Filosofando na Penumbra

A intenção desse Blog é servir como parteiro de idéias, um berçário cognitivo de conceitos e investigações das coisas que nos cercam. Na medida do possível, a partir da repercussão do que é dito, será a base de trabalhos mais profundos em nível acadêmico. Espero contar com a ajuda dos amigos no burilar desse vasto parto contínuo...

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sexta-feira, 24 de abril de 2009

Café, empada e ética...

Coisas da tecnologia. Estava meio impaciente pela demora em postar algo no Filosofando devido a inúmeros compromissos de trabalho e estudo. Diversos textos estão começados, mas falta concluí-los e com as coisas se atropelando.

Hoje, um celular, quinze minutos livres num café ou até em meio a uma leitura já bastam para um blogueiro. Eis-me postando diretamente do Coffe Prime do Shopping Jacareí com meu Moto Q11.

Estou lendo o livro Ética em Movimento, da Paullus, organizado por Anor Sganzerla, Ericson S. Falbretti e Francisco V. Bocca. Tenho um trabalho de ética em Nietzsche para fazer e a localização que Haroldo Osmar de Paula Jr. e Jelson Roberto de Oliveira fazem da fundamentação de toda ética nietzscheneana no livro a Origem da Tragédia, lançou-me novos olhares da obra de Nietzsche que tive a oportunidade de ler.

Esse tipo de coisa se constitui naquelas obviedades que não damos conta e que ao ouvirmos não nos espanta, embora nos sintamos constrangidos de não termos sacado antes.

A Origem da Tragedia e o Espírito da Música é o primeiro livro de Nietzsche e o lançou no lugar eterno dos gênios. Nele, brilhantemente salientado pelos autores do texto, Nietzsche lança as bases de toda a sua filosofia, mesmo no futuro tendo criticado certa inocência em si mesmo quando o escreveu. Ele não chega a rejeitá-lo, porém.

Eu comecei a ler esse livro a algum tempo em meus estudos sobre a questão da racionalidade e a arte, dança contemporânea e filosofia. Hoje sua leitura ganha outras dimensões e importância que ainda serão motivo de muitas postagem aqui no Filosofando.

Tanto a crítica da racionalidade, a origem do niilismo, quanto a genealogia da moral e a ferrenha crítica ao cristianismo se encontram na Origem da Tragédia.



Bem, acabou o café. Vou para casa.

Enviado do meu Smartphone Windows Mobile®. Motorola Q11.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Facas, Gumes e Reflexões sobre a Cegueira

Esse artigo é uma reflexão incidental sobre o artigo de minha amiga Paula Moiana da Costa, professora de biomedicina da Unipar, publicado em seu Blog (em parceria com Caio Mariani) Minestrone a Bolognesa. O artigo está em duas partes e chama-se Facas Cegas de Um Só Gume (clique para lê-los: As Idéias, parte 1 e Os Fatos, parte 2).

Parcialidades

Olhar de olhares 70x100 cm - Tela de Teresa Robal Não tem como não concordarmos com a tese que enxerga a ciência procurando a melhor descrição possível da realidade tanto quanto for alcançável a capacidade humana de observação. Porém é difícil hoje, na contemporaneidade, ainda mais com o aprofundamento dos estudos epistemológicos feministas e na concomitância das considerações filosóficas de Habermas, Kuhn, Derrida, Bachelard e outros, não considerarmos que essa "melhor descrição possível" traz em seu bojo certa determinação interna de cada pesquisador; ditada por seus próprios contextos culturais e históricos e confirmados e reproduzidos por toda a comunidade científica.

E desde sempre parece ter sido assim. Esse ideal de um olhar neutro do ser humano para a natureza com o intuito que ela própria se revele em seus segredos mais recônditos, não passa disso: um ideal. Um ideal talvez lockiano configurado por seu conceito de Tábula Rasa. Tanto culturalmente quanto por nossa própria condição de seres-no-mundo, da carnalidade pontyana, todo o nosso olhar parece já se encontrar pré-configurado para ver determinadas coisas, mesmo que uma infinidade de outras estejam ali, bailando à nossa frente, se exibindo e querendo nos seduzir para serem notadas. (Vide nota 1)

Parece então que somos determinados a sermos parciais. Todo olhar voltado a algo pode se arvorar a ser neutro e imparcial, mas a explicação do que se viu, a construção de nexos daquilo que se precipitou aos nossos olhos, sempre terá como pano de fundo as crenças e a contextualização histórica do dono do olhar. Seria esse nosso determinismo? Se for, ele é muito mais poderoso que um decantado determinismo biológico que os defensores do "Nurture" acusam as ciências biológicas.

Talvez seja possível ir mais além. O nosso olhar é, antes de mais nada biológico. Já possui suas próprias limitações no espectro que consegue captar a luz. Enquanto ferramenta de uma vontade, de um ato volitivo, ele já nos determina a ver somente aquilo que ele é capaz fisicamente. O ato de olhar, porém, ele não é apenas determinado pela fisiologia de nosso órgão, mas é condicionado por nosso psiquismo totalmente imerso num mundo que se dialetiza com a realidade percebida o tempo todo, determinado por nossas raízes históricas e sociais. Até a própria realidade que o olhar dialoga está impregnada de nossa contextualização.

É de uma inocência ímpar acreditar que nossa maior determinação seja biológica. Se boa parte de nosso comportamento emerge pela confluência de fatores que nos trouxeram evolutivamente até aqui, não há dúvida que grande parte dele e que abarca quase nossa totalidade, é determinado por nossa cultura e contextualização histórica. Mesmo assim parece ser o gênero humano pródigo em romper seus próprios determinismos, sejam eles biológicos ou culturais.

Conseguir ir além nos possibilita até subverter o que naturalmente tendemos a pensar, isto é; que sofremos uma determinação biológica mas a rompemos na construção de nossa cultura. Parece-me muitas vezes ser exatamente o oposto: a natureza nos dotou da capacidade de rompermos qualquer determinismo, ao passo que culturalmente nos prendemos em idealismos que nos determina a sermos e pensarmos de uma determinada maneira, inclusive nos achando no direito de vigiar e punir o outro se por acaso não assumir nossa maneira de ser. E esse determinismo se impregna até no fazer ciência.

Olhares Possíveis

olhares Meu olhar particular, que não se arvora a ser imparcial nem neutro, parece trazer Heráclito no cerne das questões trazidas pela Teoria da Evolução de Darwin. Parece-me que a natureza nos dotou de uma capacidade infinita e indomável de nos indeterminarmos. A realidade como eterno devir, parece refazer-se a cada segundo em suas potencialidades. Aliás, parece justamente romper com a idéia aristotélica de potência e ato, e se circunscrever no terreno das possibilidades contingenciais. Contingencialmente, nossos genes parecem refazer-se em suas potencialidades e se expressar (se atualizar) de acordo com as possibilidades abertas pelo ambiente que interage. Essas noções depreendidas da própria leitura da obra de Darwin parece derrubar com a idéia de que o evolucionismo traz em seu bojo o determinismo. Nem ele, nem a própria natureza, cuja decodificação ainda não temos nada superior à Teoria da Evolução.

Se as dúvidas de Darwin começaram no questionamento da teleologia e principalmente no questionamento do fixismo, elas trazem por consequência a ausência de um finalismo determinístico numa Dança Cósmica do constante devir como fundo, ou nas palavras de Julian Marias: como “mobilidade constitutiva”.

Darwin, sem noção de genética alguma, sem nem sequer ter lido os trabalhos de Mendel existentes antes de sua teoria, por pura observação naturalista captou todas essas possibilidades num exercício raro de indeterminação possível ao olhar humano. É difícil de imaginar que o próprio olhar naturalista de Darwin quisesse ver o que ele viu para construir os nexos que construiu como se houvesse já no olhar uma estrutura teorética de pano de fundo. Embora difícil, é algo que precisará sempre ficar em aberto. Mas temos que levar em conta que, segundo seus diários, embora já procurasse por algo, suas idéias tendiam a uma teleologia necessária que mais tarde ele foi obrigado a abandonar a favor daquilo que observou (ou do que viu como oportunidade de interpretar).

De qualquer forma, na construção de nexos daquilo que viu, Darwin propôs um mecanismo que traduzia também todo um contexto histórico que vivia. A efervescência da era industrial, o questionamento do fixismo por uma ideologia liberal burguesa e protestante, que questionava um poder central e privilégios natos, pode ser vista como pano de fundo à parte dos nexos que Darwin construiu.

Há de se separar a forma de olharmos a obra máxima de Charles Darwin. Uma é considerarmos apenas sua proposição conclusiva. Outra é acompanharmos e construirmos nossos próprios nexos a partir das longas descrições que ele faz daquilo que viu, tateando todas as possibilidades antes de concluir. Essa é a maior riqueza que ele nos lega, pois realmente dá a impressão de que ele chegou bem perto da imparcialidade ao descrever o que viu antes de construir a conclusão que tirou. A própria conclusão e formulação teórica permite vários olhares sobre ela: tanto contextualizados na episteme da sua época, como fruto de uma força de vontade em busca da imparcialidade.

Essa postura de Darwin, num primeiro momento apenas descritiva, nos possibilita olhares plurais e variados numa natureza que não precisa de um olhar próprio sobre si e se abre aos curiosos da maneira que eles querem vê-la dentro de seus próprios contextos. Um desses olhares vai em sentido oposto daqueles que querem ver um determinismo necessário tanto na natureza biológica quanto na nossa cultura.

De que forma se configura nosso comportamento? É determinado pela cultura ou por nossa estrutura genética?

Determinismo x Indeterminismo

É curioso como nos perguntamos o que nos determina. Essa pergunta já direciona nosso olhar para encontrar “o” determinante. Não passa por nossa cabeça “determinada” que talvez possamos ser indeterminados, mas que assumimos determinações por algum motivo ou mecanismo que ainda não entendemos. Um dos caminhos contrários à boa Filosofia parece-me ser justamente formular a pergunta de forma equivocada. Seria esse o caso?

Evocando ainda as evidências darwinianas e nosso velho e obscuro Heráclito, essa confluência contingencial de fatores que trabalham dialeticamente numa teia cuja síntese é um equilíbrio situacional, desemboca em estados que não nos dá garantia alguma que não irá mudar ao longo do tempo. Portanto, concordando com a Paula, determinar como natural o direito que emerge de nossos instintos é falacioso. Nossos instintos mudam de geração em geração, e hoje entendemos que a estrutura genética tem flexibilidade na maneira de se expressar diante de situações específicas.

Temos então, pelo menos, cinco lados nessa “moeda pentagramática”:

  • De um lado a variabilidade aleatória que abre possibilidades contínuas e diferenciadas de expressão;
  • De um outro um ambiente fluídico que muda interagindo num todo interligado e que favorece a expressão que melhor estaria adaptada;
  • De outro a variabilidade específica também moldando sua expressão ao ambiente;
  • De outro lado ainda o próprio ambiente sendo modificado pela interação das formas de vida e seus modos de expressão;
  • E de um outro lado a consciência atuando em diversas direções influindo e sendo influenciada nisso tudo.

Como então nos acharmos determinados por algo? Como não vermos desde dentro de nós o clamor irresistível da mobilidade constitutiva que nos faz todos, individualmente e enquanto espécies, inacabados, em construção, fluídicos frente às possibilidades estéticas que a confluência de todas as cores, gostos, sons, texturas que nos fazem irresistivelmente querer e sermos obrigados a experimentar?

Parece-me que somos sim determinados. Determinados por tudo isso a sermos indeterminados. O que nos determina então é outra coisa: A Cegueira de Gume Afiado.

A Cegueira de Gume Afiado

Por que então, sabendo-nos indeterminados precisamos da tutela de algo parmenedianamente fixo, imutável e seguro para pautarmos nossa vida? José Saramago pareceu-me ter sido muito feliz nas reflexões que fez em seu Ensaio Sobre a Cegueira. Algumas reflexões suscitam-se irresistivelmente em nossas mentes ao ler o livro e assistir o filme brilhantemente dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles. Alguns pontos podem ser destacados para minha argumentação.

A cegueira pode vir pelo excesso de luz. A metáfora parece-nos “clara”. A idéia de que a racionalidade, a razão, posta desde o Iluminismo nos daria a resposta pra tudo, nos trouxe uma cegueira imensa que desemboca na contemporaneidade. Assim como no filme; cegos, desorientados por tanta luz que nos tira a visão, caímos fácil na barbárie, na destemperança, na falta de rumos e sentidos. É preciso descer ao mais básico do gênero humano, ao mais primitivo, para nos vermos crus e começarmos a nos reconstruir como sociedade. Isto é, precisamos nos “incondicionarmos”, nos “indeterminarmos”. Não, talvez, para saber quem somos, mas talvez para nos reconstruirmos naquilo que queremos ser, dialeticamente construídos entre o desejável e o possível.

O esclarecimento parece nunca ser completo, pois nosso olhar precisa da sombra pra dar contraste ao que vê. Esse é nosso determinismo biológico que nos dá a limitação daquilo que podemos alcançar. No entanto, discordando e concordando com Kant, a base do esclarecimento possível só pode ser pautada pelo exercício irrestrito da liberdade e da autonomia.

A luz excessiva, aquela que direciona nosso olhar a uma única direção (a razão ou a religião), nos rouba a espontaneidade de nos vermos indeterminados, livres, criativos e possíveis. Da mesma forma as trevas, a sombra excessiva do controle que oprime e desinforma nos coloca sob a responsabilidade da tutela alheia e instrumento de domínio de interesses que em geral passam à largo de nossas necessidades (talvez por isso insisto em filosofar na penumbra rs).

A cegueira, em ambos os lados, tem gumes afiados que cortam a carne das gentes sem que percebamos. Só nos damos conta quando, esvaídos em sangue, nosso corpo queda à mercê dos opressores. É a liberdade e a autonomia em dialogarmos na coletividade que nos garante o exercício da própria mobilidade constitutiva da natureza.

A cegueira da fixidez, seja ela pela pretensão de um esclarecimento total positivista e iluminista (excesso de pretensa luz racional), seja ela pelo tradicionalismo religioso (excesso de pretensa luz espiritual), nos faz conviver com paradoxos que facilitam que nos submetamos à tutela de terceiros frente ao nosso destino. A cegueira que nos irresponsabiliza pelo nosso próprio destino nos deixa nas mãos dos poucos “iluminados”.

É tão cega ou mais perniciosa que a cegueira da razão, a cegueira do dogma que querendo que a natureza seja ouvida (como suposta tradução da vontade divina), é contra a morte provocada artificialmente (o aborto), mas a favor da vida mantida artificialmente (a eutanásia). Seria ela contra, portanto, à possibilidade da eternidade dada pela ciência? Os critérios são contraditórios, típico de olhares que não assumem que não podem enxergar tudo.

Essa mesma tradição fixa os papéis sociais humanos com base numa suposta criação finalística e determinada, denunciado pela Teoria de Gênero feminista que tem seus primórdios nas reflexões de Simone de Beauvoir:

"Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino." - Simone de Beauvoir em O Segundo Sexo de 1.949.

Simone de Beauvoir Essa frase de Simone sintetiza, por pura intuição filosófica, o que seria mais tarde a coluna basilar da teoria feminista. Além disso, ela parece se encaixar muito bem como todos os gêneros recebem suas determinações e condicionamentos para serem exatamente o que esperam deles, com base naquilo que pretendem (os que detém o poder) atingir como ideal de cidadão a ser controlado e vigiado aos termos de Foucault.

Embora possamos dizer que o homem se "tornou" o que bem quisesse e submeteu e oprimiu todos os gêneros e inclusive grande parte de si mesmo, determinando tudo como deveria ser de acordo com suas intenções particulares, culpar um gênero inteiro como se houvesse existido ações coordenadas e intencionais de quem usurpou poder e bens para defender seus próprios interesses parece ser exagero. Podemos até dizer que, fosse mulher, jamais fariam isso. Mas dizer isso é determinar uma essência no homem da mesma forma como ele determinou a das mulheres para melhor submetê-las a cumprir suas determinações.

A cegueira tem gume afiado. Ela nos tira as possibilidades de sermos mais e buscarmos ser diferentes. Nos cativa e nos embota no fixismo que interessa a poucos.

Nem a ciência nem a tradição tem as respostas. As respostas somos nós que damos, podendo estar permeados pelo conforto que a religião que não domina e oprime pode dar, e pelas descobertas científicas que podem nos fazer enxergar mais longe. A interpretação do que a ciência nos lega é histórica, contextual e móvel, quando experimentado o doce sabor da liberdade e da autonomia.

Natural e Cultural

Para finalizar fico com a frase da Paula:

Ambos (naturalistas e culturalistas) não percebem que ao modificar o meio, modifica-se a expressão da característica, de modo que ela sempre resulta do meio, mesmo que seja inata.” Paula Moiana da Costa.

Parece-me encerrar nessa frase os 5 pontos que saliento na “moeda pentagramática” que a vida negocia com o universo. A questão parece-me ser epistemológica. Ela nos dá a base do próprio movimento da vida e da possibilidade do conhecimento desse movimento. A pretensão de uma posição absoluta e de um olhar privilegiado para se emitir juízos sobre as coisas se constitui no maior exercício de cegueira que o ser humano pode se impor.

É natural que mudemos constantemente. É cultural e histórico queremos deixar de enxergar essa mudança e fixarmos as bases de qualquer entendimento possível das coisas. Culturalistas e Naturalistas são históricos, logo são tão cegos como todos nós.

Agradeço à Paula pela inspiração, mas já refletia sobre isso, em outros âmbitos desde Novmebro de 2007: Naturalidade e Meio: http://miranda-filosofia.blogspot.com/2007/11/reflexes-i-entre-naturalidade-e-o-meio.html

Nota

(1) Em meu entendimento, cada ciência, na construção de seu método científico, tem como meta principal a tentativa sistemática de neutralizar intencionalidades que interfiram na aferição de resultados. Mas o método não garante a direção em que o olhar do pesquisador estará voltado na construção dos nexos que darão corpo teórico explicativo ao fenômeno observado. Um dos balizadores é o resultado, mas ele pode dar suporte às mais inverossímeis teorizações, que serão descartadas somente quando nossa capacidade de observação aumenta. Outro balizador que controla o primeiro, é a aderência a um corpo teórico já consolidado e robusto. Isso significa que uma teoria que não tem respaldo em outra já consolidada, dando continuidade a ela, tende a ser desacreditada com mais facilidade que outra, que chega aos mesmos resultados, mas é aderente a um corpo teórico já consolidado. Tudo isso, de certa forma, dá coerência mas engessa a ciência, e o avanço parece ser muito mais lento do que poderia. Isso daria até um outro artigo.

domingo, 12 de abril de 2009

Teoria, Evolução, Fato e Cientificidade - Questões Epistemológicas – Parte II

Hierarquização de Teorias

Como podemos dizer que uma Teoria Científica, como modelo de explicação de um fenômeno observável, é melhor ou nos confere um conhecimento superior a qualquer outra explicação teórica que possamos dar? Não temos uma régua absoluta que nos diga isso a priori.

Balizar a ciência como última palavra nas explicações que dá pra o mundo é querer que ela nos balize em toda nossa totalidade e na própria totalidade da realidade. Mas como querer isso se, conhecendo um pouquinho de ciências, sabemos que ela não pode sair do que pode ser observável se o fim dela, em nosso sistema político-econômico é a produção de tecnologia?

Ou abrimos mão desse finalismo da ciência dado pelo sistema a qual fazemos parte, ou encontramos outras epistemologias que respondam aos outros âmbitos de nossas vidas. Não me parece coerente tentar balizar a totalidade de minha existência a partir de conhecimentos que se reduzem a recortes modelares da realidade, abarcando apenas os aspectos que podem ser observados, controlados e reproduzidos. Nem tudo em nós pode ser observado, controlado e reproduzido, logo, nem todo conhecimento que podemos ter de nós mesmos pode ser reduzido ao conhecimento científico.

Claro é que se a totalidade da realidade pudesse ser reduzida a esses critérios, tudo estaria resolvido. Mas na impossibilidade da ciência abarcar essa totalidade, nos resta a percorrer terrenos não seguros balizados por outros critérios. Isso não significa ir contra a ciência, mas sim ir totalmente a favor daquilo que ela se presta a nos dar. Para o que foge de seu âmbito temos outros campos epistemológicos dos quais podemos nos servir.

Mais uma vez citando Gould, ele fala isso em seu livro Pilares do Tempo, quando introduz a palavra magistério em seu conceito de MNI (Magistérios Não Interferentes). Vale a pena lê-lo, até porque não é penoso, o que daria também outro artigo para falarmos sobre esse assunto. O fato é que a ciência é tanto mais digna quanto mais assume na figura de seus cientistas esclarecidos, que não tem todas as respostas e possivelmente não as terá. No entanto isso não interfere na pertinência e segurança do conhecimento que postula a partir do método que criou para cumprir suas intenções.

Se eu quero um propósito para viver, um sentido para a minha existência ou mesmo solucionar meus problemas sentimentais, preciso entender que a epistemologia científica trabalha com recortes modulares da realidade observável e não se presta a me fornecer isso, quanto mais talvez alguma tecnologia como ferramenta para que eu possa buscar através de outros magistérios.

É óbvio que aqui falo sobre as chamadas ciências naturais, mas mesmo nas humanas o aspecto modular descritivo não nos fornecerá o sentido que cada um de nós, como construtores de sentidos que nos valham para a vida, temos a responsabilidade e autonomia de construir.

Parece-me que o problema fundamental em torno dessa discussão é a tutela que o senso-comum precisa ou foi convencido que precisa para balizar sua forma de ser. Não queremos fragmentar nossa busca em caminhos distintos que nos dê uma resposta razoável naquilo que podemos construir de nexos por nós mesmos. Queremos coisas prontas, magistérios absolutos que nos dêem todas as respostas. Por isso temos de um lado positivistas absolutizando a ciência como resposta última de todos os problemas humanos e de outro as numerosas crendices que assolapam o bom senso para dizer, numa pretensão megalomaníaca, que o que ela diz é a verdade absoluta. Em suma, um exercício incoerente de interferências entre magistérios distintos.

Por termos sido convencidos que somos fragmentados e dicotômicos, nos recusamos a buscar nossas respostas em lugares distintos; queremos um kit epistemológico completo para nos suprir a fragmentação que a civilização nos faz sentir desde dentro de nosso ser.

Por fim, não me parece coerente estabelecer hierarquização entre explicações do mundo, desde que não haja interferência nos magistérios a que se prestam os diferentes ramos epistêmicos em que possamos nos basear para compor os nexos que tornam nossa vida suportável. Não abriremos mão do mais avançado antibiótico feito com base na amplamente corroborada Seleção Natural de Darwin, assim como não precisamos abrir mão do conforto psicológico ao ouvir palavras afáveis e que nos faz sentido de um clérigo qualquer.

Falemos então da Teoria Científica, cuja validade e prevalência entre as outras, que fique claro, se circunscreve naquilo a que ela se presta, sem invadir magistérios epistemológicos dos quais estariam fora de seu âmbito.


O que é Teoria Científica?

Pudemos, juntos, construir um certo entendimento do que significa Teoria em sua acepção real, original e como ela foi usada para designar uma Teoria Científica. Construímos também um entendimento do que viria a ser um fato. Agora precisamos responder o que diferencia uma Teoria, nesse sentido grego que agora entendemos, de uma Teoria Científica.

Em ciência não basta apenas teorizar, mesmo no sentido grego do termo. Em ciências é preciso não só descrever, interpretar e explicar um fato, mas torná-lo, em seus princípios, “apreendido”; de forma a poder prever a partir dele outros fatos e/ou reproduzi-lo e controlá-lo. Vale lembrar que tudo isso é feito dentro de um recorte epistemológico que se vale da pedra basilar chamada "observação", mesmo que esse termo possa nos dar margem para duvidar daquilo que podemos ver.

Não importa que não vemos tudo, em ciência vale o que pode ser visto. E quando se diz “ser visto”, muitas vezes não se vê o agente da ação e apenas seu efeito no espaço-tempo. A teoria científica entra para conjecturar como é esse agente a partir dos efeitos fenomênicos que podem ser detectados. Se essa conjectura prediz comportamentos que a observação do fenômeno reproduz, então é uma Teoria válida, e científica, corroborada.

A ciência pura constrói teorizações que podem prever fenômenos a partir de outros fenômenos, isto é, fatos de outros fatos a partir da explicação teórica de um fato. Exemplo é a física teórica. Por outro lado, a ciência aplicada constrói teorizações que podem prever fenômenos através da apreensão e controle do fato, manipulando-o e construindo a partir desse controle aplicações práticas, como por exemplo; a tecnologia e a produção de bens e serviços.

Logo, para uma Teoria ser científica, ela precisa fazer predições que possam ser verificadas e submetidas a testes empíricos que corroboram sua veracidade e acuracidade. A forma de tornar uma Teoria em científica é a aplicação do método científico, que a testa empiricamente naquilo que ela diz, tornando-a válida. Isso não significa que a torna eterna ou imutável (isso seria transformá-la numa doutrina), mas sim a estabelece como a melhor explicação de um fato até que surja outra. Uma Teoria Científica então é uma Verdade Provisória.

Teoria Científica é o ápice da prática científica e não tem nada acima dela hierarquicamente em termos de ciências. E isso não invalida de forma alguma qualquer outro tipo de conhecimento construído em outros campos epistemológicos. Mas não existe, em ciências, um conhecimento que seja mais alto do que uma Teoria.

É impossível falar em Teoria Científica no século XX sem falar de Sir Karl Popper. A demarcação popperiana do que seria um conhecimento científico não exclui a metafísica, por exemplo, como conhecimento legítimo, mas não a coloca na demarcação de cientificidade se submetida à lógica do critério de falseabilidade. Isso não significa que não seja conhecimento teorizarmos sobre alma ou mundo além túmulo para explicarmos algumas coisas que vemos e percebemos, mas jamais será um conhecimento científico enquanto não predizer fenômenos que possam ser falseados, isto é, contraditos pela observação. Se a predição não puder ser colocada à prova para que algo observável a corrobore, não possui cientificidade, mas não deixa de ser um conhecimento de um magistério distinto do científico.

Todas as críticas que recaem sobre a ciência, suas bases epistemológicas e seus critérios de verdade enquanto explicação do mundo, de Carnap a Kuhn, Lakatos, Derrida, Bachelard, Habermas, Feyerabend, servem apenas para apurá-la em sua prática. No entanto, em meu entender, o núcleo popperiano que requer corroboração naquilo que se fala (não importa como e de onde se falou), será por muito tempo paradigmático no fazer científico.

Com Popper, as teorias científicas deixaram de ter um status de verdade absoluta ou definitiva e passaram a ser verdades provisórias, determinadas pela capacidade preditiva daquilo que poderia ser observado. A questão da cumulatividade do conhecimento e das limitações dos modelos epistemológicos em que se baseiam, podem se constituir em dificuldades para novas abordagens que explicariam melhor a realidade, mas a questão aqui é que, independente do corpo teorético-base de um conhecimento, havendo rupturas ou não para outros campos, o novo campo deverá ser corroborado por fatos observáveis. Logo, Kuhn e Lakatos não anulam Popper; o complementam de maneira brilhante para quem se coloca acima de partidarismos reducionistas.

Posto todas essas considerações introdutórias, podemos então falar sobre a Evolução como Fato e Teoria Científica.


Teoria da Evolução e o Fato Evolução

Desde antes da formulação da Teoria da Evolução de Darwin, a evolução era tida como um fato. Isto é, os seres vivos mudam ao longo do tempo e isso é observável. Várias teorias tentaram explicar e interpretar esse fato e elas foram se sucedendo conforme sua capacidade de explicação não dava conta de explicar um olhar mais abrangente do fenômeno evolução.

Conforme a ciência e o método científico vão avançando, assim como as técnicas e instrumentos que podem corroborar as predições de uma teoria, elas vão caindo conforme não conseguimos as corroborações naquilo que elas predizem. Isto é, vão sendo falseadas. Cada teoria ao ser lançada é testada exaustivamente por todo cientista e por toda a comunidade científica, até que, corroborado de fato as coisas que ela prediz, ela seja considerada válida. Isso pode durar anos até, e ao longo desse tempo, mesmo se tornando robusta, fatos concretos que a contradiz podem derrubá-la.

Portanto, ao se ampliar nossa capacidade de observação e de testes, se as implicações do que ela diz não abarcar o novo escopo de realidade aberto, ela cai em desuso ou recebe complementações e novas interpretações, podendo ser substituída por outra que explique melhor o fenômeno e seja corroborada pelo método científico.

Assim se sucedeu com as teorias evolucionistas de Lamarck, Spencer e outros. Cada uma delas, em algum momento, deixou de explicar algum aspecto da realidade que fazia parte de seu escopo epistemológico. No entanto a Evolução nunca deixou de ser fato. Ela sempre foi um dado do mundo corroborado pelo fato dos seres mudarem ao longo do tempo.

Nesse contexto é que Darwin, como naturalista, após ter lido a Teoria das Populações de Malthus e mesmo sem ter lido os experimentos de Mendell com as ervilhas, começou a contrastar esses conhecimentos com sua observação da natureza, e após sua viagem a bordo do Beagle, começou a construir um entendimento, uma explicação, uma descrição do mecanismo em que se dá a evolução como fato.

Há lacunas? É bem possível que haja. Nenhuma teoria pode ser considerada completa. E não porque se for completa ela vira fato (já falamos que não existe relação hierárquica entre fato e teoria), mas sim porque a realidade é multifacetada e a própria existência é um conceito histórico e tudo o que fazemos é relativo a esse conceito. Mas ao longo de 150 anos desde sua reformulação, com corroborações constantes e complementos que ampliaram sua abrangência, ela se consolidou como a explicação mais completa que temos em mãos.

Se ela parte de pressupostos ou de uma visão de mundo que muita gente não concorda, ela não deixa de ser válida naquilo que ela se propõe, apenas deixa de ter a abrangência possível na cabeça dessas pessoas. Mas enquanto científica, ela goza de toda credibilidade que se espera da ciência.

Darwin nunca negou Deus. Alias, era teólogo formado em Cambridge e se não tivesse tido a guinada que teve em sua carreira, muito provavelmente ele teria se tornado um pastor ou presbítero (sacerdote), que era o desejo de sua esposa extremamente religiosa. Mas segundo seus diários, sempre o incomodou o dogma que dizia que os seres vivos tinham sido criados separadamente. E talvez esse fundo religioso tenha sido o mote de sua pesquisa que culminou em sua brilhante teoria.

Darwin explica o fato evolução através do mecanismo (teórico – estrutura de idéias explicativas) da Seleção Natural e do postulado de que existam mudanças constantes nos seres vivos de uma geração a outra. A Seleção Natural seria responsável pelo caráter cumulativo das mudanças na medida em que conferissem vantagens e possibilidade reprodutiva aos indivíduos que as tivesse. Tanto o mecanismo como o postulado estão amplamente corroborados e tem aplicação prática nas mais diversas áreas biológicas e médicas.

A conseqüência lógica de sua Teoria, isto é, o que ela prediz implicitamente, é que descendemos de um único organismo vivo e que toda a diversidade se deu no fenômeno chamado ESPECIAÇÃO; que em resumo é a mudança filogenética de um Ser em outro Ser que pudesse ser classificado em espécies diferentes. Lembrando que a classificação dos seres vivos em espécies é um critério histórico e não absoluto, e foi contestado por Darwin em sua obra máxima.

Logo, a Mudança "aleatória" filogenética, a Seleção Natural e a passagem de uma espécie a outra teriam que ser corroboradas por fatos e testes observáveis para que essa Teoria enquanto explicação do fato Evolução pudesse ser considerada científica. O avanço da pesquisa genética e o mapeamento do genoma, e testes reproduzindo com sucesso o mecanismo de Seleção Natural corroboraram em larga escala com esses postulados e suas conseqüências lógicas e hoje ela é Científica e comprovada.

É interessante notar que até mesmo as controvérsias das últimas descobertas científicas que colocam o gene de forma ativa sendo influenciado pelo ambiente, encontram guarida no livro de Darwin. Mais notável ainda é saber que à época em que escreveu ele nem fazia idéia do que seria a ciência que mais corroboraria com o que ele disse a partir de uma minúcia ímpar de sua diligente capcidade de observação a bordo do Beagle.

Por isso o criacionismo não é ciência, nem o DI pode ser considerado enquanto tal, por mais que esperneie os teístas e outros crédulos que querem que o mundo se encaixe em suas crenças. Eles podem ter uma teoria, mas não é cientifica. Enquanto eles se negarem a submeter ou proporcionar meios de testar e corroborar o que as idéias deles predizem, elas ficarão na instância teorética de outro magistério; da religião, do misticismo, seja lá o que for, menos do científico.

Por isso não tem o menor sentido tentarem empurrar o ensino do criacionismo nas escolas fora do escopo do ensino religioso, pois não é ciência e enquanto não cumprir o método científico nunca será. O método científico, por mais imperfeições que tenha, por mais reducionista que seja no que ele permite entendermos da realidade e por mais enrijecimento que promova nas diversas abordagens possíveis que um fato pode ter, é ele que garante, por exemplo, que eu suba num avião sem precisar contar com os poderes místicos de levitação do piloto.

Apesar de ameaças infundadas de processos em virtude do trabalho em apontar problemas de verissimilhança na argumentação da maioria dos que questionam Darwin, a luta pelo esclarecimento precisa continuar, sabendo que ele é dialético e não absoluto, e que nesse meio tempo podemos sim mudar nossas idéias.


Dica de leitura

Post de Osame Kinouchi no Blog SEMCIÊNCIA: Alguns pensamentos soltos sobre Ciência e Pseudociência.


Vale muito a pena ler...


Obras de Referência para esse artigo

DARWIN, Charles. A Origem das Espécies por Meio da Seleção Natural. Tradução: André Campos Mesquita. Vol. I. São Paulo, SP: Editora Escala.

GOBRY, Ivan. Vocabulário Grego da Filosofia. Tradução: Ivone C. BENEDETTI. São Paulo, SP: WMF Martins Fontes, 2007.

GOULD, Stephen Jay. “Evolution as Fact and Theory.” Stephen Jay Gould Archive. Maio de 1981. http://www.stephenjaygould.org/library/gould_fact-and-theory.html.
—. Os Pilares do Tempo: ciência e religião na plenitude da vida. Tradução: F. Rangel. Rio de Janeiro, RJ: Rocco, 2002.


KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Edição: Coleção os Pensadores. Tradução: Valério Rohden. São Paulo, SP: Nova Cultural, 1996.

KUHN, Thomas S. A Estrutura das Revoluções Científicas. Tradução: Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira. São Paulo, SP: Perspectiva, 2007.

LALANDE, André. Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia. 3ª Edição. Tradução: Fátima Sá COrreia. São Paulo, SP: Martins Fontes, 1999.

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. Tradução: Carlos Alberto Ribeiro de Souza. São Paulo, SP: Martins Fontes, 2006.

POPPER, Karl R. A Lógica da Pesquisa Científica. Tradução: Leonidas Hegenberg e Octanny Silveira da Mota. São Paulo, SP: Cultrix, 2006.

QUAMMEN, David. As Dúvidas do Sr Darwin: o retrato do criador da teria da evolução. Tradução: Ivo Korytowsky. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2007.

Teoria, Evolução, Fato e Cientificidade - Questões Epistemológicas – Parte I

Dando continuidade aos artigos/ensaios em comemoração aos 200 anos do nascimento de Darwin e 150 anos da publicação de A Origem das Espécies, opto por começar pelo argumento mais amplamente utilizado pelos detratores de Darwin. Não é raro lermos ou ouvirmos de quem não concorda com a TE de que ela é “apenas” uma teoria. Esse tipo de desdém com a palavra Teoria é curioso e tem origem cultural.

Em geral falam dessa forma por que atribuem um fato como um evento hierarquicamente superior a uma Teoria, como se ambos fizessem parte de uma escala de valores de credibilidade frente à realidade. Para esse tipo de olhar atribui-se fato ao conceito de LEI e Teoria a algo que precisa de comprovação, como se fosse uma mera hipótese ou suposição.

Gosto muito da abordagem sobre esse assunto dada por Stephen Jay Gould no artigo "Evolution as Fact and Theory" o qual os leitores do Filosofando na Penumbra podem ler no original e conhecer um pouco mais sobre esse evolucionista heterodoxo que não só ampliou a compreensão sobre a Teoria da Evolução de Darwin, mas pôde ampliar a própria teoria abarcando fenômenos que ela não contemplava em sua versão original.


O que é Teoria?

O vernáculo “Teoria” vem do grego Theoria e significa contemplação. Embora filosoficamente tenha ganho significado em Platão (que usou esse termo poucas vezes, na República, em lugar de noésis que significa pensamento; ambas no mesmo sentido), o termo ganha estatuto conceitual em Aristóteles; que a usa tanto para descrever a contemplação dos Princípios Primeiros, quanto para fundamentar a ciência política. Aristóteles nos explica que a própria Metafísica (que nele é chamada de Filosofia Primeira) é teorética, isto é, contemplativa.

É nesse sentido grego que o vernáculo “Teoria” ganha estatuto de verdade em ciências. No entanto, ele tem, no senso-comum, outra conotação, que antropologicamente tem origens nos EUA e é nesse sentido que se pronuncia também entre os criacionistas o desdém da Teoria da Evolução ser “ainda” uma teoria.

A cultura americana e anglo-saxã (boa parte protestante, pragmática e criacionista) usa o vernáculo “Teoria” dentro de uma escala de confiabilidade que vai de adivinhação, hipótese, teoria e fato. Para esse senso-comum, que inclusive é adotado por nós no Brasil (apesar de nossa influência também européia), teoria se relaciona com fato numa escala de valores credíveis, fazendo parte de uma hierarquia crescente de certeza. Essa acepção e conotação da palavra “Teoria” não tem a ver com a utilizada em ciências e nem ao seu sentido etimológico grego e enquanto o senso-comum não entender isso, ainda continuará a desdenhar as Teorias Científicas e se apegar a certezas não justificadas impostas por autoridades; sejam elas religiosas ou meramente ideológicas e doutrinárias.

Em ciência, Fato e Teoria são coisas diferentes e não fazem parte de uma escala hierárquica de certeza crescente. Tentemos esmiuçar mais... Teoria tem a mesma raiz etimológica grega que a palavra Teatro. Ambas sugerem significados ligados a contemplação e imaginação internalizadas mentalmente. Em Teoria (Theorein) temos uma contemplação ativa, que significa ver algo em seus aspectos mais abrangentes; o que significa compreender esse algo e dar-lhe um sentido, uma explicação.

Quando essa palavra se latinizou e transformou-se em “contemplare” houve um notável “downgrade” em seu sentido original, assim como aconteceu com as palavras ética e moral, que têm o mesmo significado original, no entanto quando ética se latinizou em moral mudou seu sentido de “modo de ser” para “norma” (isso dá até outro artigo para falarmos a respeito).

Nesse “downgrade” o contemplar ganhou um sentido passivo que não busca um conhecimento daquilo que se está olhando, mas apenas a apreensão sensível daquilo que se vê. O teórico passou a ser contemplador, ganhando sentidos diferentes quando, originalmente, significavam a mesma coisa.

Na Grécia antiga comitivas e embaixadas dos países helênicos eram enviadas às Olimpíadas e nas festas religiosas de Atenas para que “teóricos” pudessem contemplar os espetáculos e narrá-los aos que os enviaram da melhor maneira possível. E a narração não era mera descrição, mas sim um entendimento e construção de sentido daquilo que era visto.


Era um contemplar ativo que explicava o fato contemplado. Assistir peças de teatro na Grécia não era apenas iludir-se com o que estava sendo representado, era contemplar o espetáculo para abstrair da representação seu sentido pedagógico e ético. A peça, enquanto fato, fenômeno, necessitava de um olhar teorético para entendê-la em toda sua dimensão. Após a latinização do termo, contemplar transformou-se em apenas ver e deixar-se iludir com as aparências que o Teatro mostrava, sem “teorizar”; explicar e apreender seu sentido. Essa noção explica muito da forma como concebemos e usamos a palavra Teoria hoje em dia no senso-comum.

Essas colocações acima são de suma importância para desconstruir a noção do senso-comum que conota “Teoria” como um nível de confiabilidade abaixo do fato. Como eu disse, em ciência, fato e teoria são coisas distintas e não participam de graus de certeza sobre a realidade. Teorizar, portanto, não é colocar algo percebido abaixo do fato, é explicar o fato em suas possíveis e perceptíveis dimensões além da mera afecção dele: é descrevê-lo de forma a explicar como ocorre e por que ocorre.

Em suma, como diz Stephen Jay Gould: “Teorias são as estruturas de idéias que explicam e interpretam os fatos.” Logo, não é possível, nem coerente, afirmar que um fenômeno observável descrito numa teoria é menos real do que um fato, pois a teoria transcende o fato, sem negá-lo, para explicar-lhe o mecanismo fenomênico de sua existência e atribuir-lhe um sentido.

Bem, mas precisamos pontuar sobre o que viria a ser um Fato.


O que é Fato?

Fato é um fenômeno observável. Quando falamos que algo é fato, estamos atestando sua existência pelo que conceituamos/intuimos como existência. Há controvérsias epistemológicas entre fato e verdade; na eterna discussão entre realismo x anti-realismo. Fato é uma verdade, seja ela relativa ou absoluta, não deixando de ser uma verdade que diz e atesta a existência de algo.

A questão da existência merece até um artigo à parte também. Existência parece ser uma daquelas palavras conceituais das quais Kant atribuiu às características do tempo e espaço. Existência, portanto, não é um conceito e sim é uma intuição racional a priori a qual sabemos identificar, mas temos imensa dificuldade em conceituar.

Não vou entrar no mérito se a idéia de Kant em relação ao tempo e espaço faz sentido, mas percebo que caracterizamos a existência por que simplesmente nos vemos como existentes, e intuitivamente identificamos coisas que participam de uma mesma condição nossa. Merleau-Ponty chama isso de “carnalidade”. É uma espécie de pré-cognição que a razão apreende a priori por comungar da mesma condição daquilo que lhe afeta. Kant atribui isso a uma razão pura que independe dos sentidos, já Merleau-Ponty a coloca como uma pré-cognição advinda de nossa própria condição de ser-no-mundo.

Meu entendimento é que seja a percepção de um fato que nos afeta enquanto fenômeno, sendo uma realidade que se relaciona ao nosso conceito de existência, que é histórico e consensual, logo relativo a ele. Há quem diga que seja uma verdade absoluta, mas não cabe aqui essa discussão. De qualquer forma, e espero que concordemos com isso, fato é definido como um fenômeno, um evento observável ou sentido ou mesmo percebido que atenda aos nossos critérios intuitivos de existência; localizado espaço-temporalmente.

Com tudo isso, podemos dizer resumidamente que fatos são os dados do mundo como se apresentam a nós, sendo possível tecer uma relação epistemológica entre teoria e fato, e por que eles não estão imbricados numa hierarquia de graus de confiabilidade. Teoria é uma estrutura de idéias que explicam e interpretam os dados do mundo; os fatos.

Toda explicação que, atribuindo sentido ou não, descreve e esmiúça em graus variáveis de minúcia um fato observável, poderia ser chamada de Teoria. Teorizamos sobre as coisas o tempo inteiro. Aliás, parece ser o que nos resta enquanto humano, pois como sujeitos, apartados do objeto, num dualismo que caracteriza a própria civilização ocidental, jamais poderemos nos arvorar conhecer e atestar algo sem que nos apartamos dele para tentar explicá-lo conforme nosso ponto de vista.

É nesse sentido que Teoria, então, precisa ser categorizada frente àquilo a que se propõe sua construção. Os positivistas postularam que existe um grau hierárquico entre as teorias e que as científicas, por seu caráter controlável e empírico merecem maior credibilidade. Poderíamos enveredar por considerações exaustivas para defender um ou outro lado dessa questão. No entanto, em meu entender, só vejo sentido em hierarquizar um conhecimento a partir daquilo a que ele se presta, isto é, seu fim. Nesse ponto me coloco como pragmático.

Na continuidade voltaremos às questões sobre Teoria, Teoria Científica e a Teoria da Evolução.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

200 anos Darwin - uma comemoração do mundo (Resposta a Conexões Epistemológicas) II

Os argumentos sobre o caráter de Darwin

O restante do artigo, ideológico, anti-científico, tendencioso e repleto de falácias segue para os incautos (e digo isso me incluindo como incauto entre os amigos do Blogs de Ciência, já que o referido artigo é de 7 de fevereiro de 2009 e ninguém viu) a tentar denegrir uma Teoria Científica sem sequer tocar em seus postulados básicos, apenas tentando falar mal da pessoa Darwin naquilo que não tem a ver com o que ele legou à humanidade.

Dizer que Darwin, ao dizer em sua autobiografia que gostava de inventar histórias falsas para causar admiração, gostava de trapaça e se transformou num falsário como adulto é de uma leviandade ímpar. Isso pode significar que Hitler foi um exemplar de verdade quando adulto por ter sido uma criança disciplinada, de alma artística e defensor de suas idéias desde cedo. Em suma, o autor assume seu lado determinista, aceitando acusar seus desafetos da mesma coisa que pratica, quando aponta através da citação de Feynman que a TE seria determinista. Está óbvio que se trata de mais uma falácia.

A insistência em tentar delinear a personalidade de Darwin a partir de recortes descontextualizados apenas confirma o expediente falacioso dos primeiros parágrafos, e não se poupam adjetivos (como “Darwin era copiador compulsivo, ´contumaz colador´, como se diz no primário”) que não tenha ressonância em qualquer conseqüência necessária ou suficiente do que foi dito.

Em mais uma falácia para reforçar a idéia de falsário que quer passar de Darwin, ele tenta confundir o leitor (sendo ele mesmo confuso e contraditório) citando Bacon em uma frase própria, e depois Darwin se referindo a ele:

Um predecessor, o filósofo carrasco da natureza Bacon já sentenciara - a variedade dos indivíduos seria produto de obstáculos e desvios promovidos pela natureza. O Rei dos Macacos colheu o ensejo, e lascou:
“Trabalhei sobre verdadeiros princípios baconianos e, sem nenhuma teoria, comecei a registrar dados em grandes quantidades.”

Outro tiro no próprio pé. Darwin cita Bacon dizendo que estava trabalhando sobre verdadeiros princípios baconianos, pois não abriu mão do observável, do empírico, em nenhum momento. No entanto, Darwin, quando construiu sua teoria concluiu exatamente o contrário do que Bacon disse quando afirmou que a variedade dos indivíduos seria desvios promovidos pela natureza. Darwin concluiu por observação que a variedade era pressuposto da mudança da natureza e que essa mudança privilegia aqueles indivíduos já modificados naquilo que eles oferecem de vantajoso para sua sobrevivência em concorrência com outros. Darwin, porém, prudentemente, nunca descartou a possibilidade e realidade do ambiente também promover mudanças passíveis de hereditariedade, como veremos mais adiante.

Como o autor pode ter usado algo contrário ao que pensa tentando atribuir plágio a Darwin quando ele conclui exatamente o oposto de quem o autor o acusa de ter copiado? Resposta: falácia para incautos. Incauto pelo jeito é o próprio autor, que não entende o que lê e no afã de justificar o que pensa acaba pegando até exemplos contrários daquilo que defende imaginando que está confirmando suas idéias.

Por fim, depois de tentar ligar Darwin às idéias de Lamarck, Malthus e à influência de seu avô Erasmo, fatos históricos que não são negados pelas pesquisas sérias, o autor chega à conclusão de que Darwin não poderia ter elaborado à Teoria da Evolução e acusa-o de plagiar Wallace que havia chegado às mesmas conclusões de maneira independente e também por observação minuciosa.


A questão Darwin-Wallace

A leviandade nesse ponto chega ao cume ao se fazer alusão a um episódio polêmico que não se justifica pela argumentação apresentada. O episódio Darwin-Wallace é repleto de conjecturas que colocam em dúvida a maneira amistosa, branda e respeitosa que dois naturalistas se trataram apesar de ambos terem chegado às mesmas conclusões científicas.

A verdade, nesse caso, parece querer ser determinada pela vontade pessoal de quem emite opinião acerca do episódio. Muitas opiniões têm como base o caso Newton-Leibniz, cuja descoberta simultânea e independente do cálculo trouxe rusgas públicas, troca de acusações e animosidade entre ambos e seus seguidores. Isso talvez cause maior identidade nas pessoas; cientes de que a vaidade humana é forte e dominante. No caso de Wallace e Darwin nunca houve notícia de que tiveram qualquer desentendimento, inclusive trocando elogios e reconhecimento múto em público e em cartas.

Embora o autor do artigo enfatize como negativa a influência que a leitura de Malthus teria exercido sobre Darwin, esquece-se que Wallace também o teria lido e se influenciado por ele. A leitura dos diários de Darwin desde sua viagem no Beagle mostra que a idéia da Seleção Natural já era fato em sua mente, coisa que também o autor do artigo esquece ou escamoteia da informação que pensa estar passando com isenção, ou quer que acreditemos que esteja.

Extrair e descontextualizar fatos para manipulá-los a favor de ideologias é uma das piores pragas a favor do obscurantismo. Darwin relutou por mais de 10 anos para publicar sua teoria; envolto em dilemas que não só tinham a ver com o impacto numa sociedade a qual era membro emérito; tradicional e rígida, como também em seu próprio relacionamento familiar, cuja formação foi toda voltada a assumir um cargo religioso, e seu casamento com uma religiosa fervorosa que acreditava na Bíblia de forma literal. Darwin viajou lamarckista e por assumir uma postura baconiana foi mudando de idéia de acordo com aquilo que seus minuciosos olhos puderam observar.

Se formos levar em conta a tendenciosa linha de raciocínio do autor do artigo, deveríamos considerar Wallace muito menos apto do que Darwin a chegar à conclusão que chegou, já que ele era conhecido também por seus arroubos místicos de pesquisas em ciências ocultas. Se as credenciais de Darwin não o legitimiza a mudar de idéia a partir de suas observações para formular a Seleção Natural, muito menos as de Wallace.

É claro que não nos soa justo Alfred Wallace hoje ser apenas uma nota de rodapé na história da ciência, embora haja muitos trabalhos tentando resgatá-lo em seu mérito inquestionável, o qual Darwin nunca se opôs. Mas a devida contextualização da história toda ao menos nos impede de julgar Darwin de forma determinista e condenatória como o autor do artigo faz.

É fato, comprovado em seus diários, que antes de trocar correspondência com Wallace, Darwin já esboçava o que seria a teoria da Seleção Natural. Por uma série de motivos ligados aos dilemas que viva havia decidido não publicar nada ainda, e foi motivado pela carta que recebeu de Wallace a divulgar seus pensamentos. Teve a hombridade de apresentar, mesmo sem a presença de Wallace, ambas as teorias na Sociedade Científica de Londres. Instala-se aí outro dilema em Darwin: em mérito Wallace teria a primazia de ter escrito publicamente primeiro suas idéias, pois tornou conhecida para além dele através da carta que enviou a Darwin, e em direito, quando Wallace era apenas um adolescente fanfarrão, Darwin já tinha essas idéias formuladas e aguardando o momento correto de divulgá-las.

A história encarregou de privilegiar o mais abastado e presente na sociedade como quase o único representante da teoria, mas Darwin jamais fez qualquer esforço para que Wallace fosse esquecido, fazendo questão de conseguir cargos para ele com salários que pudessem sustentá-lo condignamente. Os interesses de Wallace eram outros, e jamais poupou elogios a Darwin e ter com ele relações amistosas. Darwin, no entanto, provavelmente sabia que ele poderia reivindicar a primazia a qualquer instante. Se ele o tratou bem por causa disso ou se ambos de fato mantiveram um contato amistoso e respeitoso de forma natural, apenas conjecturas poderiam responder e seriam respostas ao sabor daquilo que queremos que seja verdade e não a favor da verdade mesmo, se é que ela exista.

Esses são os fatos, o que nada impede, infelizmente, de serem distorcidos pela leviandade. E a leviandade chega ao cúmulo de continuar o referido artigo tentando desfilar uma lista de inabilidades de Darwin querendo provar não se sabe o quê.


Desconhecimento da Teoria da Evolução

Por fim, por citações que não contradizem o que Darwin disse, o autor do artigo demonstra não só sua ineficiência argumentativa, mas desconhecimento cabal da obra cujo autor quer denegrir através de falácias recorrentes. É citada a atual controvérsia sobre definição de genes cuja idéia ou realidade nem passava pela cabeça de Darwin. No entanto, no Capítulo V (Leis da Variação) de A Origem das Espécies, por mais sedutor que parecesse a idéia de que a variabilidade ocorresse de forma aleatória, Darwin prudentemente deixa em aberto a real possibilidade de parte dela ser afetada pelo ambiente causando hereditariedade, dando numerosos exemplos entre o que observou. Logo, o que hoje a genética está comprovando como possível, ao contrário do que se acreditava antes, Darwin já havia deixado em aberto em suas observações. Inclusive no Capítulo II ele cita e dá méritos a várias observações de Wallace na Malásia que corroboram com essas afirmações.

Darwin começa o Capitulo V falando sobre nosso erro em admitir que seja ao acaso a variação verificada nas espécies. Ele questiona também, com extrema propriedade, até os critérios de classificação da época do que seria uma espécie, considerado como arbitrário. Assim como disse no início desse artigo, "acaso" significa também para Darwin, apenas um nome dado à nossa ignorância sobre a causa de um fenômeno.

Portanto, Darwin tem a prudência, o bom senso e a firme voluntariedade de não cometer imposturas e leviandades ao não afirmar categoricamente que as variações verificadas dentro de uma determinada espécie não sofram influências do ambiente. Ele admite que existam casos cujo ambiente promova uma variação na espécie passível de hereditariedade e admite também que essa variação aconteça sem ligação direta com as condições ambientais, apresentando-se de forma aleatória. Lembro que “aleatório” é o nome dado à situação de não termos condições de detectar ou determinar uma causa suficiente e necessária para um evento.

Nota-se que não é difícil perceber que quando não conhecemos a obra de quem queremos contestar, corremos o risco de argumentar contra suas idéias por coisas que ela mesma disse e concorda, nos expondo ao ridículo e nos auto-sabotando em nossa credibilidade.


Mais retórica para inglês ver

Já no final do referido artigo, o autor continua sua retórica adjetivada com alusão a falsidades, ludíbrios e uma mágoa intensa contra as festividades em torno do nome de Charles Darwin, citando quatro frases que, tirando a tosca comparação entre Einstein e símios feita por Trattner, em nada dizem qualquer linha contra a Teoria da Evolução de Darwin. Essas citações, porém, levando em consideração toda a retórica falaciosa anterior, dá a impressão contextualizada que reforçam as idéias do autor.

Para terminar, ainda podemos ser levados a links onde estão outros posts com o mesmo teor falacioso e tendencioso que perdem a oportunidade de não expor ao ridículo uma linha argumentativa que demonstra cabalmente as intenções do autor. Curiosamente um autor que não se revela e se esconde sob o pseudônimo de Almirante. Por certo de uma nau furada no obscurantismo do dogmatismo religioso travestido de pseudo-ciência.

Lamentável é perceber que existe uma cruzada violenta contra algo que se demonstra repleto de ignorância daquilo que se pretende atacar. Fico a imaginar se esse tipo de coisa acontece por inocência, fanatismo ou má intencionalidade, ou até um misto dos três promovido pela promiscuidade do obscurantismo.

200 anos Darwin - uma comemoração do mundo (Resposta a Conexões Epistemológicas) I

Eu me comprometi a escrever uma série de artigos em comemoração aos 200 anos de Darwin e aos 150 anos da publicação de a Origem das Espécies, e mesmo já tendo lido o livro de Darwin algumas vezes e discutido por anos sobre sua teoria no Orkut e em diversos ambientes, e passando de um ceticismo não-dogmático a um razoável entendimento de seus postulados, toda vez que me debruço a escrever algumas linhas eu lembro que faço parte do Blogs de Ciência e que, possivelmente, serei lido por cientistas de todas as áreas a procura de uma escorregada não fundamentada em tudo que escrever.

Não penso que isso seja ruim; o rigor quando se fala de ciência é algo desejável, e mesmo em qualquer outra área de conhecimento (inclusive e principalmente em Filosofia que é a minha) algo dito com leviandade pode afundar nossas pretensões acadêmicas de pesquisa ou mesmo a credibilidade que precisamos para ao menos sermos lidos.

Esse Blog, embora honrosamente participe de um agregador de blogs científicos, tem uma pretensão extra-oficial filosófica. Sua idéia original foi servir de parteiro de idéias a serem desenvolvidas por mim posteriormente, como a própria apresentação dele afirma. No entanto, mesmo nas reflexões mais desprendidas que faço, procuro cercar o dito pelo que ele é: ora poesia despretensiosa, ora uma crônica, ora uma opinião sobre um caso notório e ora ainda sobre algum tema do qual tenho estudado e possa refletir a respeito com argumentos que procuro cercar de certo rigor metodológico. É claro que o Bruno, webmaster do Blogs de Ciência, sabe que a Filosofia precedeu e retroalimenta a ciência desde sempre, o que traz essa tolerância bem vida em ter-me lá entre os cientistas blogueiros do site. E que bom, mostra coerência e o espírito gregário e plural de nossos pesquisadores.

Bem, mas a questão é que algo inusitado me tirou do armário e da prudência hesitante para me manifestar sobre esse assunto que queria tanto falar. Eu leio tudo o que posso no Blogs de Ciência e em fontes diversas sobre evolucionismo, me “antenando” nas mais recentes descobertas e, sobretudo, nas opiniões e argumentos que nossos amigos escrevem a respeito do tema. Em minhas pesquisas, me deparei com um artigo agregado ao Blogs de Ciências que me chamou muito a atenção.

Esse artigo é do Blog Conexões Epistemológicas e assinado por alguém que se intitula Almirante. O artigo o qual me refiro é 200 anos de Darwin. Para inglês ver. Ao clicar para lê-lo na íntegra, já que a chamada me soou já estranha no início, vejo do lado esquerdo do Blog um mural de recado com um agradecimento de outro Blog chamado Design Inteligente. Suspeito, inclusive, que até já cheguei a trocar algumas palavras com alguém de nome Almirante em alguma comunidade do Orkut, mas mesmo assim continuo a leitura.


A Argumentação

O artigo começa com um enunciado que seria polêmico se ao menos no restante do artigo houvesse as justificativas e argumentos que demonstrassem sua validade:

Tais festividades agravam a mácula. Nenhum dos dois foi de fato cientista, muito
menos original. Eram empiristas, calcados em dialéticas platônicas,
exclusivistas. Ambos se valeram de uma gama de precedentes, meros preconceitos,
por isso eivados de metafísicas, de equívocos epistêmicos e metodológicos


A mácula a que ele se refere é a frase dita logo acima desse trecho a qual afirma que não seriam poucos os que consideram Newton e Darwin os cientistas britânicos mais importantes de todos os tempos, e depois emenda falando das festividades em torno dos 200 anos de Darwin. Por que seria uma mácula muitos considerá-los os maiores cientistas de todos os tempos?

O autor tenta responder essa pergunta subentendida na afirmação inicial e argumentar a favor de seus pensamentos citando Feynman in apud de Gleick no livro A Natureza de um Gênio e depois Karl Popper em A Ciência Normal e seus Perigos.

Curioso é depois de afirmar que essas duas citações já seriam o bastante para afastar Darwin e Newton das crianças, afirmar também que exista um mito em volta de ambos e logo em seguida descartar o próprio argumento na esperança de desenvolver outros que sejam mais pertinentes do que esses.

Bem, ao menos parece que o autor do artigo percebe que os argumentos a que ele recorre na citação de Feynman e Popper de fato são pobres e merecem ser descartados. Só comete o exagero em dizer que eles seriam suficientes para afastar Newton e Darwin das crianças. Eu me coloco a imaginar qual seria a suficiência que essas citações teriam para que Darwin e Newton fossem afastados das crianças? Salvo engano ele fala das festividades que envolvem ampla divulgação entre as escolas e também do ensino de suas teorias na educação infantil. Será?

Até aqui tudo já começa a ficar claro. Associar essa introdução ao elogio rasgado do Design Inteligente parece de fato esclarecer a linha de pensamento a que se destina o Blog em questão. O que me causa espanto é encontrá-lo em meio a artigos científicos uma propaganda rasgada e desarticulada de uma pseudo-ciência obscurecida por uma crítica ao “lado oposto”, que por coincidência é a Ciência.


Eu não discordo da crítica à ciência e ao método científico. Os próprios cientistas a fazem e eu, enquanto postulante a filósofo, me julgo legitimizado a fazê-la naquilo que posso argumentar nas possíveis incoerências que possam ser detectadas. Mas outra coisa, parece-me, é fazer a crítica levantando bandeiras ideológicas ou religiosas as quais querem substituir algo pelo que ele não é e nem tem como ser, por mais fanatismo que se possa alimentar dentro de si. Outra ainda é atacar a suposta vida pessoal do cientista querendo invalidar seu pensamento, que independe dela.

Pela qualidade dos argumentos envolvidos na crítica do artigo mencionado, nota-se que ela tem a intenção obscura de desacreditar nomes importantes do pensamento humano a favor de idéias que não substituem e nem passam perto da verossimilhança que eles imprimiram nas deles.

E por que salta aos olhos essa intenção do autor? Por que é recorrente, quando defendemos uma idéia e não temos uma linha sólida e verossímil de argumentos para defendê-la, tentarmos denegrir o pensamento contrário, pegando frases e citações de pessoas que gozam de certa credibilidade para confirmar o que pensamos, mesmo que essas pessoas falem as maiores besteiras imagináveis. A falta de pensamento crítico ao pensamento que parece concordar com o nosso é uma falha lógica da mais alarmante, e basta ser um pouco cauteloso para perceber que o interlocutor dá um tiro no próprio pé ao fazer isso.

Citar Feynman e Popper nos contextos aos quais foram citados, constitui um tiro no próprio pé da argumentação tendenciosa do Sr. Almirante. Primeiro que Feynman não é infalível e não argumentou cientificamente sobre o que estava falando. Ele era físico, e antes de tudo humano, o que não o exime e até o incentiva a também dizer besteiras sobre biologia. Segundo que Popper, depois de tanto criticar a Teoria da Evolução, reconheceu mais tarde que ela se circunscrevia em sua demarcação, pedindo desculpas públicas. Mas não vamos aqui apenas dizer o dito pelo não dito, vamos argumentar a favor do que pensamos.


A Citação de Feynman

Comecemos pela citação de Feynman. Ele afirma que nem a física de Newton nem a biologia de Charles Darwin “disseram muito que possa contribuir para um quadro coerente de nos mesmos dentro do Universo”. E daí? Deixam de ser ciências por isso?


Feynman não seria leviano para dizer algo assim, a despeito do uso descontextualizado que o autor faz dessa frase. A ciência que tanto Newton quanto Darwin fizeram, notadamente reconhecida dentro de seus recortes modulares, não se presta a responder essa pergunta. Só seria cabível cobrar isso de suas teorias se fossem essas as suas pretensões. Feynman dirigia-se, logicamente, a quem quisera extrapolar o escopo epistemológico dessas teorias para respostas as quais elas não foram formuladas para dar. Nesse ponto, mesmo concordando com Feynman, é de um expediente pobre descontextualizá-lo para dar voz a ideologias pseudo-científicas, embora seja típico dos criacionistas.

Logo abaixo, continuando a citação, Feynman diz: “A biologia darwinista, quer em sua versão original bruta é determinista (a sobrevivência do mais forte), quer na versão neodarwinista com ênfase na evolução aleatória tem pouco a nos dizer acerca do porque de estarmos aqui, de como nos relacionamos com o surgimento da realidade material e muito menos a cerca do propósito e significado de qualquer evolução da consciência além da conclusão muito simples e utilitária de que a consciência parece 'conferir alguma vantagem evolutiva'.”

Essa é a demonstração mais cabal de que alguém, mesmo gozando de credibilidade e comparável a um gênio, fora do contexto que domina pode desferir besteiras homéricas quando emite opinião daquilo que pensa conhecer. Primeiro que não há qualquer justificativa que demonstre o que sustenta essas afirmações, nem na própria citação, nem depois por parte do autor que a cita in apud. Logo, são opiniões pessoas que entram na suposta argumentação do autor baseadas numa suposta autoridade do citado. Pura falácia de apelo à autoridade.

Mais uma vez, Feynman parece querer cobrar dos incautos que pensam que uma teoria científica precisasse responder questões morais, que se eles querem respostas, que procurem além das ciências, pois para ela não importa o propósito ou o significado da evolução, importa, na forma como foi feita, em descrever seu mecanismo de atuação.

O que demonstraria determinismo na Teoria da Evolução de Darwin? Talvez a frase extrapolada de sua obra pelos darwinistas sociais, a qual ele nunca disse, sobre a sobrevivência dos mais fortes? Feynman parecia estar mal informado ou dizendo diretamente a quem erroneamente interpreta Darwin dessa forma, mas contudo o autor do artigo o cita nessa gafe apenas por que ele diz algo com que ele concorda.

Um olhar epistemológico sobre a chamada “versão bruta” da Teoria da Evolução de Darwin aponta em direção totalmente contrária ao um determinismo. Curioso notar que o Blog que traz essa pérola chama-se Conexões Epistemológicas, o que quase chega ser hilário. Onde estaria o determinismo num mecanismo que postula a necessidade dialética entre uma condição prévia de variabilidade filogenética numa população e as condições ambientais para garantir a sobrevivência e vantagem competitiva de uma espécie?

Aqui fica claro por que na frase inicial do artigo o autor coloca Darwin como um “empirista calcado em dialética platônica, exclusivista”, seja lá o que isso signifique. Ele confunde a dialética definida por Platão com os conceitos variados de dialética que existiam antes dele e os que foram construídos depois dele. Antes, embora não fosse chamado por esse nome, temos tanto Heráclito quanto os Sofistas delineando idéias de dialética. Depois dele temos tantos outros, já com esse nome mesmo, que mudaram totalmente o sentido platônico de dialética (nem é preciso citar Hegel, Marx e etc.).

A dialética platônica era determinista. Ela pressupunha o diálogo com alguém que já houvesse saído da “Caverna” para conduzir maieuticamente o interlocutor para um determinado fim. Confundir a base epistemológica evolucionista, dialética por excelência, com a dialética platônica determinista, parece-me ser desconhecer ambos ou estar de fato mal intencionado no obscurantismo proposital.

Outro ponto na citação de Feynman é ele afirmar que a suposta versão neodarwinista enfatiza a evolução aleatória. Que versão é essa? É claro que não sou um expert a toda prova, mas desconheço essa tal versão.

Temos dois prismas para analisar essa questão. Primeiro que a palavra acaso e aleatoriedade se assemelham, a meu ver, em suas estruturas conceituais, a palavras como infinito e eterno. São palavras que designam ignorância e não conhecimento. Chamamos de acaso não algo que com certeza e comprovadamente não tem causa, mas sim algo cuja causa não se conseguiu detectar ou determiná-la com segurança. Chamamos de infinito algo que não temos capacidade de determinar sua duração ou extensão e não algo que sabemos com segurança que não exista fim. Damos nomes à nossa incapacidade de determinar algo e acreditamos que a ignorância sobre o que ela designa nos revele a verdade. Um pouco de conexão epistemológica nos mostraria isso.

A aleatoriedade não está na evolução. A aleatoriedade está na impossibilidade da época e a atual em determinar se existe um propósito ou um finalismo na variabilidade verificada no pool genético de uma população que disputa um determinado nicho ecológico. A evolução é a relação dialética entre essa variabilidade e as condições do ambiente, que propicia a Seleção Natural das expressões existenciais filogenéticas mais eficazes.

Só seria possível afirmar algum suposto finalismo nessa variabilidade se fosse possível conceber que naquele nicho houvesse uma inteligência metafísica que antevisse as condições ambientais futuras. E se houvesse seria desperdício de tempo e energia criar tanta variabilidade para sobrar poucos. Pois é, Deus parece jogar dados sim, ao contrário do que Einstein dizia.

Em suma, Feynman falou besteira por desconhecimento de uma área que ele não tinha obrigação alguma de saber, embora pudesse ter sido mais prudente e menos leviano, e ainda é citado como autoridade para embasar um argumento mal construído e que não tem sustentação própria. Levando em conta que ele poderia estar direcionando suas palavras a quem pensasse mesmo daquela forma, ao inves de declarar que pensa assim, podemos ainda compreendê-lo, coisa que parece mais dificil quando tentamos compreender a argumentação do autor do artigo.


A Citação de Popper

Outro caso é da citação de Popper. Nem entrarei no mérito da retratação que ele fez mais tarde reconhecendo a pertinência e a cientificidade da Teoria da Evolução. A opinião pessoal dele em relação a Darwin ser revolucionário ou não, não faz o menor sentido naquilo que o autor procura argumentar a favor do que pensa.
O que teria a ver o fato de Darwin não ter uma postura revolucionária e ter feito uma teoria revolucionária? Esse fato só pode ter a ver com a pretensão posterior do autor em desacreditar a originalidade de Darwin em sua teoria, entrando na polêmica não comprovada de que Darwin teria plagiado Alfred Wallace. Essa é outra questão que merece ser comentada e será, mas a causa aqui é que essa citação em nada reforça as afirmações iniciais que o autor faz.

Dizer tudo isso e depois afirmar que o mito de Darwin continua atraindo os incautos e que empresas ligadas à comemoração dos 200 anos faturam como nunca, acabam por revelar a tônica do artigo; que não tem nada a ver com uma crítica fundamentada em relação às idéias em volta da Teoria da Evolução. Incauto parece ser quem engolir como um artigo sério as numerosas falácias que o autor faz uso nos nove primeiros parágrafos, logo de cara, dizendo aos cautelosos para o que realmente veio.

Parece-me que quem quer criar um mito em volta de Darwin é justamente um movimento fanático e intolerante que não vê meios legítimos de descomprovar a Teoria da Evolução e usa dos expedientes mais desonestos possíveis para manchar a imagem do homem que a construiu.

No próximo post continuo o comentário sobre o artigo em questão.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Testanto o Programa Shozu


Posted by ShoZu



Estava testando o programa ShoZu em meu SmartPhone Moto Q11 e acabei mandando para o Blog essa foto. Coitados de meus assinantes, receberam minha cara na tela de suas caixas postais. Desculpem pessoal... que fora rs...

terça-feira, 7 de abril de 2009

Diálogo Filosófico


Ache outros vídeos como este em Reflexus Nexum Amplexus

segunda-feira, 6 de abril de 2009

A Borboleta

A borboleta bate suas asas em direção ao infinito. Mas enquanto voa sabe lá no fundo que o infinito é apenas um nome humano dado a algo que ele não consegue ver o fim. Ela ri dos homens. Essa necessidade toda de nomear, delimitar, classificar, categorizar. O homem rotula e coloca em gavetas e prateleiras tudo o que vê e depois designa sistemas e pessoas como guardiões dessas gavetas e prateleiras para que jamais sejam mexidas; apenas sirvam de consulta a alguns privilegiados que traduzirão o que entendem para os outros de categoria menor.

O próprio homem faz isso consigo mesmo. Ele se classifica, se separa, se categoriza e vive contestando e brigando por conta disso. Classifica e categoriza até as borboletas. A borboleta pensa sim. Mas não pensa como os humanos. Por que ela precisa ser uma lepidóptera? Que diferença faz ela ser lepidóptera ou um coleóptero? São nomes, apenas nomes, e seres humanos acreditam que nomes tragam o ser daquilo que eles nomeiam. Mas nomes não carregam essência, nomes são nomes.

As borboletas vivem no mesmo mundo que os humanos, mas não tem as mesmas necessidades deles. Ela não precisa classificar em prateleiras o que vê, nem tampouco precisa organizar tudo para que tire o melhor proveito daquilo que a cerca. Tampouco precisa controlar, dominar e subjugar tudo o que pode para alimentar qualquer sentimento de poder.

Ela, em seu contato próprio, intrínseco com o mundo, tem o poder que lhe cabe; puro fluxo contínuo amalgamado com as coisas, cumprindo seu papel desde dentro naquilo que melhor expressa ela própria. Não precisa saber e objetivar, ela é, simplesmente é. E sendo o que é, cria no mundo sua marca de ser, sem se importar com o que é, apenas sendo, continuamente sendo.

Os homens não conseguem ser por si mesmos. Eles precisam mudar o ser dos outros para construírem-se como desejam. Subvertem a natureza a um quadro fixo e imutável das coisas, desrespeitando aquilo que ela tem de mais característico: a mudança constante de tudo. Não é admissível ao homem que a as coisas mudem, transformam-se, passem a não-ser no segundo seguinte que eram. Se mudam de categoria daquilo que o homem determinou que fosse, não é a categoria que está errada, e sim a coisa, pois ela não pode mudar. Se mudar era por que não era verdadeira, era falsa. Ahhh homens...

E onde tudo isso começa? A borboleta sabe. Sabe por que sabe, e não por que racionalizou as coisas para que soubesse. Ela participa da sabedoria do mundo pois está dentro do fluxo contínuo das coisas, interferindo nele e sendo afetado por ele. Ela sabe que é a consciência da finitude que faz com que o homem fixe e imobilize tudo à sua volta. Ela sabe que é por isso que ele precisa nomear as coisas e imobilizá-las, por que dentro dele a percepção do tempo, da sucessividade e da mudança mostram ao homem que ele logo deixará de ser o que ele pensa que é. Imobilizar o mundo é a forma do homem eternizar o que ele pensa que conhece.

O homem cria a idéia de infinito para que as coisas sejam eternas. As coisas que mudam e se sucedem no tempo, para o homem, são falsas. Logo, ele precisa ser eterno para que seja verdadeiro. Se ele pensa sobre isso, logo existe, e se existe é verdade. Se é verdade precisa ser eterno, pois só o que é falso muda e deixa de existir.

A borboleta ri disso tudo. Ela sabe que sua eternidade está naquilo que a faz parte da própria natureza e no seu fluxo constante da vida, que muda e se espraia em possibilidades de acordo com o moto contínuo de tudo e dos rearranjos constantes na alteridade. Cada ser vivo é dialético com o mundo. Ele se faz e faz o mundo no contato com ele. Eis aí a sensação da própria infinitude: ela está na percepção do movimento.

Comprometer-se com o mundo e responsabilizar-se por si é respeitar aquilo que lhe dá máxima expressão existencial, a sua Aretê. Encontrando-a você será aqui que é, sem que precise determinar-se em categoria existencial alguma.

Voa borboleta, você sabe. Sabe tudo.