
Em geral falam dessa forma por que atribuem um fato como um evento hierarquicamente superior a uma Teoria, como se ambos fizessem parte de uma escala de valores de credibilidade frente à realidade. Para esse tipo de olhar atribui-se fato ao conceito de LEI e Teoria a algo que precisa de comprovação, como se fosse uma mera hipótese ou suposição.

O que é Teoria?

É nesse sentido grego que o vernáculo “Teoria” ganha estatuto de verdade em ciências. No entanto, ele tem, no senso-comum, outra conotação, que antropologicamente tem origens nos EUA e é nesse sentido que se pronuncia também entre os criacionistas o desdém da Teoria da Evolução ser “ainda” uma teoria.

Em ciência, Fato e Teoria são coisas diferentes e não fazem parte de uma escala hierárquica de certeza crescente. Tentemos esmiuçar mais... Teoria tem a mesma raiz etimológica grega que a palavra Teatro. Ambas sugerem significados ligados a contemplação e imaginação internalizadas mentalmente. Em Teoria (Theorein) temos uma contemplação ativa, que significa ver algo em seus aspectos mais abrangentes; o que significa compreender esse algo e dar-lhe um sentido, uma explicação.
Quando essa palavra se latinizou e transformou-se em “contemplare” houve um notável “downgrade” em seu sentido original, assim como aconteceu com as palavras ética e moral, que têm o mesmo significado original, no entanto quando ética se latinizou em moral mudou seu sentido de “modo de ser” para “norma” (isso dá até outro artigo para falarmos a respeito).
Nesse “downgrade” o contemplar ganhou um sentido passivo que não busca um conhecimento daquilo que se está olhando, mas apenas a apreensão sensível daquilo que se vê. O teórico passou a ser contemplador, ganhando sentidos diferentes quando, originalmente, significavam a mesma coisa.

Era um contemplar ativo que explicava o fato contemplado. Assistir peças de teatro na Grécia não era apenas iludir-se com o que estava sendo representado, era contemplar o espetáculo para abstrair da representação seu sentido pedagógico e ético. A peça, enquanto fato, fenômeno, necessitava de um olhar teorético para entende-la em toda sua dimensão. Após a latinização do termo, contemplar transformou-se em apenas ver e deixar-se iludir com as aparências que o Teatro mostrava, sem “teorizar”; explicar e apreender seu sentido. Essa noção explica muito da forma como concebemos e usamos a palavra Teoria hoje em dia no senso-comum.
Essas colocações acima são de suma importância para desconstruir a noção do senso-comum que conota “Teoria” como um nível de confiabilidade abaixo do fato. Como eu disse, em ciência, fato e teoria são coisas distintas e não participam de graus de certeza sobre a realidade. Teorizar, portanto, não é colocar algo percebido abaixo do fato, é explicar o fato em suas possíveis e perceptíveis dimensões além da mera afecção dele: é descreve-lo de forma a explicar como ocorre e por que ocorre.
Em suma, como diz Stephen Jay Gould: “Teorias são as estruturas de idéias que explicam e interpretam os fatos.” Logo, não é possível, nem coerente, afirmar que um fenômeno observável descrito numa teoria é menos real do que um fato, pois a teoria transcende o fato, sem negá-lo, para explicar-lhe o mecanismo fenomênico de sua existência e atribuir-lhe um sentido.
Bem, mas precisamos pontuar sobre o que viria a ser um Fato.
O que é Fato?
Fato é um fenômeno observável. Quando falamos que algo é fato, estamos atestando sua existência pelo que conceituamos/intuímos como existência. Há controvérsias epistemológicas entre fato e verdade; na eterna discussão entre realismo x anti-realismo. Fato é uma verdade, seja ela relativa ou absoluta, não deixando de ser uma verdade que diz e atesta a existência de algo.
A questão da existência merece até um artigo à parte também. Existência parece ser uma daquelas palavras conceituais das quais Kant atribuiu às características do tempo e espaço. Existência, portanto, não é um conceito e sim é uma intuição racional a priori a qual sabemos identificar, mas temos imensa dificuldade em conceituar.
Não vou entrar no mérito se a idéia de Kant em relação ao tempo e espaço faz sentido, mas percebo que caracterizamos a existência por que simplesmente nos vemos como existentes, e intuitivamente identificamos coisas que participam de uma mesma condição nossa. Merleau-Ponty chama isso de “carnalidade”. É uma espécie de pré-cognição que a razão apreende a priori por comungar da mesma condição daquilo que lhe afeta. Kant atribui isso a uma razão pura que independe dos sentidos, já Merleau-Ponty a coloca como uma pré-cognição advinda de nossa própria condição de ser-no-mundo.
Meu entendimento é que seja a percepção de um fato que nos afeta enquanto fenômeno, sendo uma realidade que se relaciona ao nosso conceito de existência, que é histórico e consensual, logo relativo a ele. Há quem diga que seja uma verdade absoluta, mas não cabe aqui essa discussão. De qualquer forma, e espero que concordemos com isso, fato é definido como um fenômeno, um evento observável ou sentido ou mesmo percebido que atenda aos nossos critérios intuitivos de existência; localizado espaço-temporalmente.
Com tudo isso, podemos dizer resumidamente que fatos são os dados do mundo como se apresentam a nós, sendo possível tecer uma relação epistemológica entre teoria e fato, e por que eles não estão imbricados numa hierarquia de graus de confiabilidade. Teoria é uma estrutura de idéias que explicam e interpretam os dados do mundo; os fatos.
Toda explicação que, atribuindo sentido ou não, descreve e esmiúça em graus variáveis de minúcia um fato observável, poderia ser chamada de Teoria. Teorizamos sobre as coisas o tempo inteiro. Aliás, parece ser o que nos resta enquanto humano, pois como sujeitos, apartados do objeto, num dualismo que caracteriza a própria civilização ocidental, jamais poderemos nos arvorar conhecer e atestar algo sem que nos apartamos dele para tentar explicá-lo conforme nosso ponto de vista.
É nesse sentido que Teoria, então, precisa ser categorizada frente àquilo a que se propõe sua construção. Os positivistas postularam que existe um grau hierárquico entre as teorias e que as científicas, por seu caráter controlável e empírico merecem maior credibilidade. Poderíamos enveredar por considerações exaustivas para defender um ou outro lado dessa questão. No entanto, em meu entender, só vejo sentido em hierarquizar um conhecimento a partir daquilo a que ele se presta, isto é, seu fim. Nesse ponto me coloco como pragmático.
Na continuidade voltaremos às questões sobre Teoria, Teoria Científica e a Teoria da Evolução.

Em suma, como diz Stephen Jay Gould: “Teorias são as estruturas de idéias que explicam e interpretam os fatos.” Logo, não é possível, nem coerente, afirmar que um fenômeno observável descrito numa teoria é menos real do que um fato, pois a teoria transcende o fato, sem negá-lo, para explicar-lhe o mecanismo fenomênico de sua existência e atribuir-lhe um sentido.
Bem, mas precisamos pontuar sobre o que viria a ser um Fato.
O que é Fato?
Fato é um fenômeno observável. Quando falamos que algo é fato, estamos atestando sua existência pelo que conceituamos/intuímos como existência. Há controvérsias epistemológicas entre fato e verdade; na eterna discussão entre realismo x anti-realismo. Fato é uma verdade, seja ela relativa ou absoluta, não deixando de ser uma verdade que diz e atesta a existência de algo.
A questão da existência merece até um artigo à parte também. Existência parece ser uma daquelas palavras conceituais das quais Kant atribuiu às características do tempo e espaço. Existência, portanto, não é um conceito e sim é uma intuição racional a priori a qual sabemos identificar, mas temos imensa dificuldade em conceituar.
Não vou entrar no mérito se a idéia de Kant em relação ao tempo e espaço faz sentido, mas percebo que caracterizamos a existência por que simplesmente nos vemos como existentes, e intuitivamente identificamos coisas que participam de uma mesma condição nossa. Merleau-Ponty chama isso de “carnalidade”. É uma espécie de pré-cognição que a razão apreende a priori por comungar da mesma condição daquilo que lhe afeta. Kant atribui isso a uma razão pura que independe dos sentidos, já Merleau-Ponty a coloca como uma pré-cognição advinda de nossa própria condição de ser-no-mundo.

Com tudo isso, podemos dizer resumidamente que fatos são os dados do mundo como se apresentam a nós, sendo possível tecer uma relação epistemológica entre teoria e fato, e por que eles não estão imbricados numa hierarquia de graus de confiabilidade. Teoria é uma estrutura de idéias que explicam e interpretam os dados do mundo; os fatos.
Toda explicação que, atribuindo sentido ou não, descreve e esmiúça em graus variáveis de minúcia um fato observável, poderia ser chamada de Teoria. Teorizamos sobre as coisas o tempo inteiro. Aliás, parece ser o que nos resta enquanto humano, pois como sujeitos, apartados do objeto, num dualismo que caracteriza a própria civilização ocidental, jamais poderemos nos arvorar conhecer e atestar algo sem que nos apartamos dele para tentar explicá-lo conforme nosso ponto de vista.
É nesse sentido que Teoria, então, precisa ser categorizada frente àquilo a que se propõe sua construção. Os positivistas postularam que existe um grau hierárquico entre as teorias e que as científicas, por seu caráter controlável e empírico merecem maior credibilidade. Poderíamos enveredar por considerações exaustivas para defender um ou outro lado dessa questão. No entanto, em meu entender, só vejo sentido em hierarquizar um conhecimento a partir daquilo a que ele se presta, isto é, seu fim. Nesse ponto me coloco como pragmático.
Na continuidade voltaremos às questões sobre Teoria, Teoria Científica e a Teoria da Evolução.
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