemia Começou

7 comentários:

Anônimo disse...

Em breve a anestesia mental do início do século XXI passará, Miranda. Você, em suas leituras, já deve ter percebido que o mundo está a poucos passos de uma revolução intelectual, que provavelmente será motivada pelas constantes crises financeiras e políticas, e pelas constantes falhas em se ocultar abusos de corporações envolvendo a saúde pública.

A apatia que nos rodeia, a falta de crítica em diversas áreas, a sensação de que governos andam errando demais, o avanço do islamismo na Europa, do criacionismo irresponsável nos Estados Unidos (afetando também escolas tradicionais brasileiras e argentinas), o incrível desenvolvimento econômico asiático, e claro, as novas tecnologias.

Sim, tenho muito a comentar mas já não consigo manter tantos textos como antes.

Talves estes links lhe sejam úteis.

www.taps.org.br/pdf/Vacinao%20A%20Verdade%20Oculta.pdf

http://www.cienciahoje.pt/66


Abraços, Cleiton Oliveira.

Gilberto Miranda Jr. disse...

Prezado Cleiton, obrigado por escrever, faz tempo que não conversamos, não é?

Eu ainda não tenho um posicionamento preditivo em relação à essa percepção que você menciona. Penso que se trata sim de uma possibilidade, mas existe outra e é essa que me preocupa: a de que estamos à beira de uma revolução (mais uma) messiânica.

Na história do mundo, toda crise, quando aprofundada, tornou-nos suscetível à busca de “salvadores” (seja personificado em alguém, em uma nação ou mesmo em um corpo de idéia modelar). O homem, desde que saiu do nomadismo e se tornou sedentário no neolítico, fixou o mundo para seu conforto. Toda mudança ficou na mão de poucos. Esses poucos, por sua vez, muitas vezes até com intenções legítimas, criaram via Vontade de Potência instituições mais engessantes que os modelos anteriores. A tirania, o totalitarismo e a perda da liberdade são filhos dessa sede messiânica de tutelagem e alienação que temos enquanto humanidade.

Gostaria de acreditar em outro nível de revolução, amigo. Uma revolução em que a intelectualidade se virasse contra ela própria e criasse novas categorias de entendimento do mundo. E essa, a meu ver, ainda está longe. Tenho receio que os mesmos modelos revolucionários se repitam e caiamos novamente nas mesmas mudanças superficiais de sempre: as que tutelam o ser humano e o aliena para o absolutismo de modelos que beneficiam circunstancialmente um punhado de pessoas (mesmo que em um primeiro momento seja cercado de boas intenções).

Essa percepção só será causa de uma revolução nos moldes que queremos, quando o ser humano ver como causa do estado atual das coisas a sua própria apatia e irresponsabilidade do que está acontecendo em sua volta. Sem isso, ele sempre procurará uma solução de fora e se alienará de sua responsabilidade pelas mudanças, sendo tutelado pelos “mais espertos”.

Mas de que forma se o sistema nos quer rebanho? E seu oposto, igualmente, nos quer rebanho? Há de surgir uma terceira via? Mas já não surgiu como síntese das duas? Essa terceira via deverá romper o dualismo e estar além ou aquém de tudo o que conhecemos hoje como alternativa viável, tendo como cerne a responsabilização individual das pessoas e um profundo respeito à diversidade. Chega de caminhos únicos excludentes e isolados: autonomia e sustentabilidade parecem ser os conceitos do por-vir.

O que acha? Abraços...

Cleiton Oliveira disse...

O que difere aquele que dita as regras e aquele que as obedece? Não somos todos, em determinado nível, rebanho? Existem diferentes níveis de submissão intelectual?

E onde estaria, no pensamento de alguém que não se importa de seguir regras sem contestar, a diferença entre o mundo ideal para todos e o mundo ideal apenas para si mesmo?

E onde estaria, em alguém que busca compreender o que acontece à sua volta, o limite entre o ser e o vir a ser?

Até onde o rebanho quer deixar de ser rebanho quando existe uma satisfação, mesmo que fabricada? Não é a satisfação em detrimento da compreensão a prioridade?

Não creio que o sistema nos quer rebanho, creio que o rebanho quer ser assim, e é tentador. Quando paramos de duvidar e questionar, imediatamente aceitamos o que nos está à mostra, mesmo que um dia isso tenha sido revolucionário.

Questionar é desconstruir. Como convencer alguém a desconstruir o que é estabelecido como verdade? Para ele isso não seria destruir? Não é amedrontador?

Gilberto Miranda Jr. disse...

Puxa, vc coloca coisas bem incômodas. Por uma questão de princípio adotei duas posturas diante da vida e da realidade que me chega:

1 – Não há uma única verdade alcançável a partir de nossa condição humana;
2 – Não há como transcender nossa condição humana, por mais que os que se acham detentores de uma única verdade nos confortem dizendo que sim.

Esses dois princípios me bastam para questionar meu próprio conforto. É óbvio que estamos sempre com o “dedo inconsciente” no “piloto automático” quando as coisas estão confortáveis e não sei exatamente como fazer para insistirmos em nos conspurcar para saber se quando estamos “bem”, realmente estamos “bem” ou se poderíamos estar melhor, diferentes ou etc. Ou até como vencer a apatia indo ao encontro da empatia e procurar também o conforto melhor para o que nos cercam.

Sempre haverá uma pergunta por trás disso: “Para quê?”

E é por isso que a diversidade é importante. Pois é preciso o diferente e o múltiplo para que seja mostrado para os “confortáveis” que esse conforto pode ser ilusório, pode ser diferente, ou até que existam confortos mais amplos e que seja necessária uma parcela de sacrifício para que um maior número de pessoas também possa ter as benesses do mínimo necessário.

A única forma de aceitarmos nos conspurcar em nosso conforto é abrigando o múltiplo e o diferente em nosso convívio e assumindo definitivamente o princípio do respeito e a não-hierarquização das relações sociais. Sou heterossexual, branco e economicamente ativo numa sociedade que me privilegia. Ser capaz de lutar e não concordar com minha própria idiossincrasia é uma conspurcação constante que eu não faria se não aceitasse como princípio os dois pontos que menciono nessa resposta.

Não há um “querer” do sistema para que sejamos rebanho, concordo com você. Mas não há benefício maior para o sistema do que essa condição de rebanho.

Poxa, escreva mais, está muito bom esse papo!!!

Cleiton disse...

Estive pensando esses dias a respeito do tema.

Notei que talvez existam poucas formas de sermos capazes de mudar os hábitos de alguém através da linguagem, ou seja, de influenciarmos diretamente várias pessoas com a mesma informação. Mas ao mesmo tempo esbarramos na ética, onde está nosso direito de dizermos a alguém que o que ela faz está errado? Como posso confiar e seguir os conselhos desta ou daquela pessoa, quando ela tenta mudar minha forma de pensar?

Repare que talvez a chave de tudo seja a linguagem, a comunicação. A forma como a informação é transmitida, como pessoas a recebem.

Olhos e ouvidos preparados percebem as sutilezas da enxurrada de propaganda que nos afeta desde a popularização da TV há (já) tantos anos. Mas existe um erro aí. Todos nós vemos o que está acontecendo de várias formas. Tentamos transmitir que há algo errado, nos concentramos em juntar dados, citações, criamos textos coerentes. A informação está lá, está aqui em seu blog, está por toda parte. O que falta, então?

Enquanto isso existem pessoas físicas e jurídicas juntando dados e citações, criando textos coerentes, colocando uma dose de credibilidade, enfeitando com algo estimulante a dois ou três sentidos, como a visão, olfato e o toque, e acrescentando mais valor ainda com o próprio preço do produto. Somos treinados para isso há muitos anos: o que é barato pode sair caro.

Pois na minha humilde opinião, quem mais precisa ler textos relevantes como as informações que você evidencia aqui não lerá. O próprio ambiente, a própria linguagem seleciona seus leitores. E isto é um elogio, não duvide, rs.

Deixarei aqui um vídeo que vi alguns meses atrás, e que ilustra muito bem o que estou tentando dizer. Ele é um vídeo estadunidense para estadunidenses, feito claramente com linguagem simplificada, demonstrando assim que tem um alvo: qualquer pessoa, parece mais uma videoaula para escolas primárias. Propaganda, mas com boas intenções.

Creio ser bem relevante, espero que goste, principalmente da explicação sobre Victor Lebow.

http://www.youtube.com/watch?v=3c88_Z0FF4k

Daniel disse...

Caro Gilberto,

Meu nome é Daniel, curso o último ano de graduação em Ciências Biológicas e participo de um trabalho de pesquisa na área de Sistemática e evolução animal além de ministrar aulas de biologia. Gostei muito do seu texto e acredito que como processo sócio-histórico, a ciência é diretamente influenciada pela cultura, e pelo meio em que o pesquisador se insere. Concordo que essa influência é muitas vezes prejudicial, visto o fato de inúmeras pesquisas atrasadas devido a problemas com patentes, ou áreas importantes negligenciadas por não possuirem um retorno econômico imediato. Gostaria de, no entanto, discordar de alguns pontos apresentados no texto.
O uso de antibióticos e antissépticos de forma indiscriminada, pode sim, ser prejudicial ao selecionar cepas mais resistentes. Entretanto, dizer que a vacinação em massa é prejudicial vai um pouco longe demais. Se refletirmos sobre seu argumento acabaremos chegando a conclusão que toda a medicina é um erro, pois toda prática médica é sem dúvida não natural e de alguma forma capaz de selecionar patógenos mais resistentes. Se pudessemos voltar no tempoantes olharmos para, por exemplo, o número de mortos durante a gripe espanhola, ou da peste bulbônica, podemos concluir que deixar a seleção natural agir, talvez não seja uma alternativa tão atraente assim....
Além disso, as vacinas também são produzidas por cientistas, e como você bem sabe são utilizadas nas vacinas determinadas proteínas ou material genético virais, por exemplo. Quando uma vacina é desenvolvida o pesquisador deve escolher ( o termo escolher simplifica o processo bastante, mas é mais ou menos isso) um "alvo", ou seja o antígeno que será utilizado. Costuma-se utilizar regiões do DNA do vírus ou proteínas de importância vital para a reprodução e desenvolvimento viral, regiões estas menos sujeitas a mutações, devido a própria seleção natural. É necessário conscientizar as pessoas, inclusive alguns médicos, sobre o uso consciente de medicamentos e as implicações da seleção natural, nisso concordo com você. Mas dizer que a vacinação em massa é prejudicial, acho um pouco longe.
Outra coisa que queria comentar, é que como já disse dou aula de biologia, e gostaria de utilizar o seu texto para discutir com meus alunos sobre como funciona a ciência, bem como os tópicos que levantei aqui.

Obrigado,
Daniel

Gilberto Miranda Jr. disse...

Prezado Daniel, antes de mais nada minhas sinceras desculpas pela demora em te escrever. As coisas foram se acumulando e fui deixando para responder com mais vagar e ponderação, aí tudo se atropelou. Espero que aceite minhas desculpas e não entenda, de forma alguma, descaso com suas importantíssimas indagações.

Em primeiro lugar, está mais do que autorizado o uso de meu texto para a suas aulas. Até porque o Blog participa do Creative Commons, exigindo apenas o uso não comercial e a atribuição de autoria. Honra-me muito o interesse pelo que escrevi e, sinceramente, suscitar discordância é o que alimenta o constante burilar de meu pensamento em busca de esclarecimento.

Em segundo lugar, congratulo-me com você, enquanto homem da ciência, em assumir este aspecto sócio-histórico do fazer científico. É muito bom ver a lucidez com que encara a sua atividade. Muitos ainda alimentam aquela ilusão de que o fazer ciência encontra-se de alguma forma atrelado a um desvendar metafísico e teleológico da natureza. É esse tipo de pensamento que atrasa o conhecimento e o impede de ser o que é: práxis e melhoria.

Em terceiro lugar gostaria de me deter em sua crítica. Ela é pertinente sim. De forma alguma eu encaro crítica como desaprovação sumária. Crítica é descer à raiz de uma linha de raciocínio e analisar as possíveis conseqüências dele. É o que você faz com muita propriedade. Vamos à ela...

Penso que seja possível sim chegar à conclusão que você alerta, ou seja, que a vacinação em massa é prejudicial e a medicina em alguns casos é um erro. Mas só seria possível chegar a essa conclusão estrita se já houvesse um pressuposto nessa direção. Pelo texto em si, eu fiz questão de usar termos não absolutos para evitar (numa mente que possua capacidade crítica) que houvesse extrapolações temerárias. Termos como “é possível” e “pode ser”, a meu ver, eliminaria o aspecto alarmista e irresponsável de acusar a vacinação e a medicina daquilo que elas pretendem combater.

Você mesmo admite em seu comentário que o “uso de antibióticos e anticépticos de forma indiscriminada, pode sim, ser prejudicial ao selecionar cepas mais resistentes”, mas discorda que daí não se segue, necessariamente, que a vacinação se enquadre como “indiscriminada” e promova os mesmos efeitos. No entanto para que não se siga essa conclusão de forma necessária, seria preciso que analisemos a validade dos critérios utilizados para a preparação dos antígenos utilizados na vacinação em massa. Os critérios, que hoje se resume no mapeamento da variabilidade do ano anterior, dentro de um contexto que potencialmente aumenta a velocidade da produção de variabilidade, “pode” estar equivocado.

Veja, caro Daniel, que relaciono 3 casos exemplares que se co-relacionam para a conclusão de um mal uso do conhecimento científico: a automedicação e uso irrestrito de bactericidas, produção e criação em escala de animais de abate e a vacinação em massa. A vacinação em massa isolada não oferece perigo, sendo um grande aliado ao controle de doenças e cepas bacterianas. Mas ela não está isolada. Ela se conjumina com todo um contexto cultural que já seleciona e aumenta a velocidade da variação de tipos de forma perigosa, podendo nesse caso, ser um selecionador de alto risco.

Ou seja, a vacinação só é prejudicial aliada ao contexto onde ela está inserida e não é (e nem poderia ser) prejudicial como método em si mesmo. Portanto a medicina “pode” acabar sendo um erro quando ela se coloca fora do contexto onde é aplicada. É esse o alerta.

Seu comentário enriqueceu muito meu texto e te agradeço demais por ele. Grande abraço e por favor, mantenha contato.

Mais uma vez obrigado e desculpe o atraso na resposta.

Abraços

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