segunda-feira, 6 de abril de 2009

A Borboleta

A borboleta bate suas asas em direção ao infinito. Mas enquanto voa sabe lá no fundo que o infinito é apenas um nome humano dado a algo que ele não consegue ver o fim. Ela ri dos homens. Essa necessidade toda de nomear, delimitar, classificar, categorizar. O homem rotula e coloca em gavetas e prateleiras tudo o que vê e depois designa sistemas e pessoas como guardiões dessas gavetas e prateleiras para que jamais sejam mexidas; apenas sirvam de consulta a alguns privilegiados que traduzirão o que entendem para os outros de categoria menor.

O próprio homem faz isso consigo mesmo. Ele se classifica, se separa, se categoriza e vive contestando e brigando por conta disso. Classifica e categoriza até as borboletas. A borboleta pensa sim. Mas não pensa como os humanos. Por que ela precisa ser uma lepidóptera? Que diferença faz ela ser lepidóptera ou um coleóptero? São nomes, apenas nomes, e seres humanos acreditam que nomes tragam o ser daquilo que eles nomeiam. Mas nomes não carregam essência, nomes são nomes.

As borboletas vivem no mesmo mundo que os humanos, mas não tem as mesmas necessidades deles. Ela não precisa classificar em prateleiras o que vê, nem tampouco precisa organizar tudo para que tire o melhor proveito daquilo que a cerca. Tampouco precisa controlar, dominar e subjugar tudo o que pode para alimentar qualquer sentimento de poder.

Ela, em seu contato próprio, intrínseco com o mundo, tem o poder que lhe cabe; puro fluxo contínuo amalgamado com as coisas, cumprindo seu papel desde dentro naquilo que melhor expressa ela própria. Não precisa saber e objetivar, ela é, simplesmente é. E sendo o que é, cria no mundo sua marca de ser, sem se importar com o que é, apenas sendo, continuamente sendo.

Os homens não conseguem ser por si mesmos. Eles precisam mudar o ser dos outros para construírem-se como desejam. Subvertem a natureza a um quadro fixo e imutável das coisas, desrespeitando aquilo que ela tem de mais característico: a mudança constante de tudo. Não é admissível ao homem que a as coisas mudem, transformam-se, passem a não-ser no segundo seguinte que eram. Se mudam de categoria daquilo que o homem determinou que fosse, não é a categoria que está errada, e sim a coisa, pois ela não pode mudar. Se mudar era por que não era verdadeira, era falsa. Ahhh homens...

E onde tudo isso começa? A borboleta sabe. Sabe por que sabe, e não por que racionalizou as coisas para que soubesse. Ela participa da sabedoria do mundo pois está dentro do fluxo contínuo das coisas, interferindo nele e sendo afetado por ele. Ela sabe que é a consciência da finitude que faz com que o homem fixe e imobilize tudo à sua volta. Ela sabe que é por isso que ele precisa nomear as coisas e imobiliza-las, por que dentro dele a percepção do tempo, da sucessividade e da mudança mostram ao homem que ele logo deixará de ser o que ele pensa que é. Imobilizar o mundo é a forma do homem eternizar o que ele pensa que conhece.

O homem cria a idéia de infinito para que as coisas sejam eternas. As coisas que mudam e se sucedem no tempo, para o homem, são falsas. Logo, ele precisa ser eterno para que seja verdadeiro. Se ele pensa sobre isso, logo existe, e se existe é verdade. Se é verdade precisa ser eterno, pois só o que é falso muda e deixa de existir.

A borboleta ri disso tudo. Ela sabe que sua eternidade está naquilo que a faz parte da própria natureza e no seu fluxo constante da vida, que muda e se espraia em possibilidades de acordo com o moto contínuo de tudo e dos rearranjos constantes na alteridade. Cada ser vivo é dialético com o mundo. Ele se faz e faz o mundo no contato com ele. Eis aí a sensação da própria infinitude: ela está na percepção do movimento.

Comprometer-se com o mundo e responsabilizar-se por si é respeitar aquilo que lhe dá máxima expressão existencial, a sua Aretê. Encontrando-a você será aqui que é, sem que precise determinar-se em categoria existencial alguma.

Voa borboleta, você sabe. Sabe tudo.



3 comentários:

Vereda da mente disse...

Sabe uma das coisas que mais admiro nos animais?A liberdade de movimentos...Nas crianças também.
Utilizam o espaço todo de maneira generosa,sem pensar nas consequências.
Quando vejo um cachorro atravessando a rua num rompante só,eu sofro(boba né?)Sofro pela possibilidade desastrosa.
Sofro por mim,na verdade,pq o animal,se morrer,morre feliz!Morre fazendo livremente aquilo que ele queria,atravessar a rua.Nós"adultos"um dia prometemos não sermos como nossos pais...Quando foi entramos na maquininha de rotular?E o mais importante,como faz pra sair daqui?

Gilberto Miranda Jr. disse...

Penso que saímos pontualmente, amiga querida. Nao sei se é possível viver sem que nos seduzamos por pousar um "olhar ordenador" às coisas em nossa volta. Precisamos dele, infelizmente.

Mas isso não significa que é só esse olhar que devamos ou consigamos lançar o tempo todo. Outros olhares e formas de ser parecem-me ser extremamente necessários para que possamos suportar o peso da própria existência. Nesse post, sugiro o olhar da borboleta, mas gostei do olhar canino a que vc nos remete...

Obrigado sempre...

Márcio Cirne disse...

Roubaram seu texto.

O blog que te copiou foi o yulecavalcantedealbuquerque.blogspot.com.br/

Cuidado. Existe no google uns htmls simples para impedir seleção de texto e clique de mouse na sua pagina, é só procurar no google.

Dá uma olhada lá.. Eu achei o seu blog copiando a primeira frase do texto e colocando no google, porque eu sabia que essa menina nao tinha capacidade para escrever um texto bom desse, com gramática impecável. E por sinal, ótimo texto, parabens!

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