domingo, 14 de novembro de 2010

A Morte de Deus, o Deus que Dança e o Devir…

"É verdade: amamos a vida não porque estejamos habituados à vida, mas ao amor. Há sempre o seu quê de loucura no amor; mas também há sempre o seu quê de razão na loucura.

E eu, que estou bem com a vida, creio que para saber de felicidade não há como as borboletas e as bolhas de sabão, e o que se lhes assemelhe entre os homens. Ver revolutear essas almas aladas e loucas, encantadoras e buliçosas, é o que arranca a Zaratustra lágrimas e canções.

Eu só poderia crer num Deus que soubesse dançar.”

(NIETZSCHE, Friedrich W. Assim Falou Zaratustra. Os Discursos de Zaratustra. Ler e Escrever. p. 36. Tradução José Mendes de Souza. Fonte Digital eBooksBrasil.com)

arvore E eu também. Penso que só um Deus que soubesse dançar não estaria morto como anuncia o louco na Gaia Ciência de Nietzsche. Por conceber um Deus fixo, imutável, carrancudo, ideal, ou melhor, por sermos tão soberbos em determinar como Deus deva ser, é que o tornamos tudo aquilo que precisamos que Ele seja para compensar nosso complexo de inferioridade.

Depositamos tudo o que não conseguimos ser em Deus; resignados, na esperança de que, pelo menos, sejamos amparados por Ele na reunião de tudo o que tomamos como perfeito. Mas perfeição, para nós, é ter o controle de tudo, ter tudo sob nosso domínio, sermos capazes de prever os menores acontecimentos e driblarmos todas as dificuldades. Ora, se não conseguimos, se algo assim está totalmente fora do alcance visível de nossa vida, precisamos eleger um Ser que tenha esse domínio total e que possa nos proteger em nossa pequenez. Se a partir de Sócrates esse “Ser” poderia ser atingido pela razão, na Idade Média foi substituído pela idéia do Deus judaico-cristão, e na modernidade pela ciência e pelo pleno domínio racional da natureza pretendido pelos iluministas e positivistas.

Deus morre, segundo Nietzsche, quando a humanidade sai da tutela da religião e retoma o racionalismo platônico colocando o homem como microcosmo e a ciência como redentora de nossa humanidade. Substituímos um pelo outro mas ainda nos colocamos fragmentados e reféns de um racionalismo que nos aparta de nossa totalidade.

Deus ou a divindade para Nietzsche, é o mistério do constante devir, do movimento incessante e da eterna mobilidade que nos faz o que somos. Para ele toda a moralidade ocidental procurou nos afastar de nossa totalidade negando a vida e procurando solução para o devir através de vãs esperanças numa vida além; em que tudo aquilo que acreditamos necessitar se reúna em requintes inefáveis, fixos e imutáveis.

Conceitos como “eterno”, “infinito” e “imutável” são conceitos que emergem de nossa incapacidade de detectar duração, término ou movimento em coisas que vemos e percebemos. A partir de nossa incapacidade, acabamos por determinar a realidade. Isso, na melhor das hipóteses, é desonestidade intelectual para conosco mesmo. Sempre tomamos a ausência de evidências como evidência da ausência, parafraseando Carl Segan. Na pior das hipóteses se constitui numa ótima ferramenta de dominação e opressão quando alguém ou uma instituição se coloca como fiel tradutor desses conceitos, tomando-os não como limitações de nossa natureza, mas como evidência da realidade daquilo que não conseguimos abarcar.

The-National-Ballet-of-Cuba-2001-Print-C10093825 Nietzsche não tem nada contra Cristo, nada contra a divindade, nada contra Deus. Ele denuncia justamente o quanto a ocidentalidade matou Deus e nos deixou desamparados frente a uma realidade interpretada apenas de uma forma; uma realidade insondável e multifacetada que só se revela na totalidade de nosso mergulho no fenômeno da vida, com todas as suas contradições. O Deus que Dança é o que se movimenta com a vida que Ele engendra no mundo, e não aquele que se imobiliza e profere um mundo falso, uma vida pecaminosa e cheia de culpa para nos fazer fugir da responsabilidade de vive-la e nos refugiarmos na esperança de uma outra vida. O Deus que Dança não quer que fujamos das contradições de estarmos vivos, quer que assumamos a responsabilidade de enfrentarmos essas contradições, sem que precisemos nos submeter à tradições anacrônicas, ou nos refugiarmos em esperanças futuras, nem tampouco nos deixar levar por um aqui e agora do qual tomamos como fatalista, embora seja trágico.

Esse Deus que Dança nos quer sobre-humanos, pois o fenômeno humano se restringiu, desde Platão, a somente um aspecto da vida: ao ideal. O Ideal reproduz o passado e se refugia no futuro, e perde o presente. O Sobre-humano é o que se coloca no aqui e agora e se assume integral para tomar suas decisões de forma consciente, sem reproduzir automaticamente o passado nem se castrar para merecer um futuro ideal. É a isso que se resume a força, a vida como Vontade de Potência, que atua nas circunstâncias para dar contornos para um futuro desejável, mas dialético.

A Vontade de Potência não é o domínio e a opressão dos outros, não é um desejo de poder arbitrário e antiético, é assumir-se no aqui e agora e construir seus valores de acordo com as circunstâncias em dialética com o respeito à totalidade da sua história e de seus propósitos. Aqueles que negam a vida, que se fragmentam, que precisam se refugiar na culpa e no ressentimento, estabelecem a fraqueza como valor moral maior. É fraco aquele que se submete sem questionar, sem criticar, sem construir ou perceber a ressonância daquilo que pratica em si mesmo como fenômeno vivo, móvel e fazendo parte de seu ser. O Sobre-humano é o ser independente que conquista sua autonomia no respeito à totalidade da vida, à natureza, ao outro, sem que com isso tenha que reproduzir irrefletidamente a tradição ou refugiar-se numa recompensa futura. Sair dessas amarras é a transvaloração dos valores de Nietzsche.

Uma religião que tira o ser humano da vida e o transforma tutelado de interesses alheios a ele é niilista, pois fragmenta o homem e tira dele a responsabilidade por seu destino com respeito ao devir e ao mistério do qual participa enquanto fenômeno existencial. O mesmo faz o racionalismo que estabelece instâncias ideais tentando dar fundamento à totalidade da realidade, mas que só pode ser vivida nela própria de dentro de nossa carnalidade enquanto seres no mundo.

nas-maos-do-senhor-copia A Morte de Deus simboliza, na percepção de Nietzsche no séc. XIX, o ápice do iluminismo e da idéia de progresso, que colocam nossas expectativas num futuro sem mistérios e redentor, desta feita a partir do conhecimento científico. Se antes éramos tutelados pela idéia de um céu e regulávamos nossa moralidade pelo medo do inferno ou de permanecermos na “caverna”, agora nos largamos vítimas de quem tem o poder para nos subjugar na esperança redentora de um progresso necessário que nos daria uma fatia daquilo que gerar. Nos entregamos todos a um niilismo que nos rouba da satisfação do aqui e agora responsável que nos faria ver-nos como uma totalidade que participa do fenômeno da vida em um futuro que podemos escolher.

Na verdade, Deus morre com Platão, com o início da decadência que torna o homem menos do que é. A maior fonte de prazer, a que a humanidade deve sua qualidade humana, é empobrecida por um racionalismo que provoca uma cisão no homem enquanto fenômeno e separa seu corpo de sua mente. A crítica de Nietzsche em relação ao racionalismo platônico se dá na medida em que ele percebe historicamente esse racionalismo presente e matando parte da vida, tomada como fenômeno pleno, e a retirando da centralidade da história. Começa com Platão, é apropriada pela cultura judaica-cristã e adquire requintes de crueldade com o advento da ciência positivista. Podemos ver isso no aforismo 251 de Humano, Demasiado Humano, intitulado “O Futuro da Ciência”:

A ciência dá muita satisfação a quem nela trabalha e pesquisa, e muito pouca a quem aprende seus resultados... Ora, se a ciência proporciona cada vez menos alegria e, lançando suspeita sobre a metafísica, religião e arte consoladoras, subtrai cada vez mais alegria, então se empobrece cada vez a maior fonte de prazer, a que o homem deve quase toda a sua humanidade. Por isso uma cultura superior deve dar ao homem um cérebro duplo, como que duas câmeras cerebrais, uma para perceber a ciência, outra para o que não é ciência; uma ao lado da outra, sem se confundirem, separáveis, estanques; isto é uma exigência da saúde. Num domínio a fonte de energia, no outro o regulador: as ilusões, parcialidades e paixões devem ser usadas para aquecer, e mediante o conhecimento científico deve-se evitar as conseqüências malignas e perigosas de um superaquecimento”.

Essa cultura superior Nietzsche viu na Grécia Arcaica e no advento da Filosofia antes de Sócrates. O modo de pensar ocidental ganha contornos definitivos a partir de Sócrates e da metafísica platônica, aquela que cinde o homem, o fragmenta em dois mundo e estabelece que o mundo ideal é o verdadeiro, e o devir, o sensível é ilusão e transitório. O modelo de pensamento do mundo ocidental, segundo Nietzsche, é socrático-platônico, do qual tiramos a idéia da crença numa verdade fixa e imutável, e que o cristianismo institucionalizado como fenômeno moral, se apropria e dissemina sincretizando-se com o racionalismo. É o início da decadência e do advento do niilismo.

cr-atlas_promet Na Grécia Arcaica, antes do racionalismo platônico, a arte era mediadora entre a percepção da realidade e o homem; o mistério da vida era experimentado em toda sua totalidade e contradições através do mito. Não havia um idéia clara de verdade como crença de objetividade, mas sim a de um Logos como um dizer que apreende aspectos realidade, mas que considera o devir como seu constituinte. Bastava ao pensamento pré-socrático a busca de um princípio originário que representasse como as coisas mudam e se colocam à nossa percepção de maneira fluídica e em constante transformação. Todos os pré-socráticos se preocuparam com a questão do devir, seja para tentar negá-lo como realidade (como Parmênides) ou para entende-lo e interpreta-lo como constituinte da realidade (como Heráclito).

Os pré-socráticos, para Nietzsche, eram os verdadeiros filósofos, pois reuniam de igual maneira a arte, o pensamento e o saber e consideravam o homem em sua totalidade diante da vida, sem um acesso privilegiado da razão para perscruta-la.

Nesse tempo, qualquer Deus concebido deveria abarcar essa realidade em constante transformação e mutação. E se Deus é “eterno”, então houve uma época em que ele dançava, mudava e bailava ao som e ao ritmo de sua própria criação, porém encarceraram Deus na razão e o fizeram parar de dançar. E assim fizeram ao homem, como imagem e semelhança de Deus: castraram-no, o fizeram menos, o encarceraram em dogmas e crenças que o tira da criatividade necessária e do desprendimento dos padrões para construir seu futuro com liberdade e autonomia.

ubermensch O Super-Homem, ou o Sobre-Humano (ou ainda o Além-Homem) metaforizado em Zaratustra, aponta para o surgimento de uma Nova Ética pautada na afirmação da vida e numa nova postura humana diante da existência. O Sobre-Humano é aquele que se assume frágil diante da existência, mas não precisa buscar força na negação da vida e na esperança do além; ele faz de seu dia a dia uma luta que o torna íntegro e totalizado frente as contradições e mistérios da existência. Por isso ele é Forte. É preciso superar aquele homem que até agora se fez como padrão de humanidade, o homem carente que precisa de ídolos (leia-se ideais) para preencher seu complexo de inferioridade. O Forte não é aquele que nega sua fragilidade, mas que cria valores levando-a em conta e assume sua responsabilidade por eles. O Fraco é aquele que elege ídolos pra protege-lo, seja fora dele, seja se considerando como tal, idealizando uma realidade ilusória e criando valores para sua perpetuação e fixidez. O Fraco se inferioriza para divinizar somente um aspecto de sua totalidade ou então se exalta em exagero, privilegiando também somente um aspecto da sua totalidade. A história do pensamento humano, construída a partir de Sócrates e Platão, exalta a razão como se ela fosse a totalidade da experiência humana na vida e reduz o homem a algo que ele nunca foi e nunca será.

O homem fraco é aquele que assume o projeto de homem do platonismo e do cristianismo e se faz niilistas, segundo Nietzsche, pois nega a vida em sua totalidade e privilegia um fragmento do fenômeno humano, retirando-nos da vida para o além, para um outro mundo; ideal, perfeito. Esse homem fraco não consegue viver a vida como ela é e constrói para si as condições de possibilidade de cristalizar a idéia de Verdade como algo fixo, imutável e objetiva, colocando-a acima do devir e da vida.

bioethics3 Segundo a filósofa Viviane Mosé, a história do conhecimento humano, para Nietzsche, é a história da cristalização da idéia de Verdade e essa idéia, para prevalecer, precisou negar a realidade e a totalidade da vida, já que a vida considerada em seu conjunto guarda seus insondáveis mistérios oriundos de sua constante transformação. É a negação da realidade em nome de uma Verdade única que Nietzsche chamou de Niilismo. O platonismo e o cristianismo (que Nietzsche intitulava de platonismo para o povo) negam a totalidade da vida e a realidade em seu devir constante, sendo portanto niilistas.

A Morte de Deus marca o início da modernidade, quando esse outro mundo perde totalmente o sentido e o além é substituído pelo conceito de progresso e esclarecimento através da técnica e da produção. O Niilismo Negativo, que nega essa vida com a esperança de se viver outra, representado pelo platonismo e posteriormente pelo cristianismo, é substituído pelo Niilismo Reativo, que reage a todo idealismo de outra vida ou da metafísica e engendra a idéia de futuro e de progresso, tendo como símbolo o conhecimento supostamente objetivo da ciência. Esses dois niilismos, seja negativo (idealismo no além) ou reativo (idealismo no progresso), tiram o homem do devir e o irresponsabiliza pelo presente, tornando-o manipulável, controlável e joguete das circunstâncias e vítima de interesses alheios à sua realização enquanto ser humano total. Ambos, ainda segundo Viviane Mosé, fundamentam nossa moral negando o corpo, as sensações (que levam ao pecado e ao erro cartesiano), o aqui e do agora, a contradição e o conflito (próprios da vida) e negam tudo o que se transforma e constroem uma imagem idealizada de ser humano para que todos sigam e se moralizem nesse paradigma de negação da vida.

Para Nietzsche todo idealismo é um niilismo, pois ao refugiar-se num mundo ideal, de valores exageradamente elevados, o homem nega a realidade que o circunda e faz uma filosofia a partir de ideais preconcebidos, ao invés de fazer uma Filosofia que parte do mundo e o explica a partir dele. A superação desse homem está numa condição além-humana (já que fomos determinados a sermos dessa forma como humanos) feita no presente, dia após dia, enfrentando de frente as contradições da vida e respeitando suas limitações sem idealismos que lhe sujeita a ter suas escolhas arrancadas de sua expressividade existencial.

A Ética desse Sobre-Humano, desse Super-Homem, está em inventar-se a si mesmo enfrentando o conflito que está na escolha a ser feita em cada situação que se coloca a sua frente, sem levar em consideração modelos prontos de conduta nem refugiar-se numa esperança ingênua que exista um plano predeterminado para sua vida. Ele assume sua autonomia e respeita a vida, respeita sobretudo a si mesmo e aquele “instante supremo” onde ele lê intuitivamente o mundo a partir da vivência totalizadora de sua existência, e toma a melhor decisão. O homem forte é intenso, sensível e ético, porque assume em si as decisões que toma.

Parece-me ser a missão da contemporaneidade o resgate do Deus que Dança, do Deus que rejeita a pretensão de verdade objetiva do homem e conserva o mistério do fenômeno da vida. Esse Deus não proíbe o homem de buscar o conhecimento científico, nem tampouco o proíbe em sua fé, mas rejeita a irresponsabilidade humana em apoiar-se em ídolos e ideais que tiram sua autonomia de escolher, dialeticamente e na alteridade, seus rumos e destinos enquanto humanidade. Esse Deus não impõe trilhos, ele nos permite sair dos trilhos pela arte e pela estética; que vê no respeito à totalidade, mesmo a parte que não podemos conhecer, a eticidade do homem total, do além-humano. Um Deus que está no devir, junto com o homem, dentro do homem, e o conclama a ser um ser totalizado, mesmo sendo inacabado e, por isso mesmo, sem um propósito específico em sua existência, mas apto a construí-lo por si, para si. Esse Deus não é o homem, nem nada fora dele, não é ídolo nem ideal: é Espírito, é Logos, é o Verbo do mundo participando da vida da qual fomos retirados ao nos permitir fragmentar pela tradição e pela idéia de futuro.

Vamos ressuscitar Deus?

Assista ao Café Filosófico sobre Nietzsche com a Filósofa Viviane Mosé

15 comentários:

Rodrigo Cid disse...

Oi, Miranda. Como vai essa força? Queria tecer algumas considerações.

- O que me parece é que a visão do Nietzsche, segundo apreendi do seu texto, é uma visão voltada para a ética e filosofia prática.

- Parece-me que ele mistura muitas coisas que deveriam ser separadas. Por exemplo: não é porque aceitamos uma metafísica platonista que a nossa ética negará a vida. Na verdade, há muitas éticas platonistas que nos provêm valores que incitam a vida e a tomam como "sagrada". Além disso, a aceitação do platonismo em alguns campos não implica a aceitação em outros, de modo que devemos ter muito cuidado ao fazer a ligação entre ética e metafísica, ou ética e epistemologia, etc.

- Outra coisa certamente foi o seu uso do termo "contradições da vida". Eu gostaria de saber o que vc quer dizer com isso... São as escolhas contrárias que nos aparecem para decidirmos? Porque penso sinceramente que a existência de coisas realmente contraditórias é impossível.

- Devemos ter em mente também que não há qualquer motivo não emotivo para aceitarmos a ética de valorização da vida e do devir que Nietzsche propõe. Tanto quanto pode nao haver também no caso de uma ética que nega a vida.

- Os problemas do devir são tratados dentro da metafísica. Penso ser um erro nosso pensarmos que toda a metafísica não trata do devir. Talvez na época de Nietzsche a metafísica estivesse paralisada, mas hoje em dia não somos assim. Por exemplo, tratamos do problema da identidade pessoal através do tempo, do problema da possibilidade do movimento (com os paradoxos de Zenão), do problema da regularidade ou não da natureza, entre outros. O devir, tanto quanto as abstrações, estão no centro de nossas investigações metafísicas. Uma coisa interessante é que os filósofos que defendem a existência de movimento e devir podem sem problemas defender uma ética que nega a vida, tanto quanto um que negue o devir pode fazer uma ética que "aceite" a vida.

- Será que substituímos mesmo Deus pela ciência? A maioria dos filósofos acreditam que as ciências são epistemicamente virtuosas, mas sabem dos seus defeitos, que não nos permitem dizer que SABEMOS o que as ciências nos dizem. Apenas temos boas razões para acreditar. Alguns nem isso aceitam e dizem que podemos tomar as ciências apenas instrumentalmente. Será que Nietzsche falava sobre os leigos em filosofia ou sobre os filósofos?

- Uma pergunta que nos devemos fazer é se a filosofia é apenas uma disciplina teórica, ou se ela tem uma parte prática que forneceria indicações para a ação (algo além da ética normativa convencional). Nietzsche parece tomar a filosofia como algo que deve estimular a totalidade das virtudes humanas (como a arte, o caráter e o conhecimento). Mas será assim mesmo? Não seria a filosofia algo meramente teórico? Algo apenas relacionado ao conhecimento?

- Outra pergunta seria: será que alguma ética pode assumir que os valores são inventados e mesmo assim preservar a normatividade dos juízos morais? Se ele não pensa ser importante manter a normatividade, como ele poderia defender sua própria ética?

- Se decidimos na hora, não de acordo com padrões morais estabelecidos, mas de acordo com nossos próprios valores, ainda teremos valores que precisarão de justificação (para serem aceitos por outros -- caso queiramos os persuadir -- e nao para serem aceitos por nós mesmos).

Um abraço,

Cid

*Espero que as observações possam ajudar a aprimorar seu ótimo texto.

rapsodo disse...

Olá Grande amigo Gilberto, muito bom esta defesa, a morte de deus,o deus que dança e o devir. É perfeito esta colocação de Nietzsche, porém gostaria ainda de ressaltar, a título de, digamos que uma complementação desnecessária, uma frase de John Lennon em 1970 que está em uma de suas músicas com o nome God, ou seja, "Deus é um conceito pelo qual avaliamos todas as nossas dores". Dito isto, relato o espanto de um dos filósofos da academia dehoniana, diante de tal expressão e curiosamente saiu-se ele com esta: "Deus não é um conceito, caso aceite esta premisssa terei um trabalho danado com ela". Ora, consideremos que não seja um conceito a questão de Deus e então estaria entre um pre conceito e algo indefinido. Quanto a primeira estaria na condição, tendo-se em conta a situação de indefinição que se deduz do que seja um pre conceito, aberta e portanto indefinida que se está por fazer. Assim teríamos uma visão moderna e bem vinda do mundo dos intelectuais religiosos que sempre costumam se defender com elas quando a situação aperta para eles. Quanto a outra possibilidade seria a própria indefinição e então temos a questão de como se parte de um indefinido para algo definido e elaborado, acredito que não é esta questão dos religiosos, pois partem do revelado, ou seja, do dogma. Talvez esta seja uma questão de Edmnd Husserl quando tenta, em seu livro a origem da geometria, definir o surgimento do objeto geomérico capturado na idealidade...

Gilberto Miranda Jr. disse...

Anderson, meu querido rapsodo.

Seu comentário é sintomático, meu amigo. As pessoas (e infelizmente muitos filósofos) assumem somente aquilo que lhes dá conforto. O que causa escárnio, aviltamento e conspurcação são devidamente empurrados debaixo do tapete para que eles preservem seus mundos perfeitos, cheios de sentido, previsíveis... Não deviam ser chamados filósofos. Os artistas (como você) sabe que a vida também é dor, contradição e aviltamento. E é na aceitação da Tragédia que a sentimos em toda a sua plenitude e verdade.

Não discuto a existência ou não de Deus. Discuto esse conceito de Deus que o coloca como ápice e tapa buracos de nossa covardia em enfrentar a vida como ela é. Husserl foi muito feliz, pois que é na idealidade de nossas próprias limitações que tiramos os conceitos pelos quais transcendentemente pautamos a nossa vida. Ou seja, determinamos o mundo pelo que é necessário que ele seja para que sejamos felizes, e não pelo que ele é apesar de nossa possível infelicidade. É preciso, talvez, ser sobre-humano para isso.

Grande abraço meu amigo...

Gilberto Miranda Jr. disse...

Suas considerações são sempre bem vindas, Rodrigo, inclusive me honra muito. Vamos à elas...

1 – Eu não saberia classificar com precisão a Filosofia de Nietzsche, mas a sua apreensão, nesse contexto, parece ser satisfatória. Digamos então, que ele estivesse discorrendo sobre a possibilidade de uma Filosofia Prática e de uma ética. Não vejo grandes problemas em encararmos dessa forma.

2 – Nietzsche, em seus escritos, fala especificamente de uma apropriação cristã platonista e não da totalidade da filosofia platônica, embora como filólogo também tenha estudado e detectado que a visão platônica tenha invertido a determinação da realidade a partir de um mundo da idéias anterior à existência das coisas. É algo como o que acabamos de discutir em seu último artigo de seu Blog. Ou seja, as Leis são anteriores às coisas ou são as coisas em relação complexa que nos permitem estabelecer Leis sob certas condições existenciais? Em seu bojo, a ética platônica é tão cheia de regras que privilegiam o que ele toma como verdadeiro de toda complexidade fenomenológica humana, que acaba por negando a vida para uma bem aventurança pós-vida.

Outrossim, há total implicação política e ética a partir de visões metafísicas. Diria até que toda ética e postura política estão imbricados na forma como fundamentamos a realidade.

Eu e o Samuel estamos às voltas de uma discussão muito interessante sobre a substância das essências. À certa altura eu escrevi a ele:

“O fato de sermos seres essencializadores, não explica porque somos dotados disso, concordo. Mas não é porque não explica é que também precisamos considerar a essencialização uma propriedade da natureza que nossos olhos captam passivamente, não é?

Na verdade vejo que não podemos afirmar categoricamente nem uma coisa nem outra, e a questão vira, de certa forma, ético-política. O que fazer, na prática, em relação a uma ou outra visão. Esse é o grande problema das aporias e dos dilemas. Quando chegamos a eles precisamos decidir com base em algo. A mim, soa-me historicamente perigoso assumir essa capacidade realística de confundir a forma como entendemos e a coisa-em-si como fez Descartes. Nessa questão tendo mais a ser kantiano, embora tenha muitas ressalvas a ele.

Todo o totalitarismo, a usurpação, a exploração humana se baseou na crença infundada (mas também sem refutação convincente – portanto um dilema) de que o homem fosse capaz de saber como o mundo realmente é. Isso categoriza as pessoas e verticaliza as relações, promovendo a opressão, o privilégio e a exploração. Cria autoridades e cria hierarquias, que com o tempo se mostraram abusivas, corrosivas e grandes cancros sociais, embotando a criatividade e tutelando o homem naquilo que ele tem de melhor em minha opinião.

Eis que, por um projeto político pessoal, meu pensamento tende a considerar as essências meras categorias de entendimento, uma ferramenta cognitiva que nos vale circunstancialmente para dominar o mundo na práxis, mas que não explica o mundo como ele é; quiçá teremos um dia esse poder.

Talvez o que nos resta seja um solipsismo social. E se isso for verdade, que ao menos seja dialogado, respeitando a diferença e até incentivando a pluralidade de vozes em busca de consenso. O consenso deve ser buscado sempre, mas sem a opressão e a prevalência de opiniões com base em interesses exclusivamente pessoais. Utópico? De certo que sim, mas essa linha me conduz a considerar um lado da aporia, entende?”

E isso é muito sério. Toda filosofia que concebe o ser humano de uma determinada forma e hierarquiza as formas de ser, é uma ética e uma filosofia política. Sendo que a vida é muito mais ampla e “sagrada” que qualquer hierarquização possível. Não temos fundamentos plausíveis que nos faça determinar um dever-ser para a vida. Eis porque a linhagem órfica-pitagórica-platônica-aristotélica se transforma em uma projeto político além do metafísico.

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Gilberto Miranda Jr. disse...

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3 – Contradições da Vida. Eu, e certamente Nietzsche, usamos esse termo a partir do que Deleuze trouxe mais tarde com o nome de disjunção e diferença. A vida não segue um dever-ser, uma linha, uma razão suficiente além da biológica. Todo o arcabouço conceitual que tenta colocar o homem nos “trilhos” para um determinado fim acaba por falhar, ser incompleto ou deixar de abrigar uma diversidade natural de expectativas e necessidades que vão além das biológicas.

E isso não tem a ver com alternativas contrárias para decidirmos como viver. Tem a ver com a própria vida e as contingências, cujas contradições trouxeram paradigmas niilistas na ocidentalidade: de um lado a negação da vida para uma esperança de redenção futura e de outro um hedonismo desesperançado da barbárie. Tudo isso roubando o que mais caracteriza a vida humana: a autonomia e a liberdade de fazer seu próprio futuro encravado no aqui e no agora.

4 – Se houvesse apenas motivos emotivos para aceitarmos a ética da valorização da vida e do devir, não estaríamos falando de Nietzsche e sim de algum guru. Nietzsche pode até trazê-los, mas como reforço marginal à sua argumentação principal. A ética que nega a vida o faz por conceber uma outra “verdadeira vida”. Na verdade ela não nega a vida, mas despreza a que realmente temos em busca de uma outra idealizada e essencializada numa hierarquização do fenômeno humano. Eis o que Nietzsche chama de negação.

5 – Sobre metafísica e devir. O Devir é o primeiro e talvez derradeiro problema filosófico, caro Rodrigo. À época de Nietzsche o termo metafísica significava estruturas fixas de determinação da realidade. Segundo Heidegger o próprio Nietzsche não saiu da metafísica, embora a negasse nessas características então em voga. Não há relação recíproca e necessária entre aceitação do devir e afirmação da vida, concordo. Mas Nietzsche especifica onde e como essa relação existe, restringindo suas críticas a essas condições de possibilidade.

6 – Substituição de Deus pela Ciência. Nietzsche falava sobre certa intelectualidade e dizia que a postura dos filósofos deveria ser exatamente essa que você descreveu. Seu livro “Aurora” fala sobre isso. No entanto sabemos da soberba dos próprios cientistas, mesmo nesse pós-positivismo, pregando a infalibilidade científica como se ela tivesse substituído as narrativas míticas anteriores ao seu advento.

7 – Penso que a filosofia seja tão somente uma categoria de conhecimento humano cuja maior característica é discutir e criticar o próprio conhecimento humano. Não há nada teórico que não tenha um desdobramento prático, caro Rodrigo. Uma visão de mundo só pode ser considerada como tal se abre possibilidade de agirmos a partir dela. Sem isso, é uma visão inócua, vazia, uma quimera. E filosofia não é quimera. Teoria, ou teorizar, é descrever princípios pelos quais se pode entender a realidade. Sem a realidade não há teoria. E se a teoria não condiz com o real, não é uma boa teoria, é pseudoteoria, fantasia. Concorda?

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Gilberto Miranda Jr. disse...

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8 e 9 – Sobre valores... Os valores são meios, não são fins. Valores são inventados, mas são inventados com um fim, logo se prendem à uma possibilidade prática da qual o mundo se hierarquiza e a realidade é lida. Não há realidade a ser lida sem valores. Conceber que os valores são anteriores à sua aplicação, como instâncias ideais que captamos passivamente, significa conceber um mundo hierarquizado cuja responsabilidade humana é apenas passiva e de obediência. É enrijecer toda e qualquer relação e estabelecer a vida sob o domínio da não-vida, do inefável, do abstrato. Nietzsche traça uma genealogia da moral justamente para demonstrar que os valores são instâncias humanas que cumprem interesses daqueles que tem e querem manter o poder sobre os demais. Isto basta para que pensemos na parcela de responsabilidade para que as coisas sejam como são.

Nietzsche fica na crítica, muito mais do que na prescrição. Sua suposta prescrição é mais um contraponto de redução ao absurdo para justificar a injustificada tábua de valores da ocidentalidade. Ele não quer a volta dos bárbaros, mas melhores tê-los do que vivermos sob um manto hipócrita de dever-ser despropositado e que condena o ser humano à eterna ignorância. O que ele mostra é que hoje, sob o manto de uma necessidade metafísica, são cometidas as mesmas barbáries que eram cometidas às claras pelos nobres antigos. A única diferença é que hoje há uma metafísica que justifica o estado atual. Uma metafísica que nos colocam inseridos à revelia de nós mesmos: religião, capitalismo, tecnocracia, normas de conduta, uso e costumes.

Habermas é que sai desse dilema que Nietzsche nos joga na cara e nos desconcerta. A normatividade pode ser conseguida via consenso democrático. Ela é consenso circunstancial, é dada por projetos de vida e não por instâncias metafísicas determinando o que uma pequena parcela quer.

Grande abraço...

DanDi disse...

Miranda,

De fato Nietzsche ainda não foi entendido em nossa contemporaneidade. O argumento sobre o Niilismo é implacável e mesmo assim vivemos como formigas numa fila indiana com nosso cotidiano.

Já tive esse mesmo embate sobre o termo "niilismo" com um grande amigo ateísta e promotor da evolução científica. Ele concordou com o termo para os ideais do além vida, mas achou que o mesmo para os ideais do progresso e ciência era 'querer cavar um buraco embaixo demais'. (Rs)

Verdades são conceitos ou pequenas pílulas?

Eu só tenho um problema com Nietzsche: quando ele diz que "todo idealismo é um niilismo" e de certa forma acaba pregando um super-homem, quase que vira uma religião seus conceitos sobre isto. Mas bem sei que é a transvaloração, um percurso necessário.

Ou então sou eu um homem da ciência, acostumado em lutar por um ideal de justiça e harmonia? Talvez aqui eu caia no mesmo dilema que meu amigo ateu e tome da pílula idealista...

Reconhecer isto seria viver do modo trágico?

Bom, ainda temos muito o que aprender com o Bigodudo - Meu maior prazer na Filosofia até hoje. sejamos fortes e viva Nietszche!

Gilberto Miranda Jr. disse...

Dandi, seus comentários me engrandecem muito, obrigado...

E o que fez Nietzsche senão cavar o buraco o mais fundo possível? Por isso ele é Nietzsche: o filósofo do por vir...

A questão de fanatizar o conceito de "Sobre-Humano" é justamente ir contra o que Nietzsche falou. Como meros humanos podem conceber o Sobre-Humano ainda sendo humanos? rs...

Nietzsche chega a conclusão que não vemos o real, mas temos perspectivas sobre a realidade. Entre o idealismo e a desesperança (ambas niilistas), ele fica com a justa medida da pulsão dionisíaca, que embriaga, mas nos encrava no real... Reconhecer que a realidade é a meduza que petrifica, mas que o idealismo é o niilismo, nos obriga a sermos artistas de nós mesmos...

Abraços

DanDi disse...
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DanDi disse...

Miranda,

minhas observações podem até parecer imaturas, posto que estudo Filosofia sozinho, sem compromisso e há muito tempo não levo a sério a área, mas é uma indagação que me faço sobre Nietzsche e sua aceitação ultimamente. (Embora eu seja assumidamente admirador do filósofo e seja o pensador que mais fiz leituras sobre)

Quando Hume prega o ceticismo e Kant fala sobre fenômenos eu percebo que chegamos em um grande avanço sobre o que somos enquanto humanos - por mais que Kant tenha pregado um ideal de boa vontade e muitas outras ideias que foram fortemente combatidas por Nietzsche. Mas quando este fala sobre o super-homem, tão além de nossas medidas, me soa como um retorno ao ideal. A isso teríamos de esperar uma evolução biológica, cultural ou seria uma simples tomada de partido, uma epifania de conhecimento? Ou seja, como faz?

Discuto isto não na intenção de fanatizar o conceito "Sobre-Humano", mas de tentar entender como seria a práxis deste conceito em nosso cotidiano. Como poderíamos trazê-lo a tona ou seria apenas para poucos? Ainda mais considerando o mundo em que vivemos, com tantas desigualdades e problemas educacionais.

Por isso já vi gente dizendo que Nietzsche era na verdade um poeta...

Eu entendo o problema do idealismo que Nietzsche via na Grande Política, mas temos um grande percurso para alcançar um momento em que possa haver muitos pensadores livres, sem as amarras do determinismo social como temos em nosso país, por exemplo.

Talvez esteja eu confundindo conceitos como de utopia, e Nietzsche seja muito mais rasteiro. Continuo divagando com Nietzsche.

Abs!

*Apaguei minha postagem pois havia uma frase muito mal formulada, que daria a entender errado conceitos que queria discutir. :)

DanDi disse...

Ok, fiz mais leituras sobre o assunto e achei que chovi no molhado... hahahaha

Sabe o que era, Miranda: Parecia-me que esse super-homem seria apenas para pessoas geniais, um instinto poético, uma epifania dionisíaca. Isso me irritava profundamente, pois parecia uma aceitação dum ideal longinquo. Nietzsche fez mesmo foi cavar mais fundo ainda. E seu discurso nada tem a ver com a resignação de filosofias como as de Schopenhauer ou das religiões orientais que buscavam o Nada na contemplação.

Por quê eu me irrito profundamente com isto: Pois esta 'aceitação' tira a força do homem que pode sim mudar a sua realidade, fazendo-o se tornar apático e incapaz, voltado para o niilismo, seja ele o religioso ou o idealista que espera um futuro salvador. Bom, estes não são nada próximo do que falava o AntiCristo.

Por quê eu falo isso: A leitura de seu texto e meus estudos posteriores, somado ao que já tinha lido em Nieztsche só me fizeram ter mais certeza. Mas não se trata mais de um ideal. Falo isso porque estou cada vez mais engajado na Política e na certeza de poder fazer algo de útil a nosso mundo de hoje. Não queria que isso fosse julgado como um mero 'idealismo'...

Obrigado pelos esclarecimentos!

Forte abraço.

Gilberto Miranda Jr. disse...

Prezado amigo Dandi,

Como e baseado em que parâmetros falar em maturidade? Nunca soube o que é ser maduro rsrsrs. Sou muito ressabiado com pensamentos pretensamente maduros. Construímos conclusões e pensamentos baseados em perspectivas e não conheço um pensamento que se pretenda progressista ou maduro que não caia numa só vertente de um modo de pensar. Se nossa busca é pela verdade e já que estamos falando do bigodudo, melhor assumirmos que a verdade seja ampla, provisória e multifacetada. Logo, amadurecer é fechar-se em uma só perspectiva. Portanto, que bom que somos imaturos, ora essa RS...

Quando Nietzsche fala do além do humano (perceba que eu evito usar o que ficou traduzido, principalmente no Brasil, como super-homem), perceba que ele o imagina na circunstância em que todo idealismo se desfacela. Mas perceba também que Nietzsche fala do idealismo que cria fantasias de verdade justamente dentro de uma única vertente. O além-humano não idealiza realidade e sim cria realidades. Antes de pensarmos que isso também seja idealismo, precisamos pensar que é uma possibilidade.

Esse como faz é que é o problema. Nietzsche caracteriza uma possibilidade de liberdade que não se vê na práxis, mas não se vê devido às amarras que estamos submetidos por uma moral que submete o homem a instâncias metafísicas de uma Vontade de Poder que criou um idealismo perverso e negador da vida.

Temos um caminho coletivo e um individual, sendo que um pode levar a outro. O coletivo, segundo Nietzsche, seria uma volta ao período arcaico grego, onde mesmo submetidos a uma série de preceitos, o ser humano tinha a Tragédia Ática como enfrentamento da contradição existencial. Uma cosmovisão em que a vida era valorizada pelos atos nobres de alguém e não pela submissão a-crítica a qualquer determinação. A dinâmica dos mitos, antes de se oficializarem em religiões imprimia uma adaptação dinâmica da coletividade às contingências da vida, mostrada pela chegada do deus Dioniso ao panteão olímpico.

Nietzsche valorizava o entendimento racional do mundo tentado pelos pré-socráticos e critica veementemente a vertente pitagórica e orfista que influenciou Sócrates e Platão a desenvolverem uma racionalidade que reduzia a natureza humana à sua parcela pretensamente divina: a alma.

Individualmente, quando escapamos do niilismo, começamos a nos responsabilizar por nós mesmos e a construir criativamente modos de enfrentamento da contradição da vida, construindo a realidade que nos atenda diante das circunstâncias adversas, pois nos tornamos trágicos.

Se tiver oportunidade procure algo sobre a questão psicanalítica em Nietzsche, é fantástico.

Em relação ao seu segundo comentário, caro amigo, que bom que você entendeu onde ele cavou. Para ele, não há caminho sem a conspurcação de si mesmo. Ele quis construir um modo de pensar que ao mesmo tempo em que nos tirasse do niilismo, também não nos deixassem apáticos e reativos diante da realidade.

Você, com seu engajamento político cravado na práxis e não em idealismos já está a passos largos de se tornar além-do-humano. Quando tiver um tempo releia as metáforas que ele faz sobre as transformações do espírito humano; de camelo em leão e de leão em criança no Zaratustra: o anunciador do além-do-homem.

Eu que agradeço sempre, amigo... Abraços

Miranda

DanDi disse...

Miranda,

Quando eu estava falando em imaturidade eu jurava que estava falando para mim mesmo. Eu sentia que estava indo em território que não conhecia o suficiente. Também do modo meio poetizado que escrevi no primeiro comentário, não sendo objetivo na discussão. Mesmo assim tive a audácia de me intrometer e não me arrependo. Rs

Aprendi bastante com este post e ficou tudo ainda mais claro agora que pude ver com calma o vídeo da fantástica Viviane Mosé. Maravilhosa!

Já li de Nietzsche "O Anticristo", "Crepúsculo dos ídolos" e folheio sempre o "Gaia ciência", "Ecce homo" e "Além do bem e do mal". Tenho outros livros do filosófo em casa, assim como já fiz a leitura de alguns livros técnicos sobre ele, mas ainda acho que este merece que 'deitemos o cabelo', ou seja, aprofunde-se ainda mais em sua literatura. Só fiquei mais ansioso para fazer as leituras que você me recomendou.

Também ficou mais clara a minha dúvida, era uma confusão entre "idealismo" e "utopia". Estou chamando assim porque me pareceu que eu as liguei, sendo contra por pensar que o que tenho fé seria julgado como um mero ideal.

Mas não em Nietzsche, pois, pensando bem, assim como meus estudos comparados entre o filósofo e Clarice Lispector; a vida é um processo e saber disso é plantar todo dia uma semente para uma nova realidade.

Entendo mais claramente como é viver do devir. Entendo mais claramente o que é ir além-do-homem.

Abraços,

DanDi

DanDi disse...

Lembrei o porquê de minha ressalva a Nietzsche e o conceito de Além-do-homem. Disse Heidegger, que o bigodudo erra ao se centrar no seu conceito de Além-do-homem e fazer disto uma meta para alcançar, quase como um ideal. Segundo Heidegger, o homem não pode primar por estas premissas e para ser livre teria de apenas caminhar como um Ser-aí, para poder encontrar seus caminhos. Que acha desta perspectiva?

Abs!

Gilberto Miranda Jr. disse...

Então, Dandi, nós devemos muito à Heiddeger por hoje considerarmos Nietzsche um grande filósofo. Até então Nietzsche era mais considerado um literato ou um pensador isolado. Heiddeger resgatou os fundamentos de uma filosofia que jamais deixou de ser filosofia, mas que sofria o preconceito denunciado pelo própio Nietzche.

Isso não significa, porém, que Heidegger possua a palavra final sobre Nietzsche. Muito menos eu rs, claro!!!

No caso de Heidegger, acho que ele inverteu algumas coisas que, na minha leitura, Nietzsche superou: a Metafísica, o niilismo e os idealismos.

Heiddeger, na verdade, como bom católico rs, via a crítica de Nietzsche à metafísica como o último arauto da metafísica, via o caminho do além do homem para a superação do niilismo como um aprofundamento do niilismo e assim vai...

Ele conseguiu ver grande parte do que Nietzsche dizia como as últimas gotas ou até o aprofundamento daquilo que ele mesmo criticava.

Claro que não há só erros nessa interpretação, mas há (como Nietzsche mesmo dizia) várias interpretaçoes e perspectivas diferenciadas para se olhar.

Sugiro a leitura desse artigo > http://www.fflch.usp.br/df/gen/pdf/cn_010_02.pdf do Cadernos Nietzsche, 10, de 2001. Ele esclarece muita coisa e dispensa minha defesa contra essa interpretação.

Por fim, Heidegger parece esquecer da dimensão artística e criadora encerrada no além-homem, que o coloca muito longe daquele tecnocrata que Heidegger quis interpretar.

Abração, continue interpelando, vc me ajuda demais, amigo!!!

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